quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Sobre a situação do parto no Brasil, o que desejam as mulheres e a mágoa dos profissionais

Perfeita análise sobre a situação atual do que nós, mulheres e nossas famílias, sentimos com relação ao parto no Brasil, em geral, e como devem se sentir os profissionais de atendimento. Leiam.
Passou da hora de se sentirem magoados com os nossos protestos e reclamações e com as ativistas!
O momento é de REVER SUA PRÁTICA! É isso que esperamos e queremos!

"Eles estão muito bravos com o nome "Violência Obstétrica". E com razão. Não é fácil você prestar uma assistência que entende ser a melhor do mundo, a mais legal que existe, e depois ser chamado de violento. Não é fácil você acreditar num procedimento como sendo o salvador dos partos e das mulheres e de repente um bando de leigas vir contestar, sem nunca na vida ter pisado numa sala de parto. E mais, desde quando as mulheres têm que decidir o que é melhor para elas no parto, se nós estamos lá justamente para salvá-las da morte?

O próprio termo "parto humanizado" é para muitos extremamente ofensivo, pois faz crer que o que eles oferecem não é humano.

Pois bem, passa da hora de mudarmos o disco da mágoa e entender o que esse povo anda espalhando por aí. Aos médicos que querem entender esses gritos e sair da zona de conforto, recomendo fortemente o livro da Robbie Davis Floyd "Bith as an American rite of passage". Essa é a base da compreensão. Ali a antropóloga faz uma análise da assistência médica ao parto, destrinchando cada um dos procedimentos comumente oferecidos às mulheres e bebês.

Quem não quiser ler inglês, recomendo "Memórias do Homem de Vidro" de Ricardo Herbert Jones. Nessa obra o autor (médico obstetra) explica a assistência moderna e o que as mulheres estão pedindo, do ponto de vista da medicina, da antropologia e do consumidor. Leitura leve e profunda ao mesmo tempo.

Vamos primeiro entender que é normal e comum a situação em que uma pessoa diga "você foi violento" e o outro diga "não fiz violência, eu estava cuidando de você". Muitas mulheres ao se deitarem semi-nuas numa maca, com as pernas abertas, sendo examinadas por um ou mais desconhecidos, tendo sua intimidade invadida, ao terem as suas vaginas cortadas e re-costuradas, ao ouvirem frases do tipo "se você não parar de gritar eu não vou te ajudar", entre outros problemas da assistência, podem ficar profundamente traumatizadas. O trauma que ela carrega, apesar de não ter sido propositadamente provocado por nós, é um fato, é uma sequela, é um drama com o qual ela tem que viver.

Ainda que nós profissionais não possamos levar a alegria e perfeita solução para 100% das mulheres, é importante que nós tenhamos consciência do potencial risco de trauma por condutas que nós achamos absolutamente normais. Ainda que ver uma mulher de pernas abertas semi-nua numa maca seja algo corriqueiro e sem importância, é possível que aquela mulher esteja ali sendo marcada a ferro e fogo em seu coração, para sempre.

É preciso acordar para o fato de que nem tudo o que nós fazemos corriqueiramente é visto desta forma pela pessoa cuidada. Um exame de toque feito de forma um pouco mais abrupta pode ser percebido pela mulher como um estupro. Não é uma acusação, é um fato. Você está com pressa, você tem que atender três gestantes de alto risco, dois partos acontecendo, falta material, tem parente dando barraco na porta e aquela menina de 18 anos está ali, vulnerável, assustada, sem acompanhante. Você tem 10 segundos para examinar aquela menina. Tenha a consciência de que aquele simples exame de toque poderá deixar marcas e sequelas para o resto da vida dessa moça. Nada poderá tirar essa marca que você está prestes a deixar.

Nós podemos inclusive falar da violência que nós sofremos nas instituições, nas relações profissionais, no sistema jurídico, no governo. Mas nada justifica a violência que cometemos contra as mulheres sem nem ao menos perceber. O primeiro passo é, portanto, compreender que sim, nós profissionais da saúde podemos ser agentes de violência sem perceber. O segundo é cuidar de cada mulher, de cada mãe, de cada bebê, como se fosse nosso parente, nossa irmã, nossa mãe. Eu tenho certeza que se cada um cuidar de cada mulher como se fosse de sua família, teríamos uma situação bem melhor nos centros obstétricos.

Sem falar em todos os procedimentos que um dia nós acreditamos serem necessários e que vão caindo um a um. Quantos de nós não aprendemos que a lavagem intestinal era essencial à boa assistência? A tricotomia? O corte imediato do cordão? A separação do bebê? Um a um esses procedimentos vão caindo e é preciso abrir o coração para o que virá: episiotomia, aspiração de vias aéreas, kristeller, valsvalva, litotomia. Se nós não aceitarmos que nossa assistência pode melhorar, e que as evidências são nossas aliadas e devem ser estudadas, para que mesmo que nos formamos numa área em constante transformação?

Por fim quero lembrar que não estou falando de médicos. Estou falando de todos os agentes de cuidados obstétricos, incluindo doulas, enfermeiras, auxiliares e técnicas, obstetrizes, médicos, neonatologistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogas, todos! Sejamos cuidadosos e estudiosos. Sempre. Não nos ofendamos quando ouvirmos queixas sobre nossa atuação. Em vez de sentirmos mágoa, que possamos sentir curiosidade. Acho que temos sempre algo a aprender!"

Por: Ana Cristina Duarte, no Facebook.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Hospital proíbe manobra de Kristeller e reconhece violência obstétrica



Um hospital público de São Paulo aboliu neste mês a prática chamada de manobra de Kristeller durante os partos após uma paciente procurar o Ministério Público Federal para relatar as dores que sentiu durante o procedimento.

De acordo com a Procuradoria, o Hospital Geral de Pedreira, na zona sul da cidade, reconheceu que a manobra é uma violência obstétrica. A técnica consiste em pressionar com força a parte superior do útero para agilizar a saída do bebê, o que pode causar lesões graves para a mãe, como fratura de costelas e descolamento da placenta. Já os bebês podem sofrer traumas encefálicos com o procedimento. O hospital estadual é gerido por  uma OS (organização social).

A paciente que procurou o MPF relatou que sentiu “dores extremas” durante o procedimento. Segundo a denúncia, o médico que a atendeu subiu duas vezes sobre a sua costela para “empurrar o bebê com os punhos fechados”.

Assim que tiveram conhecimento do caso, as procuradoras Luciana da Costa Pinto e Ana Previtalli recomendaram para a direção da unidade que não fizesse mais a prática e que informasse os profissionais de saúde que o procedimento não deve mais ser usado. A recomendação determinava ainda que os funcionários tivessem um treinamento para oferecer um atendimento mais humanizado para as parturientes. Na unidade de saúde, foram espalhados cartazes de orientação aos pacientes e funcionários dizendo que a “manobra de Kristeller é uma violência obstétrica e, portanto, é contra-indicada”.

Segundo o Ministério da Saúde, a manobra de Kristeller deve ser evitada por ser “ineficaz e algumas vezes prejudiciais”.  Mesmo não sendo recomendada, inclusive pelo CFM (Conselho Federal de Medicina), o procedimento é muito comum nas maternidades do país.

De acordo com a pesquisa “Nascer no Brasil”, da Fiocruz, 37% das mulheres tiveram ou o  médico ou o auxiliar de enfermagem pressionando a sua barriga durante o parto.

O levantamento, divulgado no ano passado, mostra que a prática é tão comum nas maternidades públicas como nas privadas.  A prática é mais comum ainda no Centro-Oeste e no Nordeste onde  as taxas foram ainda superiores, ou seja, 45,5% e 40,6%, respectivamente.

As procuradoras acreditam que o combate à adoção da técnica depende tanto dos profissionais de saúde quanto das parturientes. “Os médicos que estão habituados a realizar a manobra de Kristeller devem, com urgência, rever suas práticas”, alerta Ana Previtalli. Para Luciana da Costa Pinto, “as mulheres precisam se informar de que se trata de procedimento perigoso e que não deve ser realizado”. Em caso de ocorrência, as gestantesdevem denunciar os fatos na página eletrônica do MPF.

Em março, o MPF abriu um inquérito civil público para investigar os casos de violência obstétrica, como a episiotomia e outrosprocedimentos sem o consentimento da parturiente.

Quem realizar a  técnica, segundo as procuradoras,  pode receber sanções administrativas perante os conselhos regionais de medicina, além de ações cíveis e penais se houver danos à saúde da mulher ou do bebê.

Procurada pelo Maternar, a Secretaria de Estado da Saúde A informou que está redefinindo a linha de cuidados com as gestantes, com a inclusão de novas diretrizes no plano de boas práticas de assistência ao parto seguro, dentre elas, a restrição à manobra de Kristeller.


“O novo plano já está sendo elaborado e, inclusive, na última segunda-feira (15) e na terça-feira (16) ocorreram dois seminários com representantes da secretaria e de outros órgãos relacionados à saúde da mulher para tratar do tema”, diz nota enviada pela pasta.


sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

NATAL É PARTO



"Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o "amarás ao próximo como a ti mesmo".

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out... a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e emparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.


(Após uma conversa com a querida Maria do Carmo Dischinger)"

Por Ricardo Hebert Jones, obstetra humanizado do Rio Grande do Sul.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Como a analgesia pode aliviar as dores do parto


Quem foi que disse que parto tem que ser com dor? Muitas mulheres não esperam nem entrar em trabalho de parto e agendam suas cesáreas com medo da tal temida ‘dor do parto’. Mas, essa dor é tão forte assim? Como saber se vai suportar sem antes sentir de fato as contrações? Parto humanizado não significa que você não pode, por exemplo, pedir uma analgesia para aliviar a dor.

O médico anestesista Carlos Eduardo da Costa Martins explica que a analgesia é uma grande aliada para ter um parto “sem dor”. Martins diz que ela pode ser aplicada durante o início do trabalho de parto ou até mesmo no final, dependendo da vontade da mulher.

As dosagens, detalha o médico, são controladas pelo profissional de acordo com cada fase do parto.

O médico explica que é colocado um cateter na paciente e que o anestesista fica administrando as soluções analgésicas conforme a necessidade e aumento da dor da parturiente. Ou seja, depois que é acionado, o anestesista também fica ao lado da mulher o tempo todo sendo que às vezes o trabalho pode ser rápido ou levar várias horas. Atualmente, no entanto, isso só é possível na rede particular de saúde já que na rede pública não há um anestesista para cada paciente.

“Não há uma receita de bolo quando se fala em analgesia. Varia de acordo com o momento e da intensidade da dor que passa a paciente. Damos a dose necessária e suficiente”, explica.

O médico comenta que cerca de 80% das pacientes pedem analgesia quando estão entre quatro e oito centímetros de dilatação. Mas, segundo ele, muitas pedem ainda no início do trabalho de parto e outras só no expulsivo [momento do nascimento do bebê].

Para tomar a analgesia, explica o médico, a mulher precisa estar com contrações seriadas e, é claro, com dor. Ele comenta que a interferência do anestesista tem que ser mínima para que a mulher continue a se mexer durante o trabalho de parto, ou seja, a gestante pode continuar se movimentando, ficar de cócoras ou achar a melhor posição para poder ter seu bebê.  Mesmo com a analgesia, se for corretamente administrada, a parturiente consegue andar, agachar e, é claro, sentir as contrações.

A obstetriz Ana Cristina Duarte explica que a maioria das mulheres é bastante tolerante às dores das contrações, afinal, as  dores são como a onda do mar, ou seja, elas vem e vão e tem parturientes que chegam a dormir entre uma contração e outra.

“No final do trabalho de parto as dores tendem a se intensificar e, nessa hora, pode entrar a analgesia se esse for o desejo da paciente”, comenta a obstetriz.

Foi o caso da jornalista Marcella Chartier, tomou analgesia quando já estava com oito centímetros de dilatação. Ela conta que planejava um parto domiciliar, mas foi transferida para o hospital para aliviar a dor depois de várias horas em trabalho de parto. “Tomei a analgesia e consegui relaxar e parir”, conta. Segundo Marcella, foi possível sentir as contrações e se movimentar. “Assim que tomei a analgesia caminhei pelos corredores do hospital”, conta Marcella, que teve seu bebê em maio de 2012 em uma maternidade particular de São Paulo.

Marcella diz que se pudesse dar um conselho para as mulheres que têm medo da dor do parto é que elas aguentam. “Acho que vivemos em uma sociedade que atrela a dor a doença, mas a dor do parto não é assim. É a natureza trabalhando. pra depois não sentirmos mais nada. As mulheres que têm medo da dor eu diria que elas dão conta, como eu dei, até o momento que pedi a analgesia. É um recurso possível”, comenta.

Nada impede, no entanto, que a mulher receba a analgesia com poucos centímetros de dilação, como  Silvana Paiva Barreto, 32, tomou a analgesia quando estava com apenas três centímetros de dilatação – para parir a mulher precisa ter 10 centímetros de dilatação. Ela conta que a bolsa rompeu de manhã e que à noite estava com apenas um centímetro de dilatação.

“Meu trabalho de parto não evoluía e comecei a sentir medo das contrações, além de estar cansada. Não queria tomar analgesia”, diz.

Silvana conta que na hora sentiu muito alívio e que conseguiu relaxar e descansar e só então o trabalho de parto evoluiu. Como a dosagem é ministrada pelo anestesista, ela tomou novamente uma analgesia quando estava com 6 centímetros de dilatação. “Meu bebê nasceu de cócoras, pude sentir as contrações, mas sem dor. Foi tudo muito calmo e tranquilo, inclusive, o expulsivo”, diz.

Silvana, que teve uma cesárea no primeiro filho, desta vez pariu e foi até a cama andando e com o bebê no colo. “A impressão que tenho é que a analgesia me ajudou a encontrar o equilíbrio, a relaxar e o trabalho de parto evoluir”, comenta sobre o parto de Joaquim, que aconteceu em março deste ano.


Sempre recomendo que as mulheres esperem entrar em trabalho de parto e sintam que dor é essa. Se ela for maior do que o esperado, que peçam analgesia”, comenta.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Utilidade geral: Sobre visitas nos pós-parto!

"Então... sua amiga/vizinha/sobrinha/nora/irmã/cunhada/ex-amante/ex-inimiga/filha teve um bebê e você vai visitar?
Ótimo!

Leve algo delicioso para ela comer (e saudável) e faça uma visita RÁPIDA.
Não passe de 25 min tá?

E nesses 25 min de visita, faz favor de perguntar se tem louça p lavar, ou roupa p estender, ou lixo par recolher.

Colabore.

Seja lá qual tenha sido a via de parto dessa moça e quanto tempo durou, foi intenso e tornar-se mãe é mais intenso ainda e amamentar também pode ser.

Ela precisa descansar.
Ela não é vitrine, nem o bebê e não cabe a ela te fazer sala.
E ela te ama mesmo assim, tá bom?

Beijo e a vida é assim.
E pós-parto não é bolinho.

(bolinho de fubá só orgânico, tá?)"

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Kit "Textos em Português sobre Parto Domiciliar"

Ouviu falar de parto domiciliar mas não sabe bem que bicho é esse? Assistiu AnaMaria e achou legal, mas não entendeu direito qual a proposta? Tem dúvidas básicas e não sabe a quem perguntar? Viu vários links por aí sobre o tema e não lembra onde? Quer economizar tempo explicando pros curiosos que negócio é esse? Segue o bê-a-bá:



Texto "Parto Domiciliar: direito reprodutivo e evidências" da obstetra Melania Amorim: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/estudando-parto-domiciliar.html

Texto "Parto domiciliar: refletindo sobre paradigmas" da obstetra Melania Amorim: http://guiadobebe.uol.com.br/parto-domiciliar-refletindo-sobre-paradigmas/

Texto "Guest Post: O mito do parto hospitalar mais seguro para gestações de baixo risco" do Dr. Mercola, traduzido e publicado no blog da obstetra Melania Amorim: http://estudamelania.blogspot.com.br/2012/08/guest-post-o-mito-do-parto-hospitalar.html

Texto "Parto Domiciliar Planejado: algumas coisas que talvez você não saiba" da obstetriz Ana Cristina Duarte: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo9.html

Texto "Parto domiciliar planejado, passo a passo" da obstetriz Ana Cristina Duarte: http://www.maternidadeativa.com.br/artigo10.html

Perguntas frequentes sobre parto domiciliar no blog Paizinho Vírgula - Parte I: http://paizinhovirgula.com/parto-domiciliar-perguntas-frequentes/

Perguntas frequentes sobre parto domiciliar no blog Paizinho Vírgula - Parte II: http://paizinhovirgula.com/parto-domiciliar-perguntas-frequentes-parte-dois/

Texto "Sobre a morte de Caroline Lovell" (ativista australiana que morreu no hospital após um parto domiciliar, único caso famoso de morte materna após parto domiciliar, que frequentemente utilizam para atacar esta opção) da obstetra Carla Andreucci Polido: https://www.facebook.com/notes/carla-andreucci-polido/sobre-a-morte-de-caroline-lovell/4600441988714

Texto: "Por que parteiras?" (sobre por que escolher uma parteira para acompanhar a gestação e o parto) de Maíra Libertad: https://www.facebook.com/notes/ma%C3%ADra-libertad-soligo-takemoto/por-que-parteiras/10200315204818036

Texto "E na hora de escolher uma parteira?" (perguntas para ajudar na escolha da profissional que vai acompanhar seu parto domiciliar) de Maíra Libertad: https://www.facebook.com/notes/ma%C3%ADra-libertad-soligo-takemoto/e-na-hora-de-escolher-uma-parteira/10200512805917940

Texto "Segredos de um pai de parto domiciliar" de Ven Batista, publicado no blog da parteira Lisa Barrett em inglês e traduzido por Maíra Libertad: http://paizinhovirgula.com/segredos-de-um-pai-de-parto-domiciliar/

Artigo da Historiadora Maria Lúcia Mott "Assistência ao parto: do domicílio ao hospital (1830-1960)" sobre a história (recente) da migração dos partos do domicílio para o hospital no Brasil: http://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/viewFile/10588/7878


Por Maíra Libertad - Graduada e mestre em enfermagem pela Unicamp, especialização em enfermagem obstétrica pela UERJ (2006) e posgrado à distancia en Evaluación de Tecnologías Sanitarias do Instituto de Efectividad Clínica y Sanitaria (Buenos Aires, Argentina). Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – UERJ, pesquisadora da empresa ANOVA – Tradução do Conhecimento em Saúde e enfermeira obstétrica atendendo partos domiciliares na cidade do Rio de Janeiro/RJ.

quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

AI, QUE ALÍVIO! O QUE FAZER COM A DOR DO PARTO? | POR MAÍRA LIBERTAD

"Mas eu tenho medo da dor, sabe? Não sei bem como vai ser isso de ter contração… Dizem que dói. Já ouvi falar até que é a pior dor que existe…"



Creio que a maior parte das mulheres, antes de parir, manifesta em algum momento algum nível de preocupação com relação às contrações durante o trabalho de parto. Será que dói? E se doer? Será que eu vou agüentar?

O modo como cada uma quer manejar a dor durante as contrações é um item importante do plano de parto e, para tomar decisões com relação a isso, é importante saber que há mais de uma alternativa.

E que seria interessante pensar em termos de contrações, mais até do que de ‘dor’. Não, não estou negando que ter contrações e passar pelo trabalho de parto envolve algum nível de dor. Ela existe e seria um equívoco muito grande dizer que não. Mas cada uma, depois de passar pela experiência, é que vai poder dimensioná-la.

… exemplos tirados dos relatos Conte seu Parto:

"Eu sabia que quando a bolsa estoura as contrações apertam. E foi o que aconteceu. Elas ficaram bem próximas, mas a Ana Cris me lembrava que faltava muito pouco, pra eu aguentar esse finalzinho porque a dor ia sumir. O expulsivo seria só pressão e outras sensações. E assim foi." (Meire Santos)

"Imaginei que fosse dar um salto enorme na intensidade da dor e eu fosse sofrer muito com a introdução da ocitocina. Mas não. Quando o trabalho de parto engrenou, senti um imenso prazer. A música tocando baixinho, as mãos suaves e o doce cantarolar da Cris: 'Abre-te, Dani, Abre-te Dani, como as pétalas de uma flor…' foram as maiores dádivas até 5 centímetros de dilatação." (Daniela Buono)

"Ela fez o toque e constatou 7cm, mas disse que o líquido havia ficado mais escuro e resolveu me colocar no cardio sei lá o que, para escutar o coração do bebê. Ali eu comecei a me desesperar, vi que ela ia me transferir. O psicológico com certeza influi, pois parecia que as dores tinham quintuplicado ali na hora. Ali, na mesa, deitada, me descontrolei e falava sem parar para a Rose (a enfermeira): 'Rose, Rose, você sabe o que você vai fazer comigo, né? Vai me transferir e me farão uma cesárea! Rose, por favor, eu conheço casos de bebê com mecônio em parto normal, não faz isso comigo!'" (Daniela Oliveira)

"Eu vim para casa, e me senti bem mais calma aqui. Tomei um banho delicioso. Mas ao cair da noite veio a ansiedade… Ué, cadê as dores??? Por que não sinto nada??? Só contrações…regulares, mas sem dor. (…) Ele me examinou e constatou que eu já estava com 5 cm!!! Acreditam? E nada de começar as dores. Ele então disse que iria me internar, pois em breve eu teria o bebê. (…) Eu caminhava pelo banheiro e cada vez que vinha a contração corria para o vaso sanitário… Não sei porque, mas aquilo me dava um baita alívio. E a cada contração eu sentia jorrar um monte de líquido pelas minhas pernas. Eu estava descalça e era um pouco escorregadio, mas tão quente… Eu me sentia tão feliz por poder viver cada uma daquelas sensações sozinha, sem ninguém…" (Daniela Aragão)

Se eu perguntar para você agora "O que você faz quando chega em casa, depois de um dia cansativo, com uma pontinha de dor de cabeça?", você vai me responder o quê? Creio que você não vá me dizer que se internaria num hospital para tomar uma anestesia geral. Então, a proposta é essa. Pensar numa gradação para dor que pode ser acompanhada por uma gradação nas intervenções para alívio da dor. Muito provavelmente, a maioria das pessoas que sentem uma pontinha de dor de cabeça ao final de um dia cansativo de trabalho consegue associar essa dorzinha ao stress, ao trânsito infernal na hora do rush, aos conflitos no trabalho. Há uma causa conhecida e ninguém associa de imediato esse tipo de desconforto com um tumor no cérebro ou coisa que o valha. Sendo assim, as respostas à essa dorzinha podem começar com tirar o sapato e a roupa, tomar um banho quente, ouvir uma música relaxante, comer uma comidinha gostosa, tomar um cálice de vinho, dormir ou namorar com o marido. E podem chegar, claro, até a opção de tomar um analgésico mais potente, caso o incômodo seja mais forte e não permita sequer curtir esses momentos relaxantes (e altamente prazerosos).

Foi só um exemplo. Porque sabemos que a dor que tem origem nas contrações do útero durante o trabalho de parto tem uma outra função e uma outra característica muito diferente das dores que refletem incômodos, agressões ou lesões ao organismo. É uma dor benéfica, digamos assim. Que diz respeito a um trabalho muito bonito e muito bem orquestrado pelo corpo para, a cada contração, estimular a abertura da passagem por onde o bebê vai sair naturalmente. E é uma dor que traz de brinde os intervalos para o descanso e a certeza de que, a cada uma que passa, é menos uma para o momento indescritível de ver seu bebê fazendo caretinhas gostosas no seu colo e pedindo seu peito. Vale a pena, não?

Mas a ideia das escalas é útil aqui também. Conforme vai aumentando a intensidade das contrações, há alternativas diversas de que podemos lançar mão para vencê-las e que podem ser organizadas também numa certa ‘gradação de intensidade’. Eu acredito que pode ser útil enumerar aqui algumas dessas alternativas, lembrando sempre que muitas vezes é só a própria mulher, sentindo a contração, que vai achar a sua alternativa, adequada e eficiente para aquele momento e que pode variar desde uma mudança de posição até rezar com fé para um santo de devoção. Tudo é válido.

Vou fazer aqui um parênteses para explicar de uma forma bem sintética aquilo que conhecemos como ciclo ‘medo-tensão-dor’, só para justificar essa ideia de que quase tudo, por mais esquisito que pareça, pode ser usado como antídoto para a dor da contração. Esse ciclo é um modelo que explica como é que se dá a dor no corpo da gente e funciona mais ou menos assim: ter medo gera tensão, tensão aumenta a intensidade da dor e, principalmente, a percepção que a pessoa sob situação de medo e tensão tem da dor. Mais dor, mais medo. Mais medo, mais tensão. Ou seja, um ciclo vicioso em que uma coisa vai retroalimentando a outra. Esse é um modelo explicativo que tem fundamentação científica e que várias pesquisas já confirmaram.

Sendo assim, eu diria que lá no início da nossa escala de intervenções para alívio da dor vêm aquelas condutas que visam minimizar o medo e diminuir a tensão. Os equivalentes, no trabalho de parto, a ‘tirar o sapato, a roupa e tomar um banho’ lá do nosso exemplo da dor de cabeça no final do dia. Ter informações, confiar no processo, estar acolhida por profissionais e acompanhantes afinados com os seus desejos, ouvir palavras de encorajamento, não precisar passar por situações de stress desnecessárias e por aí vai. Podíamos dizer que esse é um primeiro nível de condutas para aliviar a dor, ou, mais que isso, preveni-la, de certa forma. É a segurança de estar num processo sobre o qual você tem controle na medida em que isso é possível. Isso não faz sumir a dor, mas pelo menos tenta evitar que você entre no tal ciclo medo-tensão-dor e possa administrar melhor as sensações do seu corpo.

Depois, viriam as intervenções não farmacológicas para alívio da dor, que têm uma íntima relação com o relaxamento (a diminuição da tensão de que falei agora há pouco), com a possibilidade de se entregar ao processo fisiológico que está acontecendo no seu corpo e também de ‘distrair’ os teus sentidos, desviando o foco da dor para outras sensações. São os banhos quentes, as massagens, as técnicas de relaxamento e de respiração, a presença de um acompanhante de confiança, o uso da música, o abraço carinhoso do marido ou da mãe ou de quem for, o cafuné etc.

O apoio empático durante o trabalho de parto e essas técnicas não farmacológicas de alívio da dor não são crendices, misticismos, frescuras ou apenas uma coisa qualquer que pode ser tentada, mas não tem embasamento científico. Muito pelo contrário, a maior parte dessas estratégias já foi muito bem testada e encontra explicações na fisiologia do trabalho de parto e parto.

São uma opção real e efetiva para aliviar a dor das contrações. Funcionam mesmo e ler relatos de parto nos mostra isso a toda hora. Todas as mulheres têm lá seu relato pessoal de que uma determinada coisa (ou a combinação de várias), naquele momento, aliviou a dor (seja a chegada do acompanhante que estava atrasado, o banho quente no chuveiro ou na banheira, a massagem nas costas etc.).

Há aqui um outro tipo de intervenções um pouco diferente, que diz respeito à liberdade para mudar de posição e caminhar. Se você estiver livre para assumir a posição que quiser, por mais esquisita ou incomum que ela possa parecer, muito provavelmente alguma hora vai conseguir achar uma mais confortável, em que você vai se sentir melhor. Há uma série de explicações diferentes para isso: pode ser porque daquele jeito você auxilia a mudança de posição do bebê, se ele estiver em uma não muito favorável; pode ser que você deixe de sobrecarregar uma área que já está mais ‘cansada’ (as costas, por exemplo, ou o baixo ventre); ou porque naquela determinada posição você ajuda o trabalho do útero contraindo etc.

Aí, chegamos então ao finalzinho da nossa escala, que seriam as intervenções farmacológicas para alívio da dor, ou seja, a analgesia (comumente chamada de anestesia mesmo). É possível lançar mão de uma anestesia peridural ou raqui durante o trabalho de parto, mesmo que o parto vá ser normal.

A anestesia é uma intervenção e, como tal, não está livre de riscos e, por isso mesmo, tem suas vantagens e desvantagens. O que é preciso saber sobre ela? Em primeiro lugar, é importante saber que uma anestesia aplicada no começo do trabalho de parto aumenta, e muito, a possibilidade de parada na evolução e, por isso mesmo, aumenta as chances de mais intervenções serem necessárias e também aumenta os índices de fórceps e cesárea.

Sendo assim, quanto mais no finalzinho do trabalho de parto ela for usada (se você sentir que ela é de fato necessária), tanto menor a chance de complicações. Isso explica pensarmos em termos de uma gradação nessas intervenções. Quando as contrações estão menos intensas, começamos lançando mão de estratégias mais simples (mas não menos úteis). E assim vamos conseguindo vencer as contrações conforme elas evoluem, sendo que seu bebê pode nascer sem que seja preciso utilizar uma medicação para diminuir a dor, só com ações não invasivas, não farmacológicas, mas muito, muito efetivas. Porque nenhuma intervenção, nenhum medicamento é inócuo, sempre traz consequências e, sempre que possível, se pudermos não usá-los, melhor.

No entanto, se tudo tiver sido tentado e você sentir que atingiu seu limite e que a dor está insuportável para você, a analgesia é possível e, se bem utilizada, pode ser benéfica. A questão é: ela pode ser utilizada se VOCÊ sentir que é necessária, no momento em que VOCÊ pedir e, de preferência, se VOCÊ já tiver passado pelas outras tentativas todas. O ideal é que, conforme a dor aumenta, se vá lançando mão de tudo temos à mão em termos de alternativas aos medicamentos e a analgesia ter seu lugar como último recurso.

Conversar com seu médico sobre isso, conhecer os tipos de analgesias, discutir o momento em que ela pode ser usada, exigir que seja o seu limite e a sua solicitação o termômetro para a aplicação desse recurso, essas são atitudes muito úteis para tentar garantir um uso realmente necessário.

O alívio da dor tem muitas caras e pode ser conseguido de muitas formas. Pensar numa escala pode ser útil para ter em mente que, quanto menos invasivas as estratégias escolhidas, menor a possibilidade de complicações em decorrência do seu uso. E o resultado pode ser surpreendente mesmo da simples presença de alguém ao lado segurando na sua mão! Vale a pena tentar… E deixar o uso de medicamentos (que trazem riscos de complicações para você, seu bebê e seu trabalho de parto) lá no fim da escala, para o caso de você sentir que precisa mesmo.


"Dói sim, mas no final tudo compensa, a dor não chega nem aos pés do que é esse momento mágico, esse momento incrível que é dar a luz, parir, colocar seu filho, seu pedacinho no mundo. A dor não passa 'daquilo' chega um ponto que você acaba se acostumando, é ter Fé, manter a calma e se concentrar! Toda mãe tem milhares de dúvidas, o ideal é tirar todas antes e se acalmar, relaxar e só pensar em tranquilidade… em ver seu filhinho(a) nos seus braços, e acreditem, passa rápido, no meu caso deu tudo errado, mas no final deu tudo certo! Cesariana de emergência e neném nos braços!" (Iris Mussi)

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Consulta Pública 55 e 56 da ANS sobre as Cesáreas indesejadas e desnecessárias

Participe da Consulta Pública 55 e 56 da ANS sobre as Cesáreas indesejadas e desnecessárias.

Até o dia 23 de novembro, a ANS está aberta para receber sugestões da sociedade sobre a divulgação de taxas de cesáreas de médicos e hospitais, sobre o uso de Partograma e sobre o uso do Cartão da Gestante.

Basta entrar no site da ANS e participar da consulta!



A Parto do Princípio elaborou um tutorial para facilitar esse processo e um texto explicativo sobre o que isso tudo significa.

Participe!