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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

MITOS E FATOS - Tabus associados ao PARTO




"Mitos e Fatos. São poucos os fatos da vida envoltos em tanto mistério, medos e tabus quanto o parto. Talvez nem o sexo tenha sido tão mistificado, alguém aqui já ouviu falar de quem tenha medo de morrer de sexo? Ou de ter falta de líquido, cordão enrolado, bacia estreita para o sexo?

Quem já esteve grávida fartou-se de ouvir de amigos, parentes, conhecidos e até de desconhecidos sobre os grandes perigos do parto. Todo mundo tem uma história trágica a contar. São tantas histórias dramáticas que não consigo entender como é que as nossas cidades não estão povoadas de pessoas lesadas, paralisadas, ressecadas e enroladas em cordões assassinos! Sem contar nas mulheres alargadas e com incontinência urinária no último grau.

Qual é a grávida que não foi parada pela manicure, pela cobradora do ônibus, pela cunhada da prima da vizinha para ouvir uma história tenebrosa sobre o bebê que bebeu água do parto, que chorou na barriga, que fez cocô no líquido amniótico, que secou de tanto que passou da hora, que tinha 30 voltas de cordão no pescoço, que teve um parto seco, que teve um fórceps tão forte que lhe afundou o crânio de lado a lado?

Se você está grávida e se a sua barriga já aparece, certamente você já ouviu uma história dessas e não gostou nada dos pulos que seu coração deu. Pensando em ajudar as mulheres que se encontram nessa situação, aqui vão algumas dicas para ajudar a desmistificar os "grandes perigos" que as cercam quanto mais o parto se aproxima.

*** MITO: Falta de Dilatação ***

EXPLICAÇÃO - Muitas mulheres hoje em dia dizem que não conseguiram ter um parto porque tiveram falta de dilatação.               

FATOS - Tecnicamente não existe falta de dilatação em mulheres normais. Ela só não acontece quando o médico não espera o tempo suficiente. A dilatação do colo do útero é um processo passivo que só acontece com as contrações uterinas.

*** MITO: Bacia Estreita ***

EXPLICAÇÃO - Uma mulher com bacia estreita não teria espaço para a passagem do bebê        

FATOS - Existem situações não muito comuns em que um bebê é grande demais para a bacia da mulher, ou então está numa posição que não permite seu encaixe. Não mais que 5% dos partos estariam sujeitos a essa condição. Além disso, tecnicamente é impossível saber se o bebê não vai passar enquanto o trabalho de parto não acontecer, a dilatação chegar ao máximo e o bebê não se encaixar.

*** MITO: Parto Seco ***

EXPLICAÇÃO - Um parto depois que a bolsa rompeu seria uma tortura de tão doloroso.

FATOS - A verdade é que depois que a bolsa rompe o líquido amniótico continua a ser produzido, e a cabeça do bebê faz um efeito de "fechar" a saída, de modo que o líquido continua se acumulando no útero. Além disso o colo do útero produz muco continuamente que serve como um lubrificante natural para o parto.

*** MITO: Parto Demorado ***

EXPLICAÇÃO - Um bebê estaria correndo riscos porque o parto foi/está sendo demorado.      

FATOS - Na verdade o parto nunca é rápido demais ou demorado demais enquanto mãe e bebê estiverem bem, com boas condições vitais, o que é verificado durante o trabalho de parto. Um parto pode demorar 1 hora como pode demorar 3 dias, o mais importante é um bom atendimento por parte da equipe de saúde. O que dá à equipe as pistas sobre o bebê são os batimentos cardíacos. Enquanto eles estiverem num padrão tranquilizador, então o parto está no tempo certo para aquela mulher.

*** MITO: Bebê passou da hora ***

EXPLICAÇÃO - O bebê teria como uma "data de validade" após a qual ele ficaria doente            

FATOS - Os bebês costumam nascer com idades gestacionais entre 37 e 42 semanas. Mesmo depois das 42 semanas, se forem feitos todos os exames que comprovem o bem estar fetal, não há motivos para preocupação. O importante é o bom pré-natal. Caso os exames apontem para uma diminuição da vitalidade, a indução do parto pode ser uma ótima alternativa.

*** MITO: Cordão Enrolado ***

EXPLICAÇÃO - A explicação é de que o bebê iria se enforcar no cordão umbilical            

FATOS - O cordão umbilical é preenchido por uma gelatina elástica, que dá a ele a capacidade de se adaptar a diferentes formas. O oxigênio vem para o bebê através do cordão direto para a corrente sanguínea. Assim, o bebê não pode sufocar.

*** MITO: Não entrou/não teve trabalho de parto ***             

EXPLICAÇÃO - A idéia aqui é de que a mulher em questão tem uma falha que a impede de entrar em trabalho de parto               

FATOS - A verdade é que toda mulher entra em trabalho de parto, mais cedo ou mais tarde. Ela só não vai entrar em trabalho de parto se a operarem antes disso.

*** MITO: Não tem dilatação no final da gravidez ***

EXPLICAÇÃO - A explicação é que o médico fez exame de toque com 38/39 semanas e diz que a mulher não vai ter parto porque não tem dilatação nenhuma no final da gravidez.          

FATOS - Tecnicamente uma mulher pode chegar a 42 semanas sem qualquer sinal, sem dilatação, sem contrações fortes, sem perder o tampão e de uma hora para outra entrar em trabalho de parto e dilatar tudo o que é necessário. É impossível predizer como vai ser o parto por exames de toque durante a gravidez.

*** MITO: Placenta envelhecida ***

EXPLICAÇÃO - A placenta ficaria tão envelhecida que não funcionaria mais e colocaria em risco a vida do bebê              

FATOS - O exame de ultra-som não consegue avaliar exatamente a qualidade da placenta. A qualidade da placenta isoladamente não tem qualquer significado. Ela só tem significado em conjunto com outros diagnósticos, como a ausência de crescimento do bebê, por exemplo. A maioria das mulheres têm um "envelhecimento" normal e saudável de sua placenta no final da gravidez. Só será considerado anormal uma placenta com envelhecimento precoce, por exemplo, com 30 semanas de gravidez.

Curiosamente, a amamentação também tem uma maravilhosa lista de mitos e lendas, sempre no sentido de diminuir a confiança da mãe em sua capacidade. Se você conhece algum mito interessante do parto ou da amamentação que queira nos contar, nós poderemos incluir neste quadro! Aproveite agora para cuidar de você e do seu bebê. Não deixe que os pessimistas de plantão estraguem esse maravilhoso momento da vida de vocês."

Por Ana Cristina Duarte, obstetriz.

Para o site do Parto do Princípio - Mulheres em Rede pela Maternidade Ativa

terça-feira, 17 de julho de 2012

Grandes frases de efeito da obstetrícia moderna

1 - Essa gravidez foi tão desejada, tão planejada, deu tudo certo até agora, por que esperar mais e arriscar um problema? Vamos marcar a cesárea?


2 - Depois daquela sua perda, dois anos atrás, acho que não deveríamos arriscar. Vamos marcar a cesárea?


3 - Olha, o seu bebê está alto e desencaixado. Da minha experiência, você não vai nem entrar em trabalho de parto. E aí, vamos marcar a cesárea?


4 - Seus exames estão ótimos, mas o seu ultrassom me preocupa. Parece que o bebê tem uma circular de cordão e isso pode gerar uma série de problemas no parto. E aí, vamos marcar a cesárea?


5 - Que bom, 37 semanas, o bebê está ótimo e já está pronto para nascer a qualquer momento. Só que eu não sei se consigo estar no seu parto. Vamos garantir e marcar essa cesárea?


6 - Puxa, seus exames estão excelentes, parabéns! Então, as festas estão chegando, feriado, os hospitais ficam bastante lotados, talvez não tenha vaga para você, se não marcarmos com antecedência. E aí, vamos marcar a cesárea?


7 - Até agora está tudo bem, mas eu estou vendo no seu exame que você está com ......................... [preencha o espaço em branco]. Não podemos mais esperar. Temos que marcar uma cesárea urgente para.. Deixa eu ver aqui.. Pode ser sexta feira? Não? Marcou escova? Ah, tá, é, tem razão. Que tal sábado? Espera, sábado eu tenho o batizado do filho do zelador. Uhm... Segunda feira 7h, combinados? Não podemos mais esperar.


8 - Eu prefiro parto normal, é bem melhor quando dá tudo certo. A recuperação da mãe é bem melhor, mas o bebê pode ter retardo mental, sabe como é.


9 - Eu prefiro parto normal, só que eu não me arrisco. Se tiver qualquer problema, eu opero!


10 - Eu já me arrependi de vários partos normais que atendi, mas nunca me arrependi de uma cesariana indicada.


Por: Ana Cristina Duarte, GAMA.




*E aí, qual foi a razão da sua cesárea?

quarta-feira, 18 de abril de 2012

O meu filho está "laçado". E agora?

De: Dra. Melania Amorim, em seu Facebook, em 18/4/2012.

Texto que escrevi há algum tempo sobre um famoso mito obstétrico: CIRCULAR DE CORDÃO.

Cerca de 40% dos fetos apresentam circular de cordão, ou seja, se fôssemos operar os casos com circular de cordão diagnosticados por ultrassonografia (USG) já estaríamos, de antemão, condenando 40% das mulheres a uma cesariana, com todos os riscos já conhecidos de uma cirurgia desse porte.

Como o bebê VIRA e DESVIRA o tempo todo (sinal de que está saudável) dentro da barriga, o diagnóstico por USG não é preciso, mesmo quando se usa o Doppler: bebês com circular diagnosticada pela USG podem nascer sem circular e o contrário é verdadeiro, a USG pode não mostrar nenhuma circular e o bebê nascer com uma ou mais circulares.

Entretanto, circulares CERVICAIS (no pescoço) apertadas, associadas a cordão curto e outras alterações, podem ser comprimidas durante o trabalho de parto e, muito excepcionalmente, fora dele. Tudo pode acontecer em uma gravidez, até um avião cair em cima do binômio mãebebê (assim mesmo, sem hífen), o que já foi descrito na literatura. Catástrofes e fatalidades acontecem.

Quais os cuidados? Ausculta, ausculta, ausculta, o que é o procedimento de rotina em todo trabalho de parto, AUSCULTA FETAL intermitente com o sonar Doppler ou mesmo com o estetoscópio, não é necessária cardiotocografia de rotina, e deve ser realizada com ou sem diagnóstico de circular. Lembrem: bebês SEM diagnóstico de circular podem nascer com circular, a circular se forma quando eles mexem de um lado para outro dentro da barriga. A ausculta fetal é, portanto, um procedimento padrão na assistência ao parto, recomendado pela OMS.

Não existe essa entidade nosológica "enforcamento fetal"... Na vida intrauterina, as trocas respiratórias se fazem pela circulação umbilical, e não pelas vias aéreas fetais. Mecanicamente, o cordão também não conseguiria fraturar o pescoço do bebê, ele é gelatinoso.

O que pode acontecer, muito raramente, é um cordão curto e enrolado no pescoço ser apertado durante as contrações ou a movimentação fetal, e haver interrupção da circulação naquele momento. Se essa interrupção for prolongada, pode haver asfixia porque não vai mais chegar sangue para o bebê. No entanto, esse não é um evento abrupto e pode ser sinalizado precocemente pela alteração dos batimentos cardíacos fetais, uma vez que se presume que estejam sendo monitorados intraparto.

Além de raríssimo, esse evento não justifica ultrassonografia de rotina na gestação a termo e muito menos a pesquisa de circular por USG durante o trabalho de parto.

PORTANTO:

- Circulares são extremamente freqüentes, 25 a 40% dos bebês NASCEM com circulares.

- Circulares se fazem e desfazem o tempo todo, com a movimentação fetal. Exame ultrassonográfico pode mostrar circular e o bebê nascer sem, ou vice-versa.

- Não há o que fazer se for diagnosticada uma circular, a menos que se fosse interromper de imediato a gestação, o que não se justificaria, em face da maior morbidade materna e neonatal com a cesárea. Por conta de um evento raríssimo não se vai arriscar tirar um bebê prematuro ou mesmo de termo e expô-lo aos riscos de uma cesariana eletiva, que não são raros (inclusive aumento da mortalidade neonatal).

- Ultrassonografia de rotina em gestações de baixo-risco não é apoiada por evidências científicas consistentes.

- Durante o trabalho de parto a ausculta fetal pode detectar facilmente alterações da ausculta que eventualmente podem ocorrer em casos de circulares apertadas e, se forem importantes, indicam resolução da gravidez por via alta (cesariana). Durante a gravidez, não é necessário nem factível fazer monitorização fetal sem indicação. Ou alguém aí quer passar a gravidez toda acoplada a um aparelho de cardiotocografia para fazer monitorização contínua?