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segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sobre cesariana eletiva, sem necessidade, com 37 ou 38 semanas de gestação

Por Melania Amorim:

Serviço de utilidade pública: recém-nascidos (RN) entre 37 e 38 semanas são considerados como "termo precoce" e têm uma morbidade significativamente maior, em relação aos RN entre 39 e 40 semanas. A CESARIANA ELETIVA desnecessária (=sem indicação médica) aumenta os riscos de desconforto respiratório, admissão em UTI e outros desfechos neonatais adversos, e esses riscos são tanto maiores quanto menor a idade gestacional. MARCAR CESARIANA ELETIVA SEM INDICAÇÃO antes de 39 semanas É UM CRIME, UM ATENTADO CONTRA OS NEONATOS. Proteja o seu bebê!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Viva o ânus!

(por Ana Fialho, dedicado a Bernadette Bousada - ambas obstetras)

"Num país não tão distante, por motivos não tão claros, de repente começaram a se fazer muitas colostomias. Fazer coco naturalmente tinha riscos potenciais, hemorróidas, fissuras, doía... Algumas pessoas, coitadas, herdavam geneticamente a dificuldade de fazer coco, outras pessoas não tinham nenhum prazer no ato, outras ainda achavam que se perdia muito tempo da vida sentadas na privada. Optavam então por colocar uma bolsa no fim do intestino e por ali o coco sairia sem complicações.

Nesse país era tão frequente a cirurgia que os médicos ficaram craques nela! Os resultados eram maravilhosos, poucas intercorrências, na verdade a taxa de mortalidade era quase zero! Com o avanço na tecnologia cirúrgica e farmacêutica, a dor do pós operatório e as infecções eram mínimas! Ninguém mais questionava quando alguém escolhia nunca mais fazer coco na vida, uma escolha informada, a pessoa é livre, o anus é dela e ela decide se quer usá-lo ou não!

Com o tempo, a taxa de colostomia ultrapassou os 80%, a minoria que ainda queria fazer coco era taxada de louca, irresponsável, inconsequente. Como quase ninguém mais fazia coco, o evento, outrora cotidiano, tornou-se assustador! Dava muito medo fazer coco. So se podia fazer coco com ajuda de profissionais, muitas intervenções para auxiliar e claro em ambiente hospitalar.

O medo era tanto que as complicações entre os fazedores de coco aumentaram muito, taxas de hemorróidas, fissuras, até hemorragias graves após o ato aumentaram vertiginosamente. Fora aquele cortezinho no anus pra ajudar a sair o coco que inflamava, doia, dificultava os próximos cocos... Mesmo com medicações, anestesia, cortes, fazer coco era muito difícil, tinha que ser muito corajoso! Ouvi dizer até que a vizinha de uma prima que mora nesse país morreu entalada porque quis forçar fazer coco de qualquer jeito, sem ajuda de ninguém. Um horror.

Se essa história parece estranha, exagerada, se a comparação com o parto te parece esdrúxula, é simplesmente porque a cesariana para nós não é mais considerada uma cirurgia que substitui um evento fisiológico. O parto não é mais considerado fisiológico e quem está perdendo somos nós, mulheres, homens, crianças.

Viva o ânus! Meu corpo, minhas regras!"

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Consulta Pública 55 e 56 da ANS sobre as Cesáreas indesejadas e desnecessárias

Participe da Consulta Pública 55 e 56 da ANS sobre as Cesáreas indesejadas e desnecessárias.

Até o dia 23 de novembro, a ANS está aberta para receber sugestões da sociedade sobre a divulgação de taxas de cesáreas de médicos e hospitais, sobre o uso de Partograma e sobre o uso do Cartão da Gestante.

Basta entrar no site da ANS e participar da consulta!



A Parto do Princípio elaborou um tutorial para facilitar esse processo e um texto explicativo sobre o que isso tudo significa.

Participe!

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um bebê saudável não é a única coisa que importa


Esse texto foi traduzido pela Clarissa Oliveira e postado em http://amaequequeroser.wordpress.com/2013/02/10/um-bebe-saudavel-nao-e-o-bastante/


"Venho sofrendo com uma questão que se tornou dolorosamente pessoal para mim: por que tantas mulheres, tantas amigas, aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir, desistem de lutar contra o sistema e se tornam mais uma contribuinte à vergonhosa estatística de parto do nosso país?

Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (se bem que as masoquistas estão na moda, né? :-P). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.

Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência  diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.

E é por isso que quero compartilhar esse texto maravilhoso com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu."



Um bebê saudável não é a única coisa que importa - 
por Cristen Pascucci


Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é a única coisa que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.

Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.

O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.

Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?

É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de  respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.

Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.

Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”

Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.

Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Morte por cesariana desnecessária


Da obstetra Carla Andreucci Polido, sobre a morte por cesariana desnecessária.

"Morte materna é um fato incontestável. Perdemos mais uma brasileira, sem riscos anteriores, submetida a uma cesariana eletiva por "circular de cordão", que desenvolveu uma trombose intestinal no pós operatório.

Cesariana é uma grande cirurgia, com todas as grandes implicações que isso representa. Realizá-la sem indicação clínica é submeter a mulher e a criança a riscos desnecessários, por mais avançada que seja nossa medicina.

Há necessidade de melhora de nossa assistência obstétrica, fato incontestável. Mas essa melhora precisa passar pela qualificação da assistência ao parto normal em primeiro lugar.

Chega de operar todo mundo por comodidade dos serviços ou dos profissionais, ou mesmo das famílias.

Vamos voltar a fazer obstetrícia de verdade, com toda a tecnologia incorporada à prática, sempre que realmente necessária.

Essa é a evolução da ciência.

Assim salvamos vidas."

terça-feira, 17 de julho de 2012

Grandes frases de efeito da obstetrícia moderna

1 - Essa gravidez foi tão desejada, tão planejada, deu tudo certo até agora, por que esperar mais e arriscar um problema? Vamos marcar a cesárea?


2 - Depois daquela sua perda, dois anos atrás, acho que não deveríamos arriscar. Vamos marcar a cesárea?


3 - Olha, o seu bebê está alto e desencaixado. Da minha experiência, você não vai nem entrar em trabalho de parto. E aí, vamos marcar a cesárea?


4 - Seus exames estão ótimos, mas o seu ultrassom me preocupa. Parece que o bebê tem uma circular de cordão e isso pode gerar uma série de problemas no parto. E aí, vamos marcar a cesárea?


5 - Que bom, 37 semanas, o bebê está ótimo e já está pronto para nascer a qualquer momento. Só que eu não sei se consigo estar no seu parto. Vamos garantir e marcar essa cesárea?


6 - Puxa, seus exames estão excelentes, parabéns! Então, as festas estão chegando, feriado, os hospitais ficam bastante lotados, talvez não tenha vaga para você, se não marcarmos com antecedência. E aí, vamos marcar a cesárea?


7 - Até agora está tudo bem, mas eu estou vendo no seu exame que você está com ......................... [preencha o espaço em branco]. Não podemos mais esperar. Temos que marcar uma cesárea urgente para.. Deixa eu ver aqui.. Pode ser sexta feira? Não? Marcou escova? Ah, tá, é, tem razão. Que tal sábado? Espera, sábado eu tenho o batizado do filho do zelador. Uhm... Segunda feira 7h, combinados? Não podemos mais esperar.


8 - Eu prefiro parto normal, é bem melhor quando dá tudo certo. A recuperação da mãe é bem melhor, mas o bebê pode ter retardo mental, sabe como é.


9 - Eu prefiro parto normal, só que eu não me arrisco. Se tiver qualquer problema, eu opero!


10 - Eu já me arrependi de vários partos normais que atendi, mas nunca me arrependi de uma cesariana indicada.


Por: Ana Cristina Duarte, GAMA.




*E aí, qual foi a razão da sua cesárea?

segunda-feira, 18 de junho de 2012



"Enquanto o Fantástico menciona uma ativista que morreu do outro lado do mundo, no Brasil e no Estado de São Paulo a mortalidade materna PERMANECE em patamares ELEVADÍSSIMOS.
E não é por causa de parto domiciliar, muito menos os planejados.
É por excesso de cesariana.
É por negligência.
É por desrespeito."

(por Denise Niy)

Da legalidade da cesariana, ou das cesarianas desnecessárias


Nossos obstetras, agarrados ao osso do nascimento cirúrgico, erguem como um trunfo o corpo da ativista australiana morta (aliás, no hospital).

E escondem em seus armários os corpos das mortes em decorrência de cesarianas desnecessárias, eletivas, agendadas, aquelas que a sociedade vê como "o médico fez tudo que era possível, fez a cesárea, tudo direitinho".

Marsden Wagner, quando Diretor de Saúde Materno-Infantil da Organização Mundial de Saúde, alertou para o número alarmante de mulheres que morriam anualmente no Brasil em decorrência dessas cesarianas: 500 mulheres!

Quando a Rede Parto do Princípio denunciou ao Ministério Público Federal, as taxas absurdas de cesarianas na rede suplementar, Marsden Wagner enviou uma mensagem pessoal:

"Gostaria de parabenizá-las pela realização deste importante trabalho pelo fim das cesarianas desnecessárias no Brasil. A mortalidade materna no Brasil é alta demais e é a maior entre as maiores taxas de cesárea do mundo. Bons trabalhos mostram que a taxa de mortalidade de mulheres que passam por cesarianas eletivas é aproximadamente 3 vezes maior que as que passam pelo parto normal. Centenas de mulheres morrem anualmente devido a cesarianas desnecessárias. O trabalho de voces é muito importante. Por favor, mantenham-me informado.

Sinceramente,
Professor Marsden Wagner M.D.
Diretor de Saúde da Criança e da Mulher
Organização Mundial Saúde"

Outra coisa.

Não existe um procedimento chamado "cesariana a pedido". Não no mundo da legalidade.

Se há obstetra despudorado o suficiente para lançar esta frase como indicação de cirurgia num prontuário, das duas uma: ou é petulância, ou ignorância.

Portanto, não digam - srs. obstetras, cremesp, sociedade - que fazem cesarianas porque as mulheres querem: os senhores NÃO PODEM fazer cesariana "a pedido". Se pudessem, se isto fosse um direito, o mesmo direito estaria disponível às mulheres que utilizam o SUS. Direito não envolve poder de compra.

É por isto que o agendamento sempre vem acompanhado de uma indicaçãozinha básica: "vamos marcar, porque logo se vê que você não tem passagem!" E então o prontuário pode ser preenchido com a devida vênia: "desproporção céfalo-pélvica".

Quase toda indicação nasce dos laudos de ultrassom: "hum... tá com pouco líquido, hein? vamos marcar." hum... placenta velha. Cordão enrolado. Bebê muito grande.

E mesmo as cesáreas descaradamente agendadas, a pedido mesmo, para 11/11/11, ou de modo que não seja de capricórnio, doutor, pelo amor de deus que já basta o meu marido - mesmo pra estas sempre rola um comentário: "viu como foi bom fazermos a cesárea? olha só, as circulares do cordão!" - afinal o doutor terá que em seguida lançar uma indicação no prontuário, e a barbárie ainda não chegou ao ponto de se poder assumir: "cesariana por motivo astrológico".

E por que não se institui logo a cesariana a pedido para todos? Afinal, as maternidades particulares são formatadas para as cesáreas em série, os consultórios estão organizados em função dos dias em que o doutor opera e os dias em que está no consultório, as faculdades de medicina ensinam que cesariana é a regra, então por que não regularizam logo a esbórnia?

Primeiro, que o país é grande e contrastante demais para dar conta da cesárea como "direito de escolha". Não há hospitais em todos os recantos recônditos desse mundão. Aliás, pelo mesmo motivo não se pode, por exemplo, proibir o parto domiciliar assistido por parteira. Simplesmente porque não há outra alternativa para grande parte das brasileiras - sorte das mulheres urbanas que desejam parir de forma desmedicalizada, como recomenda a Organização Mundial de Saúde para o baixo risco - ou seja, para a grande maioria das mulheres.

E nesse conflito encontramos ainda outro ponto nevrálgico: onde irão encontrar nossos chefes de tocoginecologia, material didático melhor do que mulheres parindo em seus hospitais-escola para o aprendizado de seus residentes? Períneos em abundância para o treino de corte e costura! Episiotomias e suas episiorrafias em 100% dos partos! Tão necessário quanto cortar nossos esfíncteres a cada excreção "só pra dar uma ajudinha, senão não sai!" E o uso de fórceps em todas as primíparas - também para fins didáticos - sem nenhum tipo de esclarecimento à mulher, que sai de lá carregando pro resto da vida o peso de seu filho "ter precisado ser puxado a fórceps"?

Portanto, tenhamos clareza: quando um médico vira objeto de preocupação interestadual de conselhos de medicina por dizer num programa de televisão que o parto é um evento FISIOLÓGICO - ou seja, saudável e feito pelo corpo da mulher, que não haja dúvida: a árvore da conveniência intervencionista é que está sendo balançada.

Se a preocupação fosse com a mulher e seu bebê, não teríamos as taxas que temos de "binômios" levados a risco cirúrgico desnecessário, não teríamos o assédio moral da violência obstétrica vivenciada por milhares de mulheres todos os dias, parindo ao som de "na hora de fazer foi bom, que que tá gritando agora?!?"; não teríamos mulheres parindo convertidas em material didático das escolas de medicina; não teríamos classes de profissionais de saúde se engalfinhando pela reserva de mercado da assistência ao parto. A lista continua.

A cesariana a pedido é uma ilusão, uma miragem na qual os obstetras querem mais é que todos acreditem. Não sou contra que este direito exista, apenas penso que as mulheres que o desejam, devam lutar por sua legalização. Porque hoje, toda cesariana sem indicação comprovada é passível de processo, pois contradiz a responsabilidade civil do médico, que entre outras premissas baseia-se no seguinte artigo de seu código de ética:

"Capítulo III - Responsabilidade profissional
É vedado ao médico:
(...)
Art 14 Praticar ou indicar atos médicos desnecessários (...)".

Por ROSELENE DE ARAÚJO.