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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Relato do Parto do Artur, 27/4, 2015 – Parto domiciliar planejado, com enfermeira obstetra e obstetriz.

Equipe: Maíra Libertad, enfermeira obstetra; Marina Alvarenga, obstetriz; Vagner, marido e pai; Aninha, filha amada e irmã corujíssima; Karen, amiga, comadre e "alter-ego"; Lena, fada-madrinha; Claudia Reis, fotógrafa e amiga.


A história do parto do Artur começou a quase 14 anos, quando nos descobrimos grávidos, esperando a Aninha. Nossa moreninha hoje tem 13 anos, mas toda a história da gestação e parto dela fazem parte também da história da gestação e parto de seu irmão, Artur.
Na época que gestamos Aninha (Mai/2001-Fev/2002) a única certeza que eu tinha era de que não queria uma cesariana. Sem recursos e sem muita informação, contando em conseguir um parto normal pelo plano de saúde, perambulamos entre consultórios de obstetras até chegarmos a um vaginalista que nos ajudou a fazer a Aninha nascer de parto normal, ainda que no hospital, seguindo todo o protocolo de intervenções tradicionais. Foi traumático tanto pra mim, quanto para meu marido – eu, na verdade, só digeri tudo que nos foi feito anos depois, quando me envolvi mais e mais no movimento de Humanização do Nascimento. De lá para cá foram 13 anos de estudos, de informações, de revolta, de mágoa, de ressignificação do que passamos, de ativismo. Eu e meu marido nos separamos, reatamos, nos separamos de novo, amadurecemos através de perdas e da observação e busca de compreensão da vida, buscamos novo sentido e valores para nós mesmos, para o nosso amor.
Em maio de 2013 nos reaproximamos, voltamos a namorar e, logo depois, decidimos nos casar, dessa vez no cartório e com uma cerimônia delicada e pessoal para compartilhar o momento, nossa decisão e conquista (sim, porque estarmos juntos de novo foi uma conquista!) com nossos queridos. Nossa aliança representa o amor de uma vida, de várias vidas, um renascimento de cada um de nós, inclusive de nossa filha Ana. Uma história que não tem fim.
Não planejávamos engravidar tão cedo, mas sempre quis outro filho, Aninha queria um irmão, e Vagner, sem dúvida, queria um menino!
Nunca fui de marcar menstruação em calendário porque meu corpo sempre me avisou quando o período estava chegando... Levo meus ciclos de maneira bem natural. Um dia de agosto de 2014, quando me dei conta e olhei o calendário, percebi que já deveria ter ficado menstruada havia alguns dias, semanas na verdade, e naquele momento me bateu a certeza: "- Estou grávida!". Passou o filme na minha cabeça do dia da concepção daquele bebê – havia sido tão especial que lembrava o dia, as sensações, o olhar do Vagner. Comprei o teste da farmácia ao sair do trabalho para fazer em casa, somente para tirar a dúvida: positivo! Vagner via TV na sala quando entreguei a ele o exame. Assim como na 1ª vez, ele ficou em silêncio por alguns minutos. Sabe Deus o que se passava em sua cabeça, mas eu tinha certeza que dessa vez não era o medo misturado com felicidade da 1ª vez. Estamos em uma fase da vida de muito maior segurança e tranquilidade que estávamos naquela época em 2001.
Tanto para ele quanto para mim havia, desde então, uma certeza: este bebê não nasceria da mesma forma, não passaríamos pelas mesmas intervenções desnecessárias às quais fomos submetidos em 2002. Este bebê não ficaria 6 horas no berçário, afastado da gente, sem necessidade! Eu até poderia aturar violências contra mim e contra meu corpo, mas jamais aceitaria violência contra nosso bebê recém-chegado ao mundo. Este nasceria já recebendo amor. Para mim, imersa no assunto do parto humanizado todos esses anos, depois de ler tanto, de receber tantos relatos de violência obstétrica, depois de ver o surgimento de equipes excelentes de atendimento ao parto humanizado em nossa cidade, entendendo muito mais do assunto e já tendo parido um bebê de parto normal em hospital antes, não havia dúvida: pariria este novo bebê em casa.
Vagner e eu conversamos muito. Como todo homem, pai de família, que se sente responsável pela segurança dos seus, a maior preocupação dele era SEGURANÇA. Como nosso maior ponto forte sempre foi a amizade e a conversa, fomos conversando, conversando, até que todas as inquietudes ficassem esclarecidas. Não há como não buscar a segurança para todos quando o assunto é parto. Há muita expectativa, há muita responsabilidade e, ainda que saibamos que qualquer evento da natureza tem seus riscos, sua certa carga de imprevisibilidade, nosso papel como humanos e pais é buscar o menor risco possível, ter planos de contingência, saber pelo que passaremos – embora a gestação seja emoção, hormônios, felicidade, novidades, temos nosso lado racional para nos ajudar nesse caminho, caminho este que de toda forma não deve deixar de ser natural.
Desde 2000 e alguma coisa acompanho pela WEB o trabalho, a carreira, as ideias da Maíra Libertad. Seu caminho, suas ações, seu ativismo, seu profissionalismo e até seu nome (Libertad!) sempre me despertaram bom sentimentos. Desde o comecinho outra certeza que eu tinha é que seria ela que nos apoiaria nesta gestação e parto. A única maneira de garantir que nosso novo bebê não sofreria intervenções de protocolo de hospital (check-in de berçário etc.) seria fazer com que ele nascesse em nossa casa – o único lugar em que as regras são nossas, ainda que fossemos guiados por um profissional que nos acompanhasse no parto. Juntando tudo isso, liguei e marquei consulta com a Maíra ainda nas primeiras oito semanas de gestação. Conversamos sobre as condições de atendimento dela, sobre parto domiciliar planejado, sobre o que o serviço dela cobria, como seria o pré-natal, e pedi a ela referências científicas para que Vagner e eu pudéssemos estudar sobre os riscos e benefícios deste tipo de parto. Foi nessa 1ª consulta que conheci a Marina Alvarenga – obstetriz, a 1ª a trabalhar no Rio, assistente da Maíra – que descobri ser um doce de pessoa e possuir também excelente qualificação técnica. Elas duas juntas formam uma dupla que, a meu ver, fica completa. A firmeza e a segurança da Maíra, o carinho e a doçura da Marina. Senti-me acolhida e aceita, ainda que tão no começo desse caminho. Nossa próxima consulta de pré-natal seria em casa, já que a decisão era por parto domiciliar desde então.
Ao longo das semanas seguintes Vagner e eu conversamos muito, lemos relatos de partos acompanhados pela Maíra, o material técnico que ela nos enviou (uma compilação de textos científicos sobre parto domiciliar para gestantes com parto normal anterior), outros relatos de parto em casa. Ainda pensamos sobre o parto humanizado hospitalar, mas dentro de mim já havia aquela certeza: eu ia parir em casa.
As consultas de pré-natal se seguiram, mês a mês, em casa, com Maíra e Marina. Vagner, Aninha e eu estávamos presentes sempre que possível. Longas conversas, muito tempo para tirar dúvidas. Pouquíssimos exames, uma vez que só fiz os que são realmente necessários para um bom acompanhamento de pré-natal. Nenhum exame de toque por toda a gestação! Foi uma gestação tranquila, eu estava saudável quando engravidei (fazendo tratamento com homeopatia e acupuntura) e assim fiquei por nove meses. O tempo voou! Com o passar das consultas Vagner foi ficando mais e mais seguro com relação à nossa escolha, com relação às profissionais que escolhemos para nos apoiar. Planejamos quem estaria com a gente – Karen, a madrinha da Aninha e minha melhor amiga (alter-ego, como digo, alma-irmã e algo mais) desde os tempos da faculdade; Claudia – fotógrafa que trabalha com educação que conheci através de uma oficina de fotografia para crianças que Aninha fez a uns quatro anos, e que veio se envolvendo com o parto humanizado por minha influência através do Facebook; e a Lena, nossa ajudante e segunda-mãe, fada-madrinha. Vagner e Aninha também, claro.
Passei a gestação fazendo um "diário de grávida" no Facebook, fazendo ativismo pró-parto humanizado e conversando com muitos amigos e familiares sobre o tema, sobre nossas escolhas. Foram meses de confirmação, de mais aprendizado, fiz curso de Parto e Pós-Parto no Núcleo Carioca de Doulas, fui à Roda de Parto Domiciliar do Coletivo de Parteiras, segui estudando. Vários amigos vieram acompanhando nossas escolhas, o desenvolvimento do Artur na minha barriga, a montagem do quartinho dele – olhando hoje, para trás, tudo isso foi importante para nós. Informação, apoio, sentirmo-nos parte de um coletivo, apesar de sabermos que as escolhas que fizéssemos seriam de nossa inteira responsabilidade, ajudou-nos a firmar mais e mais nossos planos. Costumo dizer que informação é poder, estudar sobre a fisiologia do que vivemos nos dá calma para passar pelo que for necessário. Nesse ponto eu, como bióloga, e Vagner, como geólogo, pensamos bastante em comum – estudar, informar e conhecer, ainda que saibamos que não há garantias em quase nada nessa vida, dá-nos segurança. Todo esse processo foi uma conquista, foi o que chamamos de empoderamento, de sermos agentes de nossas escolhas, aceitar nossa responsabilidade sobre o que façamos. DECIDIR com base em informações científicas, evidências científicas, além de nosso feeling, claro, e de nossas próprias experiências!
É importante dizer que a certeza do parto domiciliar planejado foi se solidificando com as consultas de pré-natal, com a disponibilidade da Maíra e Marina em ouvir-nos, e muito, ouvir pacientemente todas as nossas perguntas, algumas delas feitas mais de uma vez, e em responder-nos. As pessoas se perguntam sobre os riscos dessa escolha - "E se acontece uma intercorrência, o que farão?". As profissionais que escolhemos têm formação técnica para o 1º atendimento de emergência que fosse necessário tanto comigo, quanto com o bebê, para estabilizar-nos e levar-nos ao hospital mais próximo. Há uma lista de pré-requisitos para que se possa fazer o parto em casa e, junto com Maíra e Marina, conversamos sobre todos os pontos. "E se alguma fatalidade acontece?" - há intercorrências associadas ao parto que são imprevisíveis, algumas delas fatais, e contra as quais não há o que fazer, nem em hospital. "E vocês não tiveram medo desse risco?" - sim, tivemos, mas as evidências científicas mostravam, no nosso caso, que os riscos eram mínimos, e os aceitamos. Os riscos do nosso parto em caso eram menores do que parir no hospital!
No caso do atendimento ao parto domiciliar com Maíra e Marina recebemos um termo de conhecimento de riscos e consentimento e nós o discutimos, ponto a ponto, e o assinamos em conjunto. Tínhamos um plano B também, com apoio de obstetra e sua equipe e um hospital a menos de 30 minutos daqui de casa, para o caso de algum problema mudar os planos antes do parto, ou no trabalho de parto. (Aliás, uma das coisas que ponderamos nessa gestação foi a existência desse termo: não deveria qualquer profissional de assistência ao parto discutir um documento desse com a gestante e sua família? Quando parimos com um obstetra em hospital, parece que a "garantia é  o médico", pouco se fala de riscos, e termo semelhante creio que jamais há!)
A barriga foi crescendo, as consultas tornando-se mais frequentes, semanais. As contrações de exercício começaram algumas semanas antes de eu entrar em trabalho de parto. Lembro-me com nitidez do dia que o Artur se encaixou, a pressão da expansão dos ossos do meu corpo... Eu estava bastante consciente do progresso do Artur em seu caminho, das respostas de meu corpo. Dores? Algumas, suportáveis. Ansiedade? Não muita, de minha parte ao menos. Desejo de vê-lo e cansaço com o peso da barriga, com a azia que queimava meu estômago, dificuldade de dormir? Sim, essas eram bem presentes. Mas estava tudo preparado e era só nosso reizinho desejar vir. Espera, doce espera. Trabalhei no escritório até 22/4. Trabalhei de casa até a manhã do dia em que pari (27/4). Estava me sentindo muito bem, plena e produtiva! Trabalhar, cuidar da casa, da família, dos preparativos para o parto me ajudou a curtir cada momento com a cabeça e coração leves.
Dia 25/4 pedi à Karen para fazermos umas fotos da barriga, com Aninha, Vagner, em casa mesmo – Vagner havia manifestado a vontade de fazer um ensaio fotográfico dessa vez (na gravidez da Aninha não o fizemos por falta de recursos!), mas eu não sentia muito ânimo mais para isso. Como a Karen é da família e fotografa muito bem fizemos fotos lindas na tardinha do sábado que antecedeu o parto.
Dia 26/4, domingo, acordamos cedo como sempre. Vagner e eu temos o hábito de ir ao Aterro, caminhando, nos domingos de manhã. Àquela altura eu já não conseguia força e ânimo de andar de Botafogo até lá, mas ele se ofereceu para irmos de carro até onde era possível, tomarmos água de coco, aproveitar o momento a dois, além de todo carinho que estávamos curtindo já em casa. Aninha, como pré-adolescente, optou por ficar em casa dormindo. Fomos os dois e foi ótimo! Acabamos caminhando no Leme, olhando o mar, num dia de céu cinza. Conversamos e namoramos toda a manhã e perto do almoço voltamos pra casa. A tarde e a notinha foram sossegadas, em casa mesmo. Um clima e energia muito bons!
Ainda no domingo, 26/4, por volta das 22hs, senti um jato de água entre as pernas, molhando minha roupa. Não era uma cachoeira como aparece na TV quando rompe a bolsa das águas, mas não era lubrificação normal tampouco – era água, água numa quantidade de molhar a roupa. Fui ao banheiro fazer xixi e senti sair algo de mim com mais consistência e um "ploc" na água do vaso sanitário... Era o tampão mucoso saindo. As contrações de exercício ficando mais fortes. Fiquei feliz e ao mesmo tempo duvidando que fosse aquilo mesmo... Pode levar dias entre a saída do tampão mucoso e o trabalho de parto efetivamente. Troquei de roupa e fomos dormir.
Às 2:30hs da madrugada de domingo pra segunda, 27/4, acordei com contrações fortes, do tipo de cólica menstrual – as contrações de exercício não doem, o útero apenas fica duro, essas não, essas doíam uma cólica forte! Achei que deveria falar com a Maíra, mandei uma mensagem para ela que, àquela altura da minha gestação, já estava sempre de olho no celular – além de mim Maíra tinha outra gestante com data provável de parto para 1/5 e que estava a termo! Maíra me orientou a contar as contrações... E ficar de olho em qualquer mudança, avisando-a em qualquer caso. Fiquei deitada no sofá da sala até 5:30hs. As contrações duravam 30 segundo e vinham de 4 em 4 minutos. Poderia demorar ainda muitas horas para isso tudo virar trabalho de parto ativo, de verdade. Avisei à Maíra e ficamos nos falando sobre os progressos.
Às 6:30hs acordei Vagner e Aninha, ele para ir trabalhar e ela para ir à escola. Avisei ao Vagner as novidades sobre o possível começo do trabalho de parto, mas eu mesma acreditava que ainda demoraria muito. Pedi que ele levasse Aninha à escola já que eu não tinha condições. Fiz café para ambos e foram. Avisei Karen e Claudia sobre as novidades e que poderia ser que o Artur nascesse na noite daquela segunda-feira. Disse a elas e ao Vagner que fossem trabalhar, que daria tempo e que mais tarde é que as coisas deviam andar.
Vagner levou Aninha no colégio e voltou para casa - decidiu não trabalhar e esperar - foi a sorte!!! Aninha queria estar em casa no parto, mas tinha prova aquela manhã e achei que daria tempo de ela fazer a prova e voltar para casa antes do parto.
Karen decidiu vir para nossa casa depois do almoço, Claudia começou a desmarcar seus compromissos e eu dizendo a elas que podiam ter calma! Fiquei trabalhando de casa a partir das 8:20hs. Respondi e-mails de clientes, falei com meu gerente, e as contrações ficando mais e mais fortes. Falava com Maíra pelo Whatsapp também. Lena, nossa ajudante chegou cedo e pedi que cuidasse logo da sala, do nosso quarto e banheiro porque o Artur deveria nascer naquele dia e logo mais haveria mais gente pela casa. Pedi a ela que fizesse o almoço também... Havíamos feito compras de frutas e legumes no final de semana e compras de mercado (estoque para parto e pós-parto!) no final de semana e eu estava ainda preocupada com a entrega que seria na segunda!
Havia combinado com a Maíra de ela dar um pulo aqui em casa para ver como eu estava – ela havia me perguntado se eu achava que estava progredindo rápido. Eu ria e dizia "Não sei".
Por volta das 11:00hs eu já não conseguia conversar nas contrações... Larguei meu laptop de qualquer jeito e desisti, enfim, de trabalhar! Maíra me orientou a contar de novo as contrações, duração e intervalo entre uma e outra. Ela me disse que seria melhor o Vagner contar e eu ainda achando que eu mesma poderia fazê-lo - ledo engano... Perdia as contas! Pedi a ele que contasse e dentro de 10 minutos a coisa já estava tensa! Eram contrações de 60 segundos a cada 3 minutos. Eu já estava saindo de órbita. Mandei uma mensagem para Maíra dizendo que não dava mais para conversar, ela já estava vindo para cá ("Graças a Deus", pensei!). Marina já estava arrumando o "kit parteira" delas (é uma mala enorme!) e vindo pra cá também. Lembro-me que Karen e Claudia ainda me perguntavam se estava na hora delas virem ou não, eu já não respondia. Pedi pro Vagner avisá-las que deviam vir sim.
Eu não sabia se deitava, se andava... Andar era melhor para as dores, mas a minha vontade era deitar e descansar. Se o intervalo entre as contrações fosse longo eu estaria deitada nos intervalos e andando durante as contrações. Mas eram ondas, rápidas, e a única coisa que eu tinha tempo de fazer era respirar. Fui deitar na cama, mas não me senti confortável, depois levantei e fiquei apoiada na pia do banheiro – pendurar meu quadril durante as contrações melhorava tudo. Lembro que Maíra chegou e eu estava assim, "pendurada" na pia do banheiro, ainda vestida. Dali pra frente as coisas tomaram mais e mais força; acho que o Artur estava esperando Maíra chegar para que pudéssemos trabalhar todos juntos. Já não sabia mais do intervalo e da duração das contrações, eram fortes, eram muitas, com um intervalinho pra eu respirar. Fui para o chuveiro quente e foi a 1ª salvação! Água realmente faz muita, muita diferença. Nosso box é pequeno e eu demorei a achar posição. A vontade era deitar no chão, mas não me cabia. Sentei num banco de madeira, doía o períneo - imagina algo lutando para abrir tudo lá em baixo e você sentada numa superfície dura de madeira? Não dava. Pedi para me darem minha bola de Pilates e consegui ficar debaixo do chuveiro sentada nela... Água na região lombar, água no rosto, água na barriga, água, água... Muita água. Eu só queria água. Nunca desejei parto na água, nunca pensei em usar chuveiro como analgésico, mas nunca amei tanto a água quanto nesse parto. Ela é mágica, de fato!
Enquanto eu gemia e me molhava no banheiro, Marina chegou com a piscina de borracha – eu só queria a piscina naquele estágio. Ainda me perguntava se alguma mão em mim, uma massagem ou qualquer coisa me fariam bem, se eu devia ter tido uma doula ou não. Às vezes achava que uma mão em mim seria bom, outras vezes achava que ia ter um ataque se me encostassem. No segundo seguinte tinha a certeza de que estar só com as contrações naquele momento era tudo que eu precisava. Estava tão consciente das ondas, do movimento do Artur descendo pelo meu ventre – qualquer coisa mais me atrapalharia a concentração. Pergunto-me agora como as meninas souberam que eu precisava estar só.
Notei a agitação do Vagner, Marina, Maíra e Lena arrumando a sala, enchendo a piscina, trazendo água quente, bem quente de algum lugar. Mas ao mesmo tempo eu não prestava mais atenção em nada, além de mim mesma e das contrações. Ondas, ondas, água, água. Todos os movimentos circulares, a natureza arredondada, Terra, ventre, ondas... Era o que estava na minha cabeça. Lembro-me de ter sentado no vaso sanitário do banheiro enquanto eles enchiam a piscina. Antes que estivesse pela metade eu já havia me metido dentro dela.
Os braços cansados, tremiam por dentro. Eu queira ficar submersa, queria entrar em mim mesma. Centrar-me. Respirava entre as contrações, relaxava e tentava deitar na água, mas o intervalo entre uma contração e outra era tão curto que não dava tempo de relaxar muito. Aí que me dei conta de que o trabalho de parto já tinha avançado muito, muito... Não seria à noite que Artur nasceria!
Vagner teve um papel crucial no trabalho de parto! Além de cuidar de tudo que eu precisava com as meninas, ele estava sempre me apoiando, abraçando-me quando vinha uma contração, jogava água com a mangueira nas minhas costas. E nos intervalos ia resolver alguma coisa! Como ele podia ser tão rápido? Ele me trouxe água de beber algumas vezes também.
Lembro-me de ouvir a campainha duas vezes, a 1ª vez era a Karen, a 2ª vez era a Claudia. Estavam todos lá. Não sei ao certo onde ficaram, o que fizeram, não me lembro de ter visto mais nada além de mim mesma, era como se eu olhasse para dentro. As sensações físicas das contrações eram meus olhos, ouvido, tato. Eu achava que gritava muito alto, que estava fazendo muito barulho e me preocupava, ainda, com isso - depois me disseram que eu gemia apenas e, às vezes, baixinho. Estava tão centrada em mim que meus sons, para mim, eram altos!
Lembrei da Aninha, que ainda estava na escola, queria que a buscassem às 14:20hs, hora do final da prova. Ao mesmo tempo tinha medo que ela me visse com dor e gritando e se assustasse.
Maíra e Marina se revezavam usando o sonar na minha barriga, entre as contrações, para ouvir o coração do bebê. Elas me diziam que ele estava feliz e bem. Eu ouvia o coração dele forte, batendo em ondas também. Sentia meu corpo abrindo, abrindo, nessas ondas. Sentia vontade vomitar, de fazer coco, e certo momento lembro-me de estar preocupada com isso - de fazer coco dentro d'água, e a Maíra, muito naturalmente, disse que eu não me preocupasse que ela cataria com a luva se acontecesse. Como a gente ainda tira razão de algum lugar pra pensar nisso?
Quando se tem consciência da fisiologia do parto, quando se tem consciência de seu corpo, quando se está integrada com seu bebê, vira tudo uma coisa só. Unidade. Sentia as mãos fortes do Vagner de tempos em tempos, sua respiração no meu ouvido.
Nos intervalos, em alguns momentos, a razão me vinha novamente e eu me perguntava se ainda seria capaz, se aguentaria. Lembro-me de ver Maíra e Marina sentadas ao longe, olhando. Quando me faltava força e fé, três pessoas marcaram. Lembro-me de três momentos, entre as contrações. Num deles eu perguntei à Maíra com quantos centímetros de dilatação eu devia estar, se faltava muito - a resposta dela: "Não sei, esquece isso, isso não é relevante!", com um sorriso. E veio outra contração. A cada contração sentia meu corpo se abrindo, relembrava das etapas do trabalho de parto, do caminho do bebê descendo pelo útero, abrindo espaço entre meus ossos, descendo, descendo.
Em outro momento, entre outras duas contrações, senti vontade de chorar, minha pelve parecia que ia rasgar, abrir... Tive medo de não dar conta. Não sabia mais quanto duraria aquilo tudo, se eu aguentaria. Olhei para fora da piscina e meus olhos encontraram os da Marina, ela sorria. "- Eu consigo, não é?", eu disse, e ela, ainda sorrindo, acenou que sim com a cabeça. Mais vontade de chorar. Outra contração. Eu me debruçava na borda da piscina, macia, quente, acolhedora. E sentia os braços do Vagner me envolvendo... Eu devia estar na "hora da covardia", quando já está tão perto do final que a gente pensa em desistir. Nesse momento o Vagner me abraçou e disse baixinho ao meu ouvido: "- Vamos lá! Você não me convenceu disso tudo? Não estamos juntos nessa? Agora falta pouco! Vamos pra dentro!"... Os olhos se enchem de lágrima neste momento, ao escrever, ao lembrar da presença de espírito dele, do quão bem ele me conhece e soube que o que eu precisava não era alento, ou mão na cabeça, era força, muita força. Força da terra, da água, das vísceras, do nosso amor que se refez tantas vezes, tão forte. Passei a mão na minha vulva e senti o cabelinho do bebê – sim, ele estava ali! Esperando-me, esperando que eu recuperasse minhas forças. Ele estava fazendo a parte dele, estava em seu caminho e era minha vez de fazer também minha parte. Lembrei mais uma vez da fisiologia do parto, que por tantos anos li... Estávamos avançados no expulsivo, se a cabeça dele estava ali eu já tinha os benditos 10cm de dilatação do colo útero. Agora era meu períneo e meu medo da episiotomia que sofri anos atrás, uma força, uma contração podia resolver tudo.
Concentrei-me no Artur, no meu útero, na contração que estava vindo, senti-me leoa, as palavras do Vagner ecoando na minha mente. Eu não via nada à minha volta, somente a onda da contração, vindo, maior que eu, mas não, não a deixaria me cobrir. Dessa vez íamos trabalhar juntos, Artur, meu útero, meu períneo, minha mente... Ao invés de gemer, gritei e pari a cabeça de nosso filhote querido, tão esperado. A sensação? Senti o tal círculo de fogo, em segundos, mas a maior sensação era de um orgasmo gigante. Conseguimos! Eu ria. Agora era o corpinho macio dele, escorregadio, que deveria sair na próxima contração. Institivamente eu, que até então estava quase de joelhos na água, virei meu corpo e deitei afundando-me nela, apoiando a cabeça na borda da piscina. Ali esperando-nos estavam as mãos protetoras da Maíra. As mãos ansiosas do Vagner. Os olhos sorridentes da Marina. E eu rindo, rindo... Rindo! E dizendo que dava pra sentir ele se mexendo dentro de mim! Passando a mão no cabelinho dele. Chorava ao mesmo tempo em que ria!
Naquele momento eu consegui ver as pessoas à minha volta, enfim, o olhar aliviado de todos, sorrindo e ansiosos para conhecer o Artur. Na minha mente eu dizia "Já foi, eu consegui! Agora é só parir o corpinho macio dele!". À minha frente Maíra de luvas afastava qualquer ideia de alguém por a mão no bebê, de puxá-lo, de por a mão no meu períneo ou qualquer coisa. Vagner, ao meu lado pela borda da piscina, encorajava-me sorrindo um sorriso tranquilo e calmo. Mais uma contração e pronto. Artur havia nascido, por mim. Estava apaixonada por ele já dali, ou muito antes daquele momento. Eu pensava "Conseguimos, meu amor, meu príncipe! Obrigada por me acompanhar nessa jornada e por fazer dar tudo tão certo. Nós sabemos parir e nascer! Conseguimos!". Maíra recebeu o Artur junto comigo, tive tempo de ver e comentar "Ele nasceu com uma circular de cordão!" – era mais um detalhe pra coroar nosso conhecimento de que os bebês sabem nascer, que os partos dão certo, que cordão jamais é assassino. Maíra desfez a volta no pescoço dele e o colocou no meu colo.
Vagner veio ficar junto de nós, e a primeira reação do Artur foi segurar na mão do pai com seus dedinhos longos.
Assim como no parto da Aninha a visão mais forte deste momento foi o olhar do Artur para mim. Ele, recém-parido, no meu colo. Ele era lindo, ele nasceu grande, nasceu bem, esperto. Os olhos cor de mel, seu cabelinho preto. As mãozinhas... O cordão umbilical, lembro-me de ter ficado algum tempo olhando o cordão – ele é mágico, ele é lindo, é macio. Pulsava ainda quente.
Eu queria tirar o sutiã, mas o Artur já estava aconchegado no meu colo, as fraldinhas aquecidas em cima dele; não, eu não ia me afastar dele para tirar sutiã, e foi aí que Vagner deu uma ideia brilhante (amor, muito obrigada, sempre, por sua presença!) "Vamos cortar!!! O que é um sutiã?"... E eu feliz, sentindo-me mais livre ainda, nua, com nosso rebento nos braços e na água morninha. Todos aqueles sorrisos à nossa volta! Nosso bebê saudável, perfeito.
Ficamos Vagner, eu e Artur juntinhos alguns muitos minutos ali, namorávamos nosso menino, que nos olhava profundamente.
Em algum momento Maíra sugeriu que fôssemos para a cama, aguardar o parto da placenta. Marina já havia arrumado tudo no quarto, nossa cama estava quentinha, macia, limpa e deliciosa à luz da tarde de outono do Rio. Elas e Vagner me ajudaram a levantar da água, caminhar para o quarto e deitar. Naquele momento eu já sentia fome, sede!
O Artur agarrado em mim todo esse tempo, já estava bem esperto e quis mamar ainda na primeira hora. Foi uma grande emoção vê-lo tão pequenino já sugando meu seio. Não tem preço a liberdade de estar com nosso bebê recém-parido o tempo todo desde que ele saiu de dentro de mim, de saber que ele não foi invadido, medido, mexido, e que ele pôde estar livre para, no tempo dele, mamar ou não, conforme quisesse.
Lembro-me de que em algum momento entre as contrações pedi que buscassem Aninha na escola. Eu não tinha noção da hora, mas achava que a prova dela já tinha terminado. E achava que o trabalho de parto ainda demoraria e daria tempo de ela chegar e ver o irmão nascer. Ao mesmo tempo tive medo de como seria a reação dela e quais seriam as memórias que ficariam ao ver-me gritando (eu achava que estava gritando, lembram?) e sentindo dor. Acabou que Aninha chegou quando já estávamos na cama, esperando o parto da placenta. Foi triste ver a decepção dela ao saber que o irmão já tinha nascido, mas ao mesmo tempo foi lindo ver seus olhos pra ele – paixão também à primeira vista, como ela disse. Um entendimento e carinho naturais. Foi Aninha que cortou o cordão depois que pari a placenta, foi ela que ajudou Marina a vestir a primeira roupinha dele e que o levou lindo, no colo, para ver nossas amigas que estavam na sala. Nossa filha querida foi perfeita e tem sido mais que filha, irmã, companheira, nossa maior e mais amada cuidadora também.
Enquanto esperávamos o parto da placenta, com Artur já mamando, lembro-me de ouvir o Vagner comentar que ia avisar à nossa família que o Artur havia nascido, e a Maíra comentar que era melhor esperar a placenta! Sim, sim, claro! Um dos meus medos era a placenta apegada e, como ela sempre diz, o parto ainda não acabou enquanto não há a dequitação da placenta!!! Pedi a ela que fosse correndo na sala conversar com Vagner e explicar a ele o assunto. A família podia esperar uns minutos mais!
Não sei bem quanto tempo depois disso a Maíra me falou que a placenta já devia ter soltado, mas que estava ainda dentro de mim esperando uma contração. Eu já estava tão relaxada e feliz que nem sentia mais que ainda tinha contrações! Ela me examinou e viu que era exatamente isso, a placenta estava ali na portinha, esperando uma contração. Fizemos uma forcinha juntas, eu, Maíra e a placenta e pronto! Ali estava ela, linda em seu vermelho sangue, com todos os seus vasos e membranas, a placenta tão mágica e misteriosa, poderosa, que havia nutrido nosso Artur, permitido a ele crescer, receber alimento e oxigênio. Aninha queria ver a placenta, desde a gestação conversávamos sobre o que era, como era e pedi à Maíra que explicasse à ela tudo sobre a anatomia e posicionamento da placenta. Adorei vê-las analisando a placenta do Artur e conversando sobre suas funções!
Como disse, Aninha cortou o cordão e depois de não sei quanto tempo o Artur foi para alguns poucos metros longe de mim, para ser pesado pela Mariana e vestido pela Aninha.
Maíra e Marina examinaram meu períneo e não tive laceração grave, nada que precisasse de ponto. Maíra me mostrou com um espelhinho e vi que era apenas uma laceração de mucosa - conversamos e optamos por não dar pontos e seguir com a cicatrização natural. Em no máximo sete dias tudo estaria cicatrizado, somente cuidando com água, sem anti-inflamatórios ou outros remédios.
Enquanto Aninha desfilava orgulhosa com o irmão nos braços pelo apartamento, Karen, Claudia, Lena e Vagner viam o nosso pequeno príncipe, Marina me ajudou a levantar e fui para o banheiro tomar um banho delicioso e quente! Eu estava ali de pé, sozinha, na nossa casa, no nosso banheiro. Vesti minha camisola linda, presente especial do Vagner ainda na gestação para o pós-parto, penteei meu cabelo e fui pra sala me sentar com minha família querida e nossas amigas!
A esta altura a casa já estava recomposta, a sala já tinha cara de sala e a piscina já havia sido esvaziada. Vagner estava na cozinha fritando hambúrguer para todas, Lena já havia arrumado tudo, Karen e Aninha estavam conversando, eu babando o Artur, Claudia tirando fotos e as gatas caminhando pela casa tentando entender o que havia acontecido!
Brindamos o parto, a chegada do Artur e nossa equipe de sucesso com um bom Pro Seco, comemos hambúrguer feito em casa, falamos do parto, de como o Artur é lindo, de como parece com a Aninha e outras trivialidades... A vida seguindo seu curso, normal como deve ser, após o evento de energia e bênçãos enormes, de alegria e emoção extremas, que todos havíamos compartilhado havia algumas horas!
Vagner fez também um bolo de coco delicioso e comi algumas boas fatias dele, ainda quente, com água de coco! Era o primeiro bolo do Artur!
Claudia foi embora perto das 18hs, pois tinha ainda outro compromisso e, como foi tudo tão rápido, daria tempo para cumpri-lo. Marina e Maíra foram embora por voltas das 18:30hs, depois de nos passarem as orientações sobre cuidados com o coto, com o Artur, comigo etc. e de combinarmos a visita de pós-parto para dali a 24 horas. Lena e Karen ainda ficaram um pouco mais, ajeitando algumas coisas e conversando.
Durante aquela noite a casa estava serena... Nós três apaixonados pelo Artur, olhando, olhando, cheirando... À noite Vagner e Aninha dormiram o sono dos justos, e eu, como boa recém-parida e inundada de ocitocina, passei a madrugada vidrada, olhando aquela maravilha da vida ao meu lado! Todos empoleirados no nosso quarto. Ninguém conseguiu se afastar do Artur por alguns vários dias!
Esse parto foi perfeito, como tinha de ser, uma benção, uma alegria. Digo que foi "tsunâmico", tanto pela rapidez, quanto pela sensação das contrações em ondas gigantes diante de mim! Eu esperava que demorasse muito mais... Achei que pariria na madrugada de segunda para terça, havia idealizado coisas a fazer no trabalho de parto, roupas a vestir, fotos que eu gostaria de tirar. O que eu comeria durante o dia, o que serviríamos para as meninas... Não deu tempo de nada disso, mas foi perfeito, do jeitinho que tinha de ser!
Se eu me arrependo? De nada! Se a dor é tudo isso que falam? Dói, dói muito, mas a dor não é um décimo do terror que fazem. É uma dor com propósito, é uma dor com início, meio e fim. É uma dor que não é dor, é processo, é o corpo se abrindo para uma nova vida, para que a gente se transforme junto do parto e saiba como ter forças para ser mãe. Alguns minutos depois de parir o Artur eu, rindo, dizia, que já podia pensar no terceiro filho e que parir é bom demais!!!
Obrigada, do mais profundo cantinho do meu coração, à vocês, Maíra e Marina, pelo apoio, pelo cuidado pela força, por nos ajudarem a realizar esse sonho! Obrigada Lena, Karen e Claudia, pela companhia, pela ajuda, pelas boas energias, pelo carinho. Meu amor, meu amigo, meu companheiro, meu homem na Terra, Vagner, obrigada por ser completo e por me fazer completa, obrigada por seu olhar, por nosso lar, por nossos filhos, obrigada pela sua mão, pelo seu peito, pelo seu coração, por nós. Aninha, minha filha linda, perdão por não dar conta, muitas vezes, de tudo que você deseja; obrigada pelo seu amor, obrigada pela sua torcida, obrigada pela sua fé inabalável em nós. Meu amor e admiração por você, filha, não têm tamanho! Seja bem-vindo, menino de olhos serenos, menino de paz, espírito de calma que veio completar nossa família! Seja bem-vindo, Artur!!!

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Indicação de Profissionais - Parto Domiciliar no Rio de Janeiro

Para quem procura uma equipe de parto domiciliar no Rio de Janeiro, com excelente formação técnica, não intervencionista e que respeita a fisiologia do parto e o protagonismo da mulher e sua família:



sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Kit "Textos em Português sobre Parto Domiciliar"

Ouviu falar de parto domiciliar mas não sabe bem que bicho é esse? Assistiu AnaMaria e achou legal, mas não entendeu direito qual a proposta? Tem dúvidas básicas e não sabe a quem perguntar? Viu vários links por aí sobre o tema e não lembra onde? Quer economizar tempo explicando pros curiosos que negócio é esse? Segue o bê-a-bá:



Texto "Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências" da obstetra Melania Amorim: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-parto-domiciliar.html

Texto "Parto domiciliar: refletindo sobre paradigmas" da obstetra Melania Amorim: http://guiadobebe.uol.com.br/parto-domiciliar-refletindo-sobre-paradigmas/

Texto "Guest Post: O mito do parto hospitalar mais seguro para gestações de baixo risco" do Dr. Mercola, traduzido e publicado no blog da obstetra Melania Amorim: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/guest-post-o-mito-do-parto-hospitalar.html

Texto "Parto Domiciliar Planejado: algumas coisas que talvez você não saiba" da obstetriz Ana Cristina Duarte: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo9.html

Texto "Parto domiciliar planejado, passo a passo" da obstetriz Ana Cristina Duarte: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo10.html

Perguntas frequentes sobre parto domiciliar no blog Paizinho Vírgula - Parte I: http://paizinhovirgula.com/parto-domiciliar-perguntas-frequentes/

Perguntas frequentes sobre parto domiciliar no blog Paizinho Vírgula - Parte II: http://paizinhovirgula.com/parto-domiciliar-perguntas-frequentes-parte-dois/

Texto "Sobre a morte de Caroline Lovell" (ativista australiana que morreu no hospital após um parto domiciliar, único caso famoso de morte materna após parto domiciliar, que frequentemente utilizam para atacar esta opção) da obstetra Carla Andreucci Polido: https://www.facebook.com/notes/carla-andreucci-polido/sobre-a-morte-de-caroline-lovell/4600441988714

Texto: "Por que parteiras?" (sobre por que escolher uma parteira para acompanhar a gestação e o parto) de Maíra Libertad: https://www.facebook.com/notes/ma%C3%ADra-libertad-soligo-takemoto/por-que-parteiras/10200315204818036

Texto "E na hora de escolher uma parteira?" (perguntas para ajudar na escolha da profissional que vai acompanhar seu parto domiciliar) de Maíra Libertad: https://www.facebook.com/notes/ma%C3%ADra-libertad-soligo-takemoto/e-na-hora-de-escolher-uma-parteira/10200512805917940

Texto "Segredos de um pai de parto domiciliar" de Ven Batista, publicado no blog da parteira Lisa Barrett em inglês e traduzido por Maíra Libertad: http://paizinhovirgula.com/segredos-de-um-pai-de-parto-domiciliar/

Artigo da Historiadora Maria Lúcia Mott "Assistência ao parto: do domicílio ao hospital (1830-1960)" sobre a história (recente) da migração dos partos do domicílio para o hospital no Brasil: http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/viewFile/10588/7878


Por Maíra Libertad - Graduada e mestre em enfermagem pela Unicamp, especialização em enfermagem obstétrica pela UERJ (2006) e posgrado à distancia en Evaluación de Tecnologías Sanitarias do Instituto de Efectividad Clínica y Sanitaria (Buenos Aires, Argentina). Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, pesquisadora da empresa ANOVA – Tradução do Conhecimento em Saúde e enfermeira obstétrica atendendo partos domiciliares na cidade do Rio de Janeiro/RJ.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre parto domiciliar


"Tenho uma genuína comiseração e tristeza pelos meus colegas médicos que nunca tiveram a oportunidade (ou o desejo) de participar de uma festa de vida como um parto domiciliar. Enquanto a ciência contemporânea derruba as últimas resistências e mitos contrários ao nascimento em casa, muitos ainda continuam agarrados aos seus preconceitos e sua visão mitológica do parto. Mesmo quando as evidências gritam a todo instante em seus ouvidos informações sobre a segurança superior do parto domiciliar, eles ainda insistem em negar às mulheres o direito a uma assistência qualificada nesse momento especial. Sentir na pele a emoção de um nascimento em paz é uma experiência única, e eu lamento por aqueles que, mesmo estando tão próximos da magia e do mistério do nascimento, preferem olhar para o lado, e ocupar-se somente da patologia. O belo, o divino e o magnífico aparecem de uma forma resplandecente nos nascimentos em paz, e aqueles com olhos de ver e ouvidos de ouvir permitem-se contaminar pelo júbilo e pela alegria que deles emana."

(Ricardo Herbert Jones - Obstetra)


terça-feira, 24 de julho de 2012


Depois de eu ter reclamado publicamente nas redes sociais, eis que a Editora do Jornal da Paraíba envia a jornalista encarregada da primeira reportagem para me entrevistar. Eis as minhas respostas por e-mail:

> Por que a senhora é a favor do parto domiciliar? Ele é totalmente seguro?

Não se trata unicamente da minha opinião ou da minha experiência. A discussão sobre o local de parto deve se pautar, essencialmente, em dois níveis: respeito à autonomia e ao protagonismo feminino, uma vez que a escolha do local de parto é um direito reprodutivo básico; e reconhecimento e adequada interpretação das evidências comparando partos domiciliares planejados e partos hospitalares em gestantes de baixo risco. Não se compreende mais na atualidade o processo de tomada de decisão baseado exclusivamente nas concepções e na experiência do prestador de cuidado, uma vez que, por definição, Medicina Baseada em Evidências consiste na integração harmoniosa da experiência clínica individual com as melhores evidências científicas correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes.

Do ponto de vista científico, existem diversos estudos corroborando as vantagens e a segurança do parto domiciliar planejado. Como vantagens temos a redução do número de intervenções como episiotomia (o corte do períneo), analgesia de parto, uso de ocitocina, menor taxa de cesarianas e de partos instrumentais (fórceps ou vácuo-extração), menor risco de infecção e elevada satisfação materna. Ou seja, verifica-se redução da morbidade materna. Do ponto de vista da segurança, o que os grandes estudos têm evidenciado é que não há aumento da mortalidade materna e tampouco da mortalidade perinatal, quando se comparam partos domiciliares planejados com partos hospitalares em parturientes de baixo risco. No último estudo holandês publicado em 2011 por van der Kooy e colaboradores, incluindo quase 680.000 partos, verificou-se que a mortalidade perinatal é aproximadamente a mesma, 0,15% em partos domiciliares planejados e 0,18% em partos hospitalares. Na Holanda 25% dos partos são atendidos em domicílio, por parteiras certificadas (midwives), de forma que eles dispõem dos dados de um número impressionante de partos, e não é verdade que lá os partos são atendidos com uma ambulância ou UTI móvel parada à porta do domicílio. As parteiras chegam frequentes vezes à casa das parturientes de bicicleta, carregando consigo todo o material necessário para a assistência ao parto, e referenciam quando necessário, ou seja, transferem mães e/ou bebês para o hospital quando há indicação, o que ocorre em torno de 10%-15% dos partos domiciliares.

Apesar da posição contrária de conselhos regionais de Medicina e da FEBRASGO, que vêm sistematicamente desaconselhando (embora não proibindo) o parto domiciliar, devemos destacar que tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) como a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) respeitam o direito de escolha do local de parto pelas mulheres e reconhecem que, quando assistido por profissionais habilitados, há benefícios consideráveis para as mulheres que querem e podem ter partos domiciliares. A FIGO recomenda que "uma mulher deve dar à luz num local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura”. Outras sociedades no mundo, como o American College of Nurse Midwives, a American Public Health Association, o Royal College of Midwives (RCM) e o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) apoiam o parto domiciliar para mulheres com gestações não complicadas. De acordo com a diretriz do RCM e do RCOG, “não há motivos para que o parto domiciliar não seja oferecido a mulheres de baixo risco, uma vez que pode conferir consideráveis benefícios para estas e suas famílias”

> Quem é apto para realizá-lo (tanto do ponto de vista da paciente quanto do ponto de vista do profissional)?

Em relação aos critérios de seleção para candidatas ao parto
domiciliar, a Organização Mundial da Saúde recomenda que as mulheres podem escolher ter seus partos em casa se elas têm gestações de baixo risco, recebem o nível apropriado de cuidado e formulam planos de contingência para transferência para uma unidade de saúde devidamente equipada se surgem problemas durante o parto. Notem que esta é uma recomendação da Organização Mundial de Saúde e não a "minha" opinião!
Eu apenas reforço que parto domiciliar planejado é uma opção viável e segura somente para gestantes de baixo risco atendidas por profissionais qualificados, que podem lidar com eventuais
intercorrências e complicações que podem surgir durante ou logo depois do parto, providenciando a transferência, se necessário, para o hospital, que deve estar a uma distância conveniente, de forma que a remoção, quando indicada, seja efetuada dentro de 20 minutos.

Do ponto de vista do profissional, a Organização Mundial da Saúde
reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos (obstetras ou médicos da família com qualificação em Obstetrícia) como enfermeiras-obstetras e parteiras formadas, também conhecidas como obstetrizes ou midwives. No Brasil, ainda temos uma carência desses profissionais, porque temos um único curso de formação de obstetrizes, que é o curso superior de cinco anos da USP,
mas em outros países, principalmente na Europa, essas profissionais são responsáveis pelo cuidado, tanto em domicílio como nos centros de saúde e hospitais, pela assistência pré-natal, ao parto e puerpério das gestantes de baixo risco, e uma revisão sistemática da Biblioteca Cochrane demonstra os benefícios desse modelo de assistência.

Profissionais qualificados atendendo partos domiciliares levam consigo todo o material necessário para a assistência à mãe e ao bebê, incluindo equipamentos para reanimação, caso necessária, e suporte de vida enquanto se providencia a transferência, se indicada. A transferência, em torno de 10% a 15%, dificilmente ocorre em condições de emergência, geralmente se trata de uma remoção programada, por exemplo quando há parada de progressão do trabalho de parto ou a gestante requer analgesia, mas os profissionais estão preparados para lidar com as emergências obstétricas ou neonatais mais comuns tanto em
ambiente intra como extra-hospitalar.

> Qual seria o conceito de humanização? O que é necessário para ter um parto humanizado?

"Humanização da Assistência ao Parto" é um termo com múltiplos significados, mas eu diria que os pontos-chave para defini-lo são o respeito à autonomia e ao protagonismo feminino e a assistência ao parto pautada nas melhores evidências científicas correntemente disponíveis. De acordo com o Ministério da Saúde (2000), "o conceito de atenção humanizada é amplo e envolve um conjunto de conhecimentos, práticas e atitudes que visam a promoção do parto e do nascimento saudáveis e a prevenção da morbimortalidade materna e perinatal. Inicia-se no pré-natal e procura garantir que a equipe de saúde realize procedimentos comprovadamente benéficos para a mulher e o bebê, que
evite as intervenções desnecessárias e que preserve sua privacidade e autonomia."

A fisiologia do processo deve ser reconhecida e preservada, evitando-se intervenções desnecessárias e prejudiciais, com efeitos deletérios já comprovados por diversas revisões sistemáticas disponíveis na Biblioteca Cochrane. Assim, NÃO se deve deixar a parturiente em jejum, fazer tricotomia (raspagem dos pelos) e enema (lavagem intestinal). Deve-se estimular a liberdade de deambulação e a escolha da melhor posição pela mulher durante o trabalho de parto e o parto, garantir o direito ao acompanhante e o suporte contínuo intraparto promovido por doulas, evitar o parto na posição tradicional, com a mulher deitada e com as pernas amarradas em perneiras, NÃO realizar episiotomia de rotina, não direcionar ou orientar os puxos (a força que a mulher faz durante o parto) e, logo depois do nascimento, garantir o contato precoce pele-a-pele de mãe e bebê, fazer ligadura tardia do cordão umbilical e incentivar a amamentação desde os primeiros minutos de vida.

Também não se deve realizar cesarianas desnecessárias sob pretextos infundados, sem uma indicação médica definida. Já dispomos de diversos estudos demonstrando que a cesariana eletiva (fora do trabalho de parto) sem indicação médica aumenta o risco de o bebê ter problemas respiratórios, precisar de oxigenioterapia e também de morte neonatal, mesmo que esse último desfecho tenha um risco absoluto baixo. A cesariana eletiva também tem sido apontada como uma das causas do aumento da prematuridade tardia, por datação incorreta da idade gestacional e/ou programação da cesariana com 37, 38 semanas, quando os bebês não estão preparados para nascer. Esses bebês terão repercussões tanto imediatas, como desconforto respiratório e hospitalização em UTI, como tardias, como problemas de aprendizagem. Da mesma forma, evidências sólidas apontam que a cesariana eletiva está associada com maior risco de os bebês desenvolverem asma, alergia respiratória, alergia alimentar, obesidade e uma série de repercussões na vida adulta que somente agora começamos a vislumbrar.

Deve-se, sobretudo, ter consciência de que o parto não é somente um evento biológico mas tem múltiplas dimensões, biopsicossociais e espirituais, e que a mulher é a protagonista desse evento. Os
profissionais de saúde, todos eles, são importantes para estar ao lado ("obstare") e promover uma assistência, como já definia Leboyer, "leve mas sem falhas", porém não são, não podem ser os personagens mais importantes no cenário do parto, que é um momento especial, mágico e singular para cada mulher, cada família.

Para um nascimento humanizado, é preciso sobretudo que os profissionais de saúde se conscientizem dos benefícios da humanização da assistência, porque infelizmente ainda há muito preconceito e desinformação, e que o parto seja preferencialmente assistido em ambiente respeitoso, resguardando-se a privacidade e o conforto do binômio mãe-bebê. Esse ambiente deve ser garantido tanto em hospitais como em centros de parto normal, tanto no SUS como no sistema de saúde suplementar. O Ministério da Saúde tem incentivado a promoção dessas boas práticas, desde a publicação, em 2000, de seu Manual de Assistência Humanizada ao Aborto, Parto e Puerpério, e nós já dispomos de várias leis e resoluções, inclusive a Lei do Acompanhante (11.108 de 2005) e a Resolução RD 36 da Anvisa, visando à mudança do cenário da assistência obstétrica em nosso país. O fato é que o modelo de assistência ao parto no Brasil é ainda fortemente medicalocêntrico e hospitalocêntrico e nós nos deparamos com o chamado "paradoxo perinatal brasileiro", porque temos 98% de partos hospitalares, excessivo uso de tecnologia e, a par disso, taxas ainda inaceitavelmente elevadas de morte materna e perinatal. É preciso modificar esse cenário, e essa mudança deve advir com a ampla disseminação e prática da assistência humanizada ao parto.

Ainda de acordo com o Ministério da Saúde (2000), "reconhecer a individualidade é humanizar o atendimento. Permite ao profissional estabelecer com cada mulher um vínculo e perceber suas necessidades e capacidade de lidar com o processo do nascimento. Permite também relações menos desiguais e menos autoritárias, na medida em que o profissional em lugar de "assumir o comando da situação" passa a adotar condutas que tragam bem-estar e garantam a segurança para a mulher e o bebê."

> O parto humanizado também pode ser realizado em ambiente hospitalar?

O modelo clássico de assistência hospitalar ao parto, em que cada mulher prestes a dar à luz é transformada em uma paciente, não é compatível com os pressupostos da Humanização. Porém, é possível modificar esse modelo e transformar as práticas, reconhecendo e incorporando as evidências à assistência hospitalar. Por exemplo, há nítidas evidências de que o parto em centros de parto normal e em suítes PPP (pré-parto, parto e pós-parto), em vez da assistência ainda muito comum ao parto dentro do bloco cirúrgico ou em "salas de parto", traz numerosas vantagens para o binômio mãe-bebê. O Ministério da Saúde tem se esforçado em promover os centros de parto normal e a disponibilidade de suítes PPP em todos os hospitais, mas ainda há um longo caminho a percorrer, incluindo a disponibilidade de vagas para todas as parturientes que procuram as maternidades, e muitas vezes peregrinam de hospital em hospital, e ainda têm que enfrentar, quando internadas, os problemas da superlotação, com os quais aliás também se angustiam os profissionais de saúde.

Nós temos que nos preocupar com a assistência humanizada intra-hospitalar, primeiro porque no Brasil 98% dos partos são hospitalares, e nós temos que investir em uma assistência hospitalar de qualidade. Depois, não são todas as mulheres que querem ou podem ter partos domiciliares. A Política Nacional de Humanização do Ministério da Saúde tem um nítido enfoque nos partos institucionais, quer em hospitais quer em centros de parto normal. Há nítidos desafios, como o percentual absurdamente elevado de cesarianas no País (52%, sendo mais de 80% no setor privado), a violência institucional contra a mulher (25% de todas as parturientes declaram ter sido vítimas de violência, verbal ou física, durante a assistência ao parto) e o abuso de procedimentos e práticas que já deveriam ter sido abolidos há muito tempo da prática obstétrica, como a episiotomia de rotina e a manobra de Kristeller (pressão no fundo uterino). Mas acreditamos que é possível modificar esse panorama. A assistência ao parto intra-hospitalar deve se centrar nos mesmos pressupostos já citados anteriormente, de respeito ao protagonismo feminino e uso das melhores evidências científicas correntemente disponíveis para a tomada de decisões, em uma abordagem centrada na mulher e em sua família.

> Quais são as bandeiras de luta da 'Marcha do Parto em Casa'?

Nos dias 16 e 17 de junho de 2012, milhares de mulheres em mais de 30 cidades brasileiras foram às ruas em defesa do direito de escolha do local de parto, mas obviamente não é essa a única bandeira de luta do movimento. O que se pleiteia é, sobretudo, o RESPEITO ao parto, o RESPEITO à Mulher. Lembro que essa mobilização começou em repúdio à decisão do CREMERJ (Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro) de encaminhar denúncia ao CREMESP (Conselho Regional de Medicina de São Paulo) contra o médico Jorge Kuhn, que manifestou no programa Fantástico sua opinião favorável e baseada em evidências em favor do parto domiciliar planejado para gestantes de baixo risco que ESCOLHEM
essa opção.

O debate em torno do parto domiciliar, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, tem se tornado extremamente polarizado e politizado, de forma que nós não esperamos com essa manifestação das mulheres resolver a polêmica. Nossa intenção é promover ampla discussão com toda a sociedade, tentando estabelecer um consenso, visando a garantir o respeito a um direito reprodutivo básico, qual seja a escolha do local de parto, mas também a implementar estratégias para aumentar a segurança e a satisfação das usuárias em TODOS os partos. Isto inclui tanto melhorar e humanizar a atenção hospitalar no sentido de que os partos assistidos em maternidades ou centros de parto normal possam representar uma experiência gratificante para as mulheres, como estabelecer diretrizes para a seleção adequada das candidatas ao parto domiciliar e um atendimento obstétrico seguro e de qualidade em domicílio.

O nosso abaixo-assinado em prol de um debate cientificamente embasado sobre o local de parto (http://www.peticaopublica.com.br/PeticaoVer.aspx?pi=petparto) já coletou mais de 3.700 assinaturas e será enviado ao Ministério da Saúde, à Cochrane do Brasil e a todos os conselhos médicos e de enfermagem, bem como associações como a FEBRASGO e a ABENFO, visando a regulamentar a assistência extra-hospitalar ao nascimento, com a elaboração de protocolos baseados nas mais atualizadas evidências científicas, permitindo incrementar a segurança e monitorar os desfechos maternos e perinatais, oferecendo a mais ampla gama de alternativas para as gestantes e reforçando a ideia do protagonismo feminino no parto.

Dra. Melania Amorim é médica-obstetra com doutorado e pós-doutorado em Ginecologia e Obstetrícia pela Unicamp, pós-doutorado em Saúde Reprodutiva na OMS, pesquisadora associada da Biblioteca Cochrane, professora de Ginecologia e Obstetrícia da UFCG (Campina Grande, Paraíba), professora da pós-graduação em saúde materno-infantil do IMIP (Recife, Pernambuco) e bolsista de produtividade em pesquisa do CNPq. Tem mais de 170 artigos publicados em revistas médicas nacionais e internacionais e é a atual Coordenadora Nacional do Núcleo de Parteria Urbana da Rede pela Humanização do Nascimento (ReHuNa) no Brasil.

_____

Perdi o meu latim. Vejam a resposta da repórter:

"Já li as suas respostas. Gostaria de saber se a senhora pode nos relatar casos concretos de partos domiciliares realizados aqui na Paraíba - que não sejam aqueles 'tradicionais' , inclusive já mostrados por meio de reportagem publicadas no JORNAL DA PARAÍBA, feitos em mulheres do interior ou que moram em áreas longíquas.

Ou existe alguma pesquisa que mostre os resultados dos partos domiciliares no Estado ou na região? Algo que seja mais próximo de nós, porque os dados da Europa são distantes para nós compararmos à nossa realidade, entende? A ideia do jornalismo e da matéria que nos propomos a fazer é propor o debate sobre o tema, focando nos recursos e nas experiências que nós temos em nível local. "

E a minha resposta, em sequência:

"Fulana, não há nenhum estudo sobre partos domiciliares planejados na Paraíba. As estatísticas brasileiras não nos permitem distinguir entre partos domiciliares não planejados, partos domiciliares sem assistência qualificada e partos domiciliares planejados assistidos por profissionais qualificados, inclusive esse é um dos objetivos do NuPar da ReHuNa, fazer um registro nacional dos partos domiciliares planejados nos centros urbanos. Por enquanto, em nível de Brasil, dispomos apenas das estatísticas preliminares de São Paulo:


Como você pode ler no relato acima, da Prefeitura de São Paulo (2010):

"Os partos assistidos por profissionais autônomos e cadastrados representaram em 2010, 16,5% do total de domiciliares, correspondendo a 95 nascimentos. A escolaridade destas mães era superior a 12 anos de estudo em 87,5% dos casos; 66,3% apresentava mais de 30 anos de idade, 65,3% constituiu-se de profissionais com ocupações relacionadas às ciências e artes; 65,3% era casada; 95,8% de cor branca; 92,6% realizou sete ou mais consultas de prénatal e em 49,5% este foi o primeiro parto. Todos os recém-nascidos deste grupo apresentaram peso superior a 2.500 g, 96,8% com índice de Apgar acima de 8 no primeiro e no quinto minuto. A maioria (86,3%) residia em bairros com predomínio dos grupos 1 e 2, isto é, nenhuma ou muito baixa vulnerabilidade social."

Eu já atendi diversos partos domiciliares em Recife, onde também trabalho, mas não na Paraíba. Em Recife existe todo um movimento organizado e grupos de mulheres que têm experiência positiva com partos domiciliares planejados assistidos por médicos ou enfermeiras-obstetras, mas acho que esse movimento ainda está engatinhando em nosso estado.

As evidências que apresentei, no entanto, são universais, da mesma forma que a recomendação da Organização Mundial da Saúde é válida para TODO O MUNDO, bem como a da Federação Internacional das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO). Não entendo a sua colocação sobre o tipo de jornalismo que vocês pretendem fazer, porque todos os profissionais entrevistados na sua reportagem falaram genericamente de suas opiniões sobre parto domiciliar sem nenhum embasamento em estudos
científicos e sem nenhum dado "concreto" de nosso estado, e absolutamente nenhum deles focou "nos recursos e nas experiências que nós temos em nível local."

Foram três páginas de reportagem nessa última edição, e não entendo por que, se vocês querem abordar assuntos somente que dizem respeito à realidade local, resolveram enfocar o parto domiciliar planejado."

Fica aqui registrado o meu protesto.


Texto de Melania Amorim, Obstetra

segunda-feira, 23 de julho de 2012

PARTO DOMICILIAR PLANEJADO - ATENÇÃO PADRÃO OURO


1) Pré-natal impecável, com todos os exames realizados, incluindo ultrassom morfológico com aproximadamente 20 semanas, sorologias conforme recomendação do Ministério da Saúde, pelo menos 6 consultas de pré natal com avaliação de pressão arterial, altura uterina, peso materno, ausculta fetal. Anamnese completa.
2) Pré-natal realizado por médico, enfermeiro obstetra, obstetriz ou uma combinação destes profissionais.
3) Permanecer como gestante de baixo risco até o final da gestação, sem doenças associadas. Situações especiais podem ou não ser classificadas como candidatas a um parto domiciliar, a depender de vários fatores: multípara, cesárea prévia ou pélvico, por exemplo.
4) Atendimento do parto por médico, enfermeiro obstetra, obstetriz com treinamento em emergências obstétricas e neonatais. 
5) Informações completas sobre hospitais de referência na região.
6) Equipamento completo de emergência: ambu, estetoscópio, medicamentos anti-hemorrágicos, soro para reposição de volume em caso de hemorragia, luvas e gazes estéreis, material de sutura, instrumentos esterilizados, e se possível um cilindro de O2 portátil.
7) Início espontâneo do trabalho de parto, sem indução ou aceleração com ocitocina.
8) Ausculta dos batimentos cardíacos fetais a cada hora (fase latente), a cada meia hora (fase ativa), a cada 15 minutos (expulsivo), especialmente após contração, com registro completo de todas as medidas e ações em prontuário individual.
9) Cuidado pós-parto com pelo menos três visitas de membros da equipe, nos primeiros sete dias de vida do bebê.
10) Emissão de DNV para registro do bebê, nos municípios onde há permissão da secretaria de saúde para retirada de DNV por profissionais.

Por: Ana Cristina Duarte - GAMA

quarta-feira, 11 de julho de 2012

SBT Repórter e a matéria sobre partos humanizados



"Na última segunda-feira, o SBT Repórter exibiu uma belíssima e exemplar matéria sobre partos humanizados.
Todo mundo que é ligado nesse assunto estava com o coração na mão aguardando o programa. Afinal de contas, nunca se sabe o que a mídia vai fazer em cima desse assunto tão importante e a gente sabe que o senso comum é o discurso do risco e da medicalização.
Então estávamos todas a postos, sintonizadas no canal do seu Silvio, torcendo para que fosse uma matéria esclarecedora.
E que grande emoção ao ver o profissionalismo com que a emissora tratou o tema...
Escolheu pessoas importantes no cenário da humanização para suas entrevistas, como a obstetriz Ana Cristina Duarte, que além de obstetriz é ativista e estudiosa do assunto, e a querida Luciana Benatti que, junto com seu marido, o fotógrafo Marcelo Min, produziram o belíssimo livro Parto Com Amor.
Que programa lindo... Profundamente emocionante e bastante esclarecedor.
Nem a opinião equivocada e claramente tendenciosa da Dra. Morandini, representante do CREMESP, atrapalhou. Pelo contrário. Contribuiu para deixar ainda mais claro o que é que os Conselhos de Medicina estão fazendo com o parto e nascimento: negando a autonomia e o protagonismo feminino, tentando substituir as mulheres e seus filhos por si próprios.
Particularmente, nada me emocionou mais do que a história da Renata, mineira, mãe de duas meninas, a primeira nascida por cesárea e a segunda nascida em casa, tendo sido o nascimento da última filha filmado por sua própria irmã.
Desconte-se o chavão da enaltação do policial militar como herói por ter auxiliado o parto da mulher, que tranquilamente pariu no carro inesperadamente, porque a beleza da matéria permite que descontemos os pequeníssimos equívocos. E compartilho aqui o que comentei na fan page do blog:

Será que deu pra entender que não é nada difícil falar de parto humanizado, de parto em casa, de parto na água? Será que deu pra perceber que foram as mulheres e suas histórias verídicas, honestas, sinceras, que tornaram o programa tão especial? E que isso tem acontecido cada vez mais? É tão fácil entender o porquê de tanta gente mobilizada, de tanta gente nas ruas nas Marchas, de tanta gente revendo seus próprios preconceitos, pegando o telefone à 1:30 da manhã pra dizer "Tô chorando, entendi agora o que vc quer dizer", de tanta mulher pedindo o retorno às suas próprias mãos de algo que não devia nem ter saído... Viu como, frente à beleza da naturalidade do nascimento e da interpretação dela como um evento familiar, a Dra. Morandini se tornou peça obsoleta e caricata dessa matéria? Ela, que representa o Conselho de Medicina. Viu como estão alicerçados em bases desatualizadas, fracas, baseadas em fins mesquinhos e biopolíticos? Deu pra ver, nessa matéria, de quem é o evento do nascimento e a quem pertence? Agora diz: tem como não ser transformador? Essa é uma parte da revolución de las madres. Com certeza. Uma revolução que trará benefícios a todos, inclusive aos que tentam se manter fixos na medicalização estrita do nascimento. Linda matéria mas, mais que bonita, IMPORTANTE.

Infelizmente, o horário não ajudou na popularização do programa.
Mas felizmente temos a internet!
Então se você não pode assistir no dia, reserve um horário na sua agenda e assista.
Deixe o lencinho ao lado, porque vai precisar.                                       
Se você não é um interessado no tema, ainda assim recomendo que assista, a título de curiosidade.
Não tem como não ser tocado por essas imagens e pela força e determinação de todas essas mulheres.
E é como diz Michel Odent: não temos como mudar o mundo se não mudarmos a forma de nascer.

UM ÚLTIMO PONTO: todo mundo reparou (ou vai reparar) como a Dra. Morandini não responde à pergunta sobre por que hoje no Brasil temos mais de 80% de cesáreas. Ela preferiu não respondeu e chamar o parto em casa de modismo.
As índias estão na moda. Nossas avós, de coque e saião, estão na moda. Mulheres nos recônditos brasileiros estão na moda. Tradicional mesmo é a cesárea.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

PARTO DOMICILIAR: DIREITO REPRODUTIVO E EVIDÊNCIAS


“A humanização do nascimento não representa um retorno romântico ao passado, nem uma desvalorização da tecnologia. Em vez disso, oferece uma via ecológica e sustentável para o futuro”

(Ricardo Herbert Jones)

A discussão sobre o local de parto deve se pautar, essencialmente, em dois níveis: respeito à autonomia e ao protagonismo feminino, uma vez que a escolha do local de parto é um direito reprodutivo básico; e reconhecimento e adequada interpretação das evidências comparando partos domiciliares planejados e partos hospitalares em gestantes de baixo risco. Não se compreende mais na atualidade o processo de tomada de decisão baseado exclusivamente nas concepções e na experiência do prestador de cuidado, uma vez que, por definição, Medicina Baseada em Evidências consiste na integração harmoniosa da experiência clínica individual com as melhores evidências científicas correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes.

Apesar da posição contrária de conselhos regionais de Medicina e da FEBRASGO, que vêm sistematicamente desaconselhando (embora não proibindo) o parto domiciliar, devemos destacar que tanto a Organização Mundial de Saúde (OMS) como a Federação Internacional de Ginecologistas e Obstetras (FIGO) respeitam o direito de escolha do local de parto pelas mulheres e reconhecem que, quando assistido por profissionais habilitados, há benefícios consideráveis para as mulheres que querem e podem ter partos domiciliares. A OMS reconhece como profissionais habilitados para prestar assistência ao parto tanto médicos como enfermeiras-obstetras e parteiras e recomenda que as mulheres podem escolher ter seus partos em casa se elas têm gestações de baixo-risco, recebem o nível apropriado de cuidado e formulam planos de contingência para transferência para uma unidade de saúde devidamente equipada se surgem problemas durante o parto(1–3). Por sua vez, a FIGO recomenda que "uma mulher deve dar à luz num local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura” (4). Outras sociedades no mundo, como o American College of Nurse Midwives (5), a American Public Health Association (6), o Royal College of Midwives (RCM) e o Royal College of Obstetricians and Gynaecologists (RCOG) (7) apoiam o parto domiciliar para mulheres com gestações não complicadas. De acordo com a diretriz do RCM e do RCOG, “não há motivos para que o parto domiciliar não seja oferecido a mulheres de baixo risco, uma vez que pode conferir consideráveis benefícios para estas e suas famílias” (7).

Mesmo o American College of Obstetricians and Gynecologists (ACOG), conquanto explicite que considera hospitais e centros de parto normal mais seguros, reconhece o direito das mulheres de escolher o local do parto. Citando literalmente o resumo da diretriz, publicada em fevereiro de 2011: “Embora o Comitê de Prática Obstétrica acredite que os hospitais e centros de parto normal sejam os locais mais seguros para o nascimento, ele respeita o direito de uma mulher de tomar uma decisão medicamente informada sobre o parto. Mulheres questionando sobre o parto domiciliar planejado deveriam ser informadas sobre os seus riscos e benefícios baseados nas recentes evidências. Especificamente, elas deveriam ser informadas que embora o risco absoluto possa ser baixo, o parto domiciliar planejado está associado com um risco duas a três vezes maior de morte neonatal quando comparado com o parto hospitalar planejado. É importante que as mulheres devam ser informadas que a adequada seleção de candidatas para o parto domiciliar; a disponibilidade de enfermeiras-obstetras ou parteiras certificadas, ou médicos atuando dentro de um sistema de saúde integrado e regulado; o pronto acesso à consulta; e a garantia de transporte seguro e rápido para os hospitais mais próximos são críticos para reduzir as taxas de mortalidade perinatal e obter desfechos favoráveis do parto domiciliar.” (8)

Em relação às evidências, a despeito dos temores do ACOG, devemos destacar que essa conclusão de aumento do risco de morte neonatal se baseia unicamente nos resultados da controvertida metanálise publicada em 2010 por Wax et al. no American Journal of Obstetrics and Gynecology (AJOG) (9). O problema é que essa metanálise, que incluiu 12 estudos originais e um total de 342.056 partos domiciliares e 207.551 partos hospitalares planejados, apresentou diversos vieses e erros metodológicos grosseiros. Os autores concluíram que os partos domiciliares planejados se associam com menor risco de intervenções maternas, incluindo analgesia peridural, monitoração eletrônica fetal, episiotomia, parto operatório, além de menor frequência de lacerações, hemorragia e infecções. Dentre os desfechos neonatais dos partos domiciliares planejados, verificou-se menor taxa de prematuridade, baixo peso ao nascer e necessidade de ventilação assistida. No entanto, apesar de as taxas de mortalidade perinatal serem semelhantes entre partos domiciliares e partos hospitalares, os partos domiciliares se associaram com aumento de cerca de três vezes das taxas de mortalidade neonatal.

O artigo em questão gerou intensa polêmica na comunidade científica internacional, seguindo-se diversas cartas publicadas em sequência no próprio AJOG, das quais uma tem o provocativo título “Parto domiciliar triplica a taxa de morte neonatal: comunicação pública ou má ciência?”(10). Diante de todas as críticas, o AJOG resolveu investigar o estudo em questão, e a revisão pós-publicação de fato encontrou erros na análise original, embora não tenha alterado suas conclusões. A conceituadíssima revista Nature se interessou pela questão, porém mesmo solicitando diversas vezes que tanto Wax como o ACOG comentassem os problemas apontados por vários especialistas, esses declinaram o convite. A Elsevier, editora que publica a revista, reconhece os erros, mas não acredita que esses possam motivar uma retratação (11).

Tentando resumir a enorme quantidade de críticas feitas à metanálise de Wax, podemos afirmar que, à diferença das revisões sistemáticas da Cochrane, essa não seguiu as diretrizes estabelecidas internacionalmente para condução e publicação de metanálise, como o PRISMA (Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses) ou o MOOSE (Meta-Analyses and Systematic Reviews of Observational Studies). Diversos erros estatísticos foram cometidos, até porque os autores utilizaram uma calculadora para a metanálise que apresenta vários problemas, resultando em Odds Ratio e intervalos de confiança incorretos, o que foi reconhecido pelo próprio autor do programa. No entanto, o principal erro enviesando a análise não foi estatístico, e sim um viés de seleção dos estudos, porque os autores da metanálise excluíram o grande estudo de coorte holandês com mais de 500.000 partos do cálculo do risco de morte neonatal, embora o tenham incluído no cálculo do risco de morte perinatal. Na verdade, os dados da metanálise são contraditórios em relação à morte neonatal e perinatal basicamente porque os autores definiram morte perinatal como morte fetal depois de 20 semanas ou a morte de um recém-nascido (RN) vivo nos primeiros 28 dias de vida, em vez de nos primeiros sete dias de vida, como é a recomendação internacional. Por outro lado, outros estudos usados para calcular o risco de morte neonatal foram incorretamente incluídos e outros que poderiam ter sido incluídos para o cálculo de morte perinatal foram excluídos, por razões que não ficam bem claras. Os dados utilizados para o cálculo de morte neonatal incluíram partos que não tinham sido assistidos por parteiras ou enfermeiras-obstetras certificadas, o que já se demonstrou ser fator importante para redução dos riscos. Mesmo revisando os dados e apresentando os gráficos em uma publicação ulterior na revista com os novos números calculados corretamente, isso não resolve os sérios problemas metodológicos pertinentes à definição de termos e critérios de inclusão e exclusão.

Em suma, como refere Keirse em seu brilhante artigo publicado na Birth em Dezembro de 2010 (“Home Birth: Gone Away, Gone Astray, and Here To Stay”) “combinar estudos de parto domiciliar e hospitalar, sem diferenciar o que está dentro deles, onde eles estão e o que os circunda, é semelhante a produzir uma salada de frutas com batatas, abacaxi e salsão”. (12)

O fato é que, à parte a enviesadíssima metanálise de Wax et al., todos os grandes estudos observacionais publicados reforçam as vantagens do parto domiciliar em termos de desfechos maternos, resultando em menor taxa de intervenções como episiotomia, analgesia, uso de ocitocina, operação cesariana e parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator), sem aumento do risco de complicações para mães e bebês e com elevado grau de satisfação das usuárias que passaram por essa experiência (13–15). Dentre esses estudos, destacamos o estudo holandês (de Jonge et al.), publicado em 2009, envolvendo mais de 500.000 partos (16), e que foi arbitrariamente excluído da metanálise, como já apontamos anteriormente, e os estudos mais recentes, publicados em 2011, o do National Health System (NHS) no Reino Unido (mais de 60.000 partos) (17) e outro grande estudo de coorte holandês com mais de 679.000 partos (18). Nesse último estudo, evidenciou-se uma mortalidade perinatal de 0,15% em partos domiciliares planejados contra 0,18% em partos hospitalares planejados em parturientes de baixo risco. O fato é que, infelizmente, mesmo com a melhor assistência, 15-18 em cada 10.000 RN irão morrer, quer nasçam em casa quer no hospital, mesmo em países desenvolvidos como a Holanda, não havendo diferença significativa nessa mortalidade de acordo com o local de parto.

Embora a utilização de evidências de estudos observacionais possa ser alvo de críticas, o fato é que não dispomos de ensaios clínicos randomizados (ECR) comparando partos domiciliares vs. hospitalares. Um único ECR foi publicado e incluído na revisão sistemática da Biblioteca Cochrane, porém só conseguiu avaliar 11 mulheres (19). De fato, alguns especialistas podem considerar difícil elaborar recomendações fortes com base em evidências fracas, oriundas de estudos observacionais, mas o mínimo que profissionais e sociedades deveriam reconhecer é que também não dispomos de evidências fortes corroborando a segurança do parto hospitalar para parturientes de baixo risco e seus neonatos.

No entanto, randomizar mulheres para parto domiciliar ou hospitalar é virtualmente impossível: de acordo com Keirse, essas mulheres para quem “tanto faz” parir em casa como no hospital seriam “tão raras quanto elefantes brancos”, mas mesmo que essas mulheres fossem encontradas, dificilmente as conclusões de um ensaio clínico randomizado com essa amostra poderiam ser extrapoladas para mulheres diferentes em situações e contextos clínicos diferentes. Mulheres que DESEJAM ter seus bebês em casa diferem substancialmente daquelas que escolhem um parto hospitalar, da mesma forma que os profissionais que prestam assistência a partos domiciliares ou exclusivamente a partos hospitalares também são bastante diferentes entre si.

Na prática, devemos considerar que tanto gestantes como profissionais de saúde têm sempre o mesmo e primaz objetivo de garantir uma experiência de parto satisfatória, com mãe e bebê saudáveis. Por outro lado, é um direito reprodutivo básico para as mulheres poder escolher como e onde irão dar à luz. Essa escolha deve ser informada pelas melhores evidências correntemente disponíveis, e essas evidências sugerem, sem se considerar a metanálise equivocada de Wax et al., que o parto domiciliar é uma opção segura para as parturientes de baixo risco atendidas por profissionais qualificados. Como vantagens em relação ao parto hospitalar se destacam a menor frequência de intervenções para a mãe e o conforto e a satisfação das usuárias, que vivenciam uma experiência única e transformadora em seu próprio lar. As taxas de mortalidade perinatal e neonatal são semelhantes àquelas observadas em partos hospitalares de baixo risco. No entanto, a decisão final deve se basear tanto nas evidências como nas características e expectativas das gestantes, bem como na experiência e qualificação dos prestadores e nas facilidades de acesso aos serviços de saúde.

De fato, o parto domiciliar planejado não somente continua acontecendo no Brasil, como vem crescendo o número de mulheres que optam por essa alternativa, apesar de ainda não dispormos de estatísticas confiáveis sobre o número exato, uma vez que os nossos sistemas de informação não permitem ainda distinguir partos domiciliares planejados dos não planejados e ocorridos sem assistência. No entanto, com o acesso amplo à Internet e o constante debate nas redes sociais, diversas mulheres têm compartilhado e comparado as suas experiências de parto em nosso país. Existe uma parcela crescente de mulheres insatisfeitas com o atual modelo de assistência obstétrica, excessivamente tecnocrático e caracterizado, por um lado, pelas taxas de cesárea inaceitavelmente elevadas no setor privado (mais de 80%) e, por outro, pelos partos traumáticos e com excesso de intervenções no Sistema Público de Saúde. Apesar da política de Humanização da Assistência ao Parto e Nascimento preconizada pelo Ministério da Saúde no Brasil (20), é fato que o modelo atual, hospitalocêntrico e medicalocêntrico, não permite ainda à maior parte das usuárias ter uma assistência ao parto humanizada e segura. Vivemos ainda em um país onde, "quando não se corta por cima, se corta por baixo", como bem definem Diniz e Chachan, referindo-se às cesáreas e episiotomias desnecessárias (21). Mais ainda, vivenciamos o chamado “paradoxo perinatal brasileiro”, uma vez que apesar de termos 98% de partos hospitalares e da adoção indiscriminada da tecnologia para assistência ao parto, a mortalidade materna e neonatal persistem elevadas (22).

Para completar, uma em cada quatro mulheres brasileiras internadas para assistência ao parto em hospitais públicos ou privados relata ter sofrido violência institucional, traduzida por qualquer forma de agressão perpetrada pelos profissionais de saúde que lhe prestam atendimento. Essas agressões não envolvem apenas o uso de procedimentos, técnicas e exames dolorosos e desnecessários, mas até ironias, gritos e tratamentos grosseiros com viés discriminatório quanto a classe social ou cor da pele (23). A violência institucional durante o parto pode assumir múltiplas facetas e representa um problema internacionalmente reconhecido (24). Em diversos hospitais ainda não se permite a presença do acompanhante, mesmo com a Lei 11.108 estabelecendo a obrigatoriedade de tanto hospitais públicos como privados permitirem a presença, junto à parturiente, de um acompanhante durante todo o trabalho de parto, parto e pós-parto imediato (25).

O atual modelo de assistência ao parto em nosso País é assustador, com os 52% de cesarianas (26) contrastando com uma mortalidade materna em torno de 70 para 100.000 nascidos vivos (27; 28) Mais ainda, embora falido e não sustentável em longo prazo, permite ainda a muitos profissionais soluções cômodas a que esses se aferram, de dentro de sua zona de conforto, como a praticidade e a conveniência de programar cesarianas eletivas sem indicação médica definida. Curiosamente, são esses os mesmos profissionais que defendem o "direito" da mulher de escolher sua via de parto, embora aparentemente este direito tenha mão única, só valha para a minoria de mulheres que desejam uma cesariana e não inclua aquelas que desejam um parto normal nem tampouco se estenda para a decisão sobre o local de parto (29). A voz das mulheres e o seu direito de escolha têm sido grandemente ignorados (30).

O debate em torno do parto domiciliar, não apenas no Brasil, mas em todo o mundo, tem se tornado extremamente polarizado e politizado, de forma que nós não esperamos com essa manifestação das mulheres resolver a polêmica. Nossa intenção é promover ampla discussão com toda a sociedade, tentando estabelecer um consenso, visando a garantir o respeito a um direito reprodutivo básico, qual seja a escolha do local de parto, mas também a implementar estratégias para aumentar a segurança e a satisfação das usuárias em TODOS os partos (12). Isto inclui tanto melhorar e humanizar a atenção hospitalar no sentido de que os partos assistidos em maternidades ou centros de parto normal possam representar uma experiência gratificante
para as mulheres, como estabelecer diretrizes para a seleção adequada das candidatas ao parto domiciliar e um atendimento obstétrico seguro e de qualidade em domicílio.

REFERÊNCIAS

1. World Health Organization (WHO). Maternal and Newborn Health/Safe Motherhood Unit of the World Health Organization, Care in Normal Birth: A practical guide. [Internet]. 1996;1-54.Available from: http://whqlibdoc.who.int/hq/1996/WHO_FRH_MSM_96.24.pdf

2. World Health Organization (WHO). Managing complications in Pregnancy and Childbirth: A guide for midwives and doctors [Internet]. 2007;1-23.Available from: http://whqlibdoc.who.int/publications/2007/9241545879_eng.pdf

3. World Health Organization (WHO). WHO | Skilled birth attendants [Internet]. 2004;1-17.[cited 2011 Sep 19] Available from: http://whqlibdoc.who.int/publications/2004/9241591692.pdf

4. FIGO. Recommendations accepted by the General Assembly at the XIII World Congress of Gynecology and Obstetrics [Internet]. International Journal of Gynecology and Obstetrics 1992;38(Supplement):S79-S80.[cited 2011 Sep 19] Available from: http://www.ijgo.org/article/0020-7292(92)90037-J/pdf

5. American College of Nurse-Midwives. American College of Nurse-Midwives Position Statement on Home Birth [Internet]. 2005;1-4.Available from: http://www.midwife.org/siteFiles/position/homeBirth.pdf

6. (APHA) APHA. Increasing access to out-of-hospital maternity care services through state-regulated and nationally-certified direct-entry midwives. APHA Public Policy Statements [Internet]. 2001;1-3.Available from: http://mana.org/APHAformatted.pdf

7. RCOG and Royal College of Midwives. Home Births [Internet]. 2007;1-6.Available from: http://www.rcog.org.uk/files/rcog-corp/uploaded-files/JointStatmentHomeBirths2007.pdf

8. ACOG Committee Opinion No. 476: Planned home birth. [Internet]. Obstetrics and gynecology 2011 Feb;117(2 Pt 1):425-8.[cited 2011 Sep 20] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21252776

9. Wax JR, Lucas FL, Lamont M, Pinette MG, Cartin A, Blackstone J. Maternal and newborn outcomes in planned home birth vs planned hospital births: a metaanalysis. [Internet]. American journal of obstetrics and gynecology 2010 Sep;203(3):243.e1-8.[cited 2011 Aug 7] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/20598284

10. Sandall J, Bewley S, Newburn M. “Home birth triples the neonatal death rate”: public communication of bad science? [Internet]. American journal of obstetrics and gynecology 2011 Apr;204(4):e17-8; author reply e18-20, discussion e20.[cited 2011 Sep 18] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21458615

11. Editors’ comment [Internet]. American Journal of Obstetrics and Gynecology 2011 Apr;204(4):e20.[cited 2011 Sep 18] Available from: http://dx.doi.org/10.1016/j.ajog.2011.01.041

12. Keirse MJNC. Home birth: gone away, gone astray, and here to stay. [Internet]. Birth (Berkeley, Calif.) 2010 Dec;37(4):341-6.[cited 2011 Sep 18] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/21083728

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15. Janssen PA, Saxell L, Page LA, Klein MC, Liston RM, Lee SK. Outcomes of planned home birth with registered midwife versus planned hospital birth with midwife or physician. [Internet]. CMAJ: Canadian Medical Association journal = journal de l’Association medicale canadienne 2009 Sep;181(6-7):377-83.[cited 2011 Aug 12] Available from: http://www.pubmedcentral.nih.gov/articlerender.fcgi?artid=2742137&tool=pmcentrez&rendertype=abstract

16. de Jonge A, van der Goes BY, Ravelli ACJ, Amelink-Verburg MP, Mol BW, Nijhuis JG, Bennebroek Gravenhorst J, Buitendijk SE. Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births. [Internet]. BJOG: an international journal of obstetrics and gynaecology 2009 Aug;116(9):1177-84.[cited 2011 Sep 6] Available from: http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19624439

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29. Amorim MM. Parto Normal vs. Cesárea - (parte 2): por que as taxas de cesárea são tão elevadas no Brasil? - Parto - Guia do Bebê [Internet]. Guia do Bebê 2011;[cited 2011 Sep 18] Available from: http://guiadobebe.uol.com.br/parto-normal-vs-cesarea-parte-2-por-que-as-taxas-de-cesarea-sao-tao-elevadas-no-brasil/

30. Faúndes A, Pádua KS de, Osis MJD, Cecatti JG, Sousa MH de. Opinião de mulheres e médicos brasileiros sobre a preferência pela via de parto [Internet]. Revista de Saúde Pública 2004 Aug;38(4):488-494.[cited 2011 Sep 20] Available from: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-89102004000400002&lng=en&nrm=iso&tlng=pt