quarta-feira, 20 de maio de 2015

Relato do Parto do Artur, 27/4, 2015 – Parto domiciliar planejado, com enfermeira obstetra e obstetriz.

Equipe: Maíra Libertad, enfermeira obstetra; Marina Alvarenga, obstetriz; Vagner, marido e pai; Aninha, filha amada e irmã corujíssima; Karen, amiga, comadre e "alter-ego"; Lena, fada-madrinha; Claudia Reis, fotógrafa e amiga.


A história do parto do Artur começou a quase 14 anos, quando nos descobrimos grávidos, esperando a Aninha. Nossa moreninha hoje tem 13 anos, mas toda a história da gestação e parto dela fazem parte também da história da gestação e parto de seu irmão, Artur.
Na época que gestamos Aninha (Mai/2001-Fev/2002) a única certeza que eu tinha era de que não queria uma cesariana. Sem recursos e sem muita informação, contando em conseguir um parto normal pelo plano de saúde, perambulamos entre consultórios de obstetras até chegarmos a um vaginalista que nos ajudou a fazer a Aninha nascer de parto normal, ainda que no hospital, seguindo todo o protocolo de intervenções tradicionais. Foi traumático tanto pra mim, quanto para meu marido – eu, na verdade, só digeri tudo que nos foi feito anos depois, quando me envolvi mais e mais no movimento de Humanização do Nascimento. De lá para cá foram 13 anos de estudos, de informações, de revolta, de mágoa, de ressignificação do que passamos, de ativismo. Eu e meu marido nos separamos, reatamos, nos separamos de novo, amadurecemos através de perdas e da observação e busca de compreensão da vida, buscamos novo sentido e valores para nós mesmos, para o nosso amor.
Em maio de 2013 nos reaproximamos, voltamos a namorar e, logo depois, decidimos nos casar, dessa vez no cartório e com uma cerimônia delicada e pessoal para compartilhar o momento, nossa decisão e conquista (sim, porque estarmos juntos de novo foi uma conquista!) com nossos queridos. Nossa aliança representa o amor de uma vida, de várias vidas, um renascimento de cada um de nós, inclusive de nossa filha Ana. Uma história que não tem fim.
Não planejávamos engravidar tão cedo, mas sempre quis outro filho, Aninha queria um irmão, e Vagner, sem dúvida, queria um menino!
Nunca fui de marcar menstruação em calendário porque meu corpo sempre me avisou quando o período estava chegando... Levo meus ciclos de maneira bem natural. Um dia de agosto de 2014, quando me dei conta e olhei o calendário, percebi que já deveria ter ficado menstruada havia alguns dias, semanas na verdade, e naquele momento me bateu a certeza: "- Estou grávida!". Passou o filme na minha cabeça do dia da concepção daquele bebê – havia sido tão especial que lembrava o dia, as sensações, o olhar do Vagner. Comprei o teste da farmácia ao sair do trabalho para fazer em casa, somente para tirar a dúvida: positivo! Vagner via TV na sala quando entreguei a ele o exame. Assim como na 1ª vez, ele ficou em silêncio por alguns minutos. Sabe Deus o que se passava em sua cabeça, mas eu tinha certeza que dessa vez não era o medo misturado com felicidade da 1ª vez. Estamos em uma fase da vida de muito maior segurança e tranquilidade que estávamos naquela época em 2001.
Tanto para ele quanto para mim havia, desde então, uma certeza: este bebê não nasceria da mesma forma, não passaríamos pelas mesmas intervenções desnecessárias às quais fomos submetidos em 2002. Este bebê não ficaria 6 horas no berçário, afastado da gente, sem necessidade! Eu até poderia aturar violências contra mim e contra meu corpo, mas jamais aceitaria violência contra nosso bebê recém-chegado ao mundo. Este nasceria já recebendo amor. Para mim, imersa no assunto do parto humanizado todos esses anos, depois de ler tanto, de receber tantos relatos de violência obstétrica, depois de ver o surgimento de equipes excelentes de atendimento ao parto humanizado em nossa cidade, entendendo muito mais do assunto e já tendo parido um bebê de parto normal em hospital antes, não havia dúvida: pariria este novo bebê em casa.
Vagner e eu conversamos muito. Como todo homem, pai de família, que se sente responsável pela segurança dos seus, a maior preocupação dele era SEGURANÇA. Como nosso maior ponto forte sempre foi a amizade e a conversa, fomos conversando, conversando, até que todas as inquietudes ficassem esclarecidas. Não há como não buscar a segurança para todos quando o assunto é parto. Há muita expectativa, há muita responsabilidade e, ainda que saibamos que qualquer evento da natureza tem seus riscos, sua certa carga de imprevisibilidade, nosso papel como humanos e pais é buscar o menor risco possível, ter planos de contingência, saber pelo que passaremos – embora a gestação seja emoção, hormônios, felicidade, novidades, temos nosso lado racional para nos ajudar nesse caminho, caminho este que de toda forma não deve deixar de ser natural.
Desde 2000 e alguma coisa acompanho pela WEB o trabalho, a carreira, as ideias da Maíra Libertad. Seu caminho, suas ações, seu ativismo, seu profissionalismo e até seu nome (Libertad!) sempre me despertaram bom sentimentos. Desde o comecinho outra certeza que eu tinha é que seria ela que nos apoiaria nesta gestação e parto. A única maneira de garantir que nosso novo bebê não sofreria intervenções de protocolo de hospital (check-in de berçário etc.) seria fazer com que ele nascesse em nossa casa – o único lugar em que as regras são nossas, ainda que fossemos guiados por um profissional que nos acompanhasse no parto. Juntando tudo isso, liguei e marquei consulta com a Maíra ainda nas primeiras oito semanas de gestação. Conversamos sobre as condições de atendimento dela, sobre parto domiciliar planejado, sobre o que o serviço dela cobria, como seria o pré-natal, e pedi a ela referências científicas para que Vagner e eu pudéssemos estudar sobre os riscos e benefícios deste tipo de parto. Foi nessa 1ª consulta que conheci a Marina Alvarenga – obstetriz, a 1ª a trabalhar no Rio, assistente da Maíra – que descobri ser um doce de pessoa e possuir também excelente qualificação técnica. Elas duas juntas formam uma dupla que, a meu ver, fica completa. A firmeza e a segurança da Maíra, o carinho e a doçura da Marina. Senti-me acolhida e aceita, ainda que tão no começo desse caminho. Nossa próxima consulta de pré-natal seria em casa, já que a decisão era por parto domiciliar desde então.
Ao longo das semanas seguintes Vagner e eu conversamos muito, lemos relatos de partos acompanhados pela Maíra, o material técnico que ela nos enviou (uma compilação de textos científicos sobre parto domiciliar para gestantes com parto normal anterior), outros relatos de parto em casa. Ainda pensamos sobre o parto humanizado hospitalar, mas dentro de mim já havia aquela certeza: eu ia parir em casa.
As consultas de pré-natal se seguiram, mês a mês, em casa, com Maíra e Marina. Vagner, Aninha e eu estávamos presentes sempre que possível. Longas conversas, muito tempo para tirar dúvidas. Pouquíssimos exames, uma vez que só fiz os que são realmente necessários para um bom acompanhamento de pré-natal. Nenhum exame de toque por toda a gestação! Foi uma gestação tranquila, eu estava saudável quando engravidei (fazendo tratamento com homeopatia e acupuntura) e assim fiquei por nove meses. O tempo voou! Com o passar das consultas Vagner foi ficando mais e mais seguro com relação à nossa escolha, com relação às profissionais que escolhemos para nos apoiar. Planejamos quem estaria com a gente – Karen, a madrinha da Aninha e minha melhor amiga (alter-ego, como digo, alma-irmã e algo mais) desde os tempos da faculdade; Claudia – fotógrafa que trabalha com educação que conheci através de uma oficina de fotografia para crianças que Aninha fez a uns quatro anos, e que veio se envolvendo com o parto humanizado por minha influência através do Facebook; e a Lena, nossa ajudante e segunda-mãe, fada-madrinha. Vagner e Aninha também, claro.
Passei a gestação fazendo um "diário de grávida" no Facebook, fazendo ativismo pró-parto humanizado e conversando com muitos amigos e familiares sobre o tema, sobre nossas escolhas. Foram meses de confirmação, de mais aprendizado, fiz curso de Parto e Pós-Parto no Núcleo Carioca de Doulas, fui à Roda de Parto Domiciliar do Coletivo de Parteiras, segui estudando. Vários amigos vieram acompanhando nossas escolhas, o desenvolvimento do Artur na minha barriga, a montagem do quartinho dele – olhando hoje, para trás, tudo isso foi importante para nós. Informação, apoio, sentirmo-nos parte de um coletivo, apesar de sabermos que as escolhas que fizéssemos seriam de nossa inteira responsabilidade, ajudou-nos a firmar mais e mais nossos planos. Costumo dizer que informação é poder, estudar sobre a fisiologia do que vivemos nos dá calma para passar pelo que for necessário. Nesse ponto eu, como bióloga, e Vagner, como geólogo, pensamos bastante em comum – estudar, informar e conhecer, ainda que saibamos que não há garantias em quase nada nessa vida, dá-nos segurança. Todo esse processo foi uma conquista, foi o que chamamos de empoderamento, de sermos agentes de nossas escolhas, aceitar nossa responsabilidade sobre o que façamos. DECIDIR com base em informações científicas, evidências científicas, além de nosso feeling, claro, e de nossas próprias experiências!
É importante dizer que a certeza do parto domiciliar planejado foi se solidificando com as consultas de pré-natal, com a disponibilidade da Maíra e Marina em ouvir-nos, e muito, ouvir pacientemente todas as nossas perguntas, algumas delas feitas mais de uma vez, e em responder-nos. As pessoas se perguntam sobre os riscos dessa escolha - "E se acontece uma intercorrência, o que farão?". As profissionais que escolhemos têm formação técnica para o 1º atendimento de emergência que fosse necessário tanto comigo, quanto com o bebê, para estabilizar-nos e levar-nos ao hospital mais próximo. Há uma lista de pré-requisitos para que se possa fazer o parto em casa e, junto com Maíra e Marina, conversamos sobre todos os pontos. "E se alguma fatalidade acontece?" - há intercorrências associadas ao parto que são imprevisíveis, algumas delas fatais, e contra as quais não há o que fazer, nem em hospital. "E vocês não tiveram medo desse risco?" - sim, tivemos, mas as evidências científicas mostravam, no nosso caso, que os riscos eram mínimos, e os aceitamos. Os riscos do nosso parto em caso eram menores do que parir no hospital!
No caso do atendimento ao parto domiciliar com Maíra e Marina recebemos um termo de conhecimento de riscos e consentimento e nós o discutimos, ponto a ponto, e o assinamos em conjunto. Tínhamos um plano B também, com apoio de obstetra e sua equipe e um hospital a menos de 30 minutos daqui de casa, para o caso de algum problema mudar os planos antes do parto, ou no trabalho de parto. (Aliás, uma das coisas que ponderamos nessa gestação foi a existência desse termo: não deveria qualquer profissional de assistência ao parto discutir um documento desse com a gestante e sua família? Quando parimos com um obstetra em hospital, parece que a "garantia é  o médico", pouco se fala de riscos, e termo semelhante creio que jamais há!)
A barriga foi crescendo, as consultas tornando-se mais frequentes, semanais. As contrações de exercício começaram algumas semanas antes de eu entrar em trabalho de parto. Lembro-me com nitidez do dia que o Artur se encaixou, a pressão da expansão dos ossos do meu corpo... Eu estava bastante consciente do progresso do Artur em seu caminho, das respostas de meu corpo. Dores? Algumas, suportáveis. Ansiedade? Não muita, de minha parte ao menos. Desejo de vê-lo e cansaço com o peso da barriga, com a azia que queimava meu estômago, dificuldade de dormir? Sim, essas eram bem presentes. Mas estava tudo preparado e era só nosso reizinho desejar vir. Espera, doce espera. Trabalhei no escritório até 22/4. Trabalhei de casa até a manhã do dia em que pari (27/4). Estava me sentindo muito bem, plena e produtiva! Trabalhar, cuidar da casa, da família, dos preparativos para o parto me ajudou a curtir cada momento com a cabeça e coração leves.
Dia 25/4 pedi à Karen para fazermos umas fotos da barriga, com Aninha, Vagner, em casa mesmo – Vagner havia manifestado a vontade de fazer um ensaio fotográfico dessa vez (na gravidez da Aninha não o fizemos por falta de recursos!), mas eu não sentia muito ânimo mais para isso. Como a Karen é da família e fotografa muito bem fizemos fotos lindas na tardinha do sábado que antecedeu o parto.
Dia 26/4, domingo, acordamos cedo como sempre. Vagner e eu temos o hábito de ir ao Aterro, caminhando, nos domingos de manhã. Àquela altura eu já não conseguia força e ânimo de andar de Botafogo até lá, mas ele se ofereceu para irmos de carro até onde era possível, tomarmos água de coco, aproveitar o momento a dois, além de todo carinho que estávamos curtindo já em casa. Aninha, como pré-adolescente, optou por ficar em casa dormindo. Fomos os dois e foi ótimo! Acabamos caminhando no Leme, olhando o mar, num dia de céu cinza. Conversamos e namoramos toda a manhã e perto do almoço voltamos pra casa. A tarde e a notinha foram sossegadas, em casa mesmo. Um clima e energia muito bons!
Ainda no domingo, 26/4, por volta das 22hs, senti um jato de água entre as pernas, molhando minha roupa. Não era uma cachoeira como aparece na TV quando rompe a bolsa das águas, mas não era lubrificação normal tampouco – era água, água numa quantidade de molhar a roupa. Fui ao banheiro fazer xixi e senti sair algo de mim com mais consistência e um "ploc" na água do vaso sanitário... Era o tampão mucoso saindo. As contrações de exercício ficando mais fortes. Fiquei feliz e ao mesmo tempo duvidando que fosse aquilo mesmo... Pode levar dias entre a saída do tampão mucoso e o trabalho de parto efetivamente. Troquei de roupa e fomos dormir.
Às 2:30hs da madrugada de domingo pra segunda, 27/4, acordei com contrações fortes, do tipo de cólica menstrual – as contrações de exercício não doem, o útero apenas fica duro, essas não, essas doíam uma cólica forte! Achei que deveria falar com a Maíra, mandei uma mensagem para ela que, àquela altura da minha gestação, já estava sempre de olho no celular – além de mim Maíra tinha outra gestante com data provável de parto para 1/5 e que estava a termo! Maíra me orientou a contar as contrações... E ficar de olho em qualquer mudança, avisando-a em qualquer caso. Fiquei deitada no sofá da sala até 5:30hs. As contrações duravam 30 segundo e vinham de 4 em 4 minutos. Poderia demorar ainda muitas horas para isso tudo virar trabalho de parto ativo, de verdade. Avisei à Maíra e ficamos nos falando sobre os progressos.
Às 6:30hs acordei Vagner e Aninha, ele para ir trabalhar e ela para ir à escola. Avisei ao Vagner as novidades sobre o possível começo do trabalho de parto, mas eu mesma acreditava que ainda demoraria muito. Pedi que ele levasse Aninha à escola já que eu não tinha condições. Fiz café para ambos e foram. Avisei Karen e Claudia sobre as novidades e que poderia ser que o Artur nascesse na noite daquela segunda-feira. Disse a elas e ao Vagner que fossem trabalhar, que daria tempo e que mais tarde é que as coisas deviam andar.
Vagner levou Aninha no colégio e voltou para casa - decidiu não trabalhar e esperar - foi a sorte!!! Aninha queria estar em casa no parto, mas tinha prova aquela manhã e achei que daria tempo de ela fazer a prova e voltar para casa antes do parto.
Karen decidiu vir para nossa casa depois do almoço, Claudia começou a desmarcar seus compromissos e eu dizendo a elas que podiam ter calma! Fiquei trabalhando de casa a partir das 8:20hs. Respondi e-mails de clientes, falei com meu gerente, e as contrações ficando mais e mais fortes. Falava com Maíra pelo Whatsapp também. Lena, nossa ajudante chegou cedo e pedi que cuidasse logo da sala, do nosso quarto e banheiro porque o Artur deveria nascer naquele dia e logo mais haveria mais gente pela casa. Pedi a ela que fizesse o almoço também... Havíamos feito compras de frutas e legumes no final de semana e compras de mercado (estoque para parto e pós-parto!) no final de semana e eu estava ainda preocupada com a entrega que seria na segunda!
Havia combinado com a Maíra de ela dar um pulo aqui em casa para ver como eu estava – ela havia me perguntado se eu achava que estava progredindo rápido. Eu ria e dizia "Não sei".
Por volta das 11:00hs eu já não conseguia conversar nas contrações... Larguei meu laptop de qualquer jeito e desisti, enfim, de trabalhar! Maíra me orientou a contar de novo as contrações, duração e intervalo entre uma e outra. Ela me disse que seria melhor o Vagner contar e eu ainda achando que eu mesma poderia fazê-lo - ledo engano... Perdia as contas! Pedi a ele que contasse e dentro de 10 minutos a coisa já estava tensa! Eram contrações de 60 segundos a cada 3 minutos. Eu já estava saindo de órbita. Mandei uma mensagem para Maíra dizendo que não dava mais para conversar, ela já estava vindo para cá ("Graças a Deus", pensei!). Marina já estava arrumando o "kit parteira" delas (é uma mala enorme!) e vindo pra cá também. Lembro-me que Karen e Claudia ainda me perguntavam se estava na hora delas virem ou não, eu já não respondia. Pedi pro Vagner avisá-las que deviam vir sim.
Eu não sabia se deitava, se andava... Andar era melhor para as dores, mas a minha vontade era deitar e descansar. Se o intervalo entre as contrações fosse longo eu estaria deitada nos intervalos e andando durante as contrações. Mas eram ondas, rápidas, e a única coisa que eu tinha tempo de fazer era respirar. Fui deitar na cama, mas não me senti confortável, depois levantei e fiquei apoiada na pia do banheiro – pendurar meu quadril durante as contrações melhorava tudo. Lembro que Maíra chegou e eu estava assim, "pendurada" na pia do banheiro, ainda vestida. Dali pra frente as coisas tomaram mais e mais força; acho que o Artur estava esperando Maíra chegar para que pudéssemos trabalhar todos juntos. Já não sabia mais do intervalo e da duração das contrações, eram fortes, eram muitas, com um intervalinho pra eu respirar. Fui para o chuveiro quente e foi a 1ª salvação! Água realmente faz muita, muita diferença. Nosso box é pequeno e eu demorei a achar posição. A vontade era deitar no chão, mas não me cabia. Sentei num banco de madeira, doía o períneo - imagina algo lutando para abrir tudo lá em baixo e você sentada numa superfície dura de madeira? Não dava. Pedi para me darem minha bola de Pilates e consegui ficar debaixo do chuveiro sentada nela... Água na região lombar, água no rosto, água na barriga, água, água... Muita água. Eu só queria água. Nunca desejei parto na água, nunca pensei em usar chuveiro como analgésico, mas nunca amei tanto a água quanto nesse parto. Ela é mágica, de fato!
Enquanto eu gemia e me molhava no banheiro, Marina chegou com a piscina de borracha – eu só queria a piscina naquele estágio. Ainda me perguntava se alguma mão em mim, uma massagem ou qualquer coisa me fariam bem, se eu devia ter tido uma doula ou não. Às vezes achava que uma mão em mim seria bom, outras vezes achava que ia ter um ataque se me encostassem. No segundo seguinte tinha a certeza de que estar só com as contrações naquele momento era tudo que eu precisava. Estava tão consciente das ondas, do movimento do Artur descendo pelo meu ventre – qualquer coisa mais me atrapalharia a concentração. Pergunto-me agora como as meninas souberam que eu precisava estar só.
Notei a agitação do Vagner, Marina, Maíra e Lena arrumando a sala, enchendo a piscina, trazendo água quente, bem quente de algum lugar. Mas ao mesmo tempo eu não prestava mais atenção em nada, além de mim mesma e das contrações. Ondas, ondas, água, água. Todos os movimentos circulares, a natureza arredondada, Terra, ventre, ondas... Era o que estava na minha cabeça. Lembro-me de ter sentado no vaso sanitário do banheiro enquanto eles enchiam a piscina. Antes que estivesse pela metade eu já havia me metido dentro dela.
Os braços cansados, tremiam por dentro. Eu queira ficar submersa, queria entrar em mim mesma. Centrar-me. Respirava entre as contrações, relaxava e tentava deitar na água, mas o intervalo entre uma contração e outra era tão curto que não dava tempo de relaxar muito. Aí que me dei conta de que o trabalho de parto já tinha avançado muito, muito... Não seria à noite que Artur nasceria!
Vagner teve um papel crucial no trabalho de parto! Além de cuidar de tudo que eu precisava com as meninas, ele estava sempre me apoiando, abraçando-me quando vinha uma contração, jogava água com a mangueira nas minhas costas. E nos intervalos ia resolver alguma coisa! Como ele podia ser tão rápido? Ele me trouxe água de beber algumas vezes também.
Lembro-me de ouvir a campainha duas vezes, a 1ª vez era a Karen, a 2ª vez era a Claudia. Estavam todos lá. Não sei ao certo onde ficaram, o que fizeram, não me lembro de ter visto mais nada além de mim mesma, era como se eu olhasse para dentro. As sensações físicas das contrações eram meus olhos, ouvido, tato. Eu achava que gritava muito alto, que estava fazendo muito barulho e me preocupava, ainda, com isso - depois me disseram que eu gemia apenas e, às vezes, baixinho. Estava tão centrada em mim que meus sons, para mim, eram altos!
Lembrei da Aninha, que ainda estava na escola, queria que a buscassem às 14:20hs, hora do final da prova. Ao mesmo tempo tinha medo que ela me visse com dor e gritando e se assustasse.
Maíra e Marina se revezavam usando o sonar na minha barriga, entre as contrações, para ouvir o coração do bebê. Elas me diziam que ele estava feliz e bem. Eu ouvia o coração dele forte, batendo em ondas também. Sentia meu corpo abrindo, abrindo, nessas ondas. Sentia vontade vomitar, de fazer coco, e certo momento lembro-me de estar preocupada com isso - de fazer coco dentro d'água, e a Maíra, muito naturalmente, disse que eu não me preocupasse que ela cataria com a luva se acontecesse. Como a gente ainda tira razão de algum lugar pra pensar nisso?
Quando se tem consciência da fisiologia do parto, quando se tem consciência de seu corpo, quando se está integrada com seu bebê, vira tudo uma coisa só. Unidade. Sentia as mãos fortes do Vagner de tempos em tempos, sua respiração no meu ouvido.
Nos intervalos, em alguns momentos, a razão me vinha novamente e eu me perguntava se ainda seria capaz, se aguentaria. Lembro-me de ver Maíra e Marina sentadas ao longe, olhando. Quando me faltava força e fé, três pessoas marcaram. Lembro-me de três momentos, entre as contrações. Num deles eu perguntei à Maíra com quantos centímetros de dilatação eu devia estar, se faltava muito - a resposta dela: "Não sei, esquece isso, isso não é relevante!", com um sorriso. E veio outra contração. A cada contração sentia meu corpo se abrindo, relembrava das etapas do trabalho de parto, do caminho do bebê descendo pelo útero, abrindo espaço entre meus ossos, descendo, descendo.
Em outro momento, entre outras duas contrações, senti vontade de chorar, minha pelve parecia que ia rasgar, abrir... Tive medo de não dar conta. Não sabia mais quanto duraria aquilo tudo, se eu aguentaria. Olhei para fora da piscina e meus olhos encontraram os da Marina, ela sorria. "- Eu consigo, não é?", eu disse, e ela, ainda sorrindo, acenou que sim com a cabeça. Mais vontade de chorar. Outra contração. Eu me debruçava na borda da piscina, macia, quente, acolhedora. E sentia os braços do Vagner me envolvendo... Eu devia estar na "hora da covardia", quando já está tão perto do final que a gente pensa em desistir. Nesse momento o Vagner me abraçou e disse baixinho ao meu ouvido: "- Vamos lá! Você não me convenceu disso tudo? Não estamos juntos nessa? Agora falta pouco! Vamos pra dentro!"... Os olhos se enchem de lágrima neste momento, ao escrever, ao lembrar da presença de espírito dele, do quão bem ele me conhece e soube que o que eu precisava não era alento, ou mão na cabeça, era força, muita força. Força da terra, da água, das vísceras, do nosso amor que se refez tantas vezes, tão forte. Passei a mão na minha vulva e senti o cabelinho do bebê – sim, ele estava ali! Esperando-me, esperando que eu recuperasse minhas forças. Ele estava fazendo a parte dele, estava em seu caminho e era minha vez de fazer também minha parte. Lembrei mais uma vez da fisiologia do parto, que por tantos anos li... Estávamos avançados no expulsivo, se a cabeça dele estava ali eu já tinha os benditos 10cm de dilatação do colo útero. Agora era meu períneo e meu medo da episiotomia que sofri anos atrás, uma força, uma contração podia resolver tudo.
Concentrei-me no Artur, no meu útero, na contração que estava vindo, senti-me leoa, as palavras do Vagner ecoando na minha mente. Eu não via nada à minha volta, somente a onda da contração, vindo, maior que eu, mas não, não a deixaria me cobrir. Dessa vez íamos trabalhar juntos, Artur, meu útero, meu períneo, minha mente... Ao invés de gemer, gritei e pari a cabeça de nosso filhote querido, tão esperado. A sensação? Senti o tal círculo de fogo, em segundos, mas a maior sensação era de um orgasmo gigante. Conseguimos! Eu ria. Agora era o corpinho macio dele, escorregadio, que deveria sair na próxima contração. Institivamente eu, que até então estava quase de joelhos na água, virei meu corpo e deitei afundando-me nela, apoiando a cabeça na borda da piscina. Ali esperando-nos estavam as mãos protetoras da Maíra. As mãos ansiosas do Vagner. Os olhos sorridentes da Marina. E eu rindo, rindo... Rindo! E dizendo que dava pra sentir ele se mexendo dentro de mim! Passando a mão no cabelinho dele. Chorava ao mesmo tempo em que ria!
Naquele momento eu consegui ver as pessoas à minha volta, enfim, o olhar aliviado de todos, sorrindo e ansiosos para conhecer o Artur. Na minha mente eu dizia "Já foi, eu consegui! Agora é só parir o corpinho macio dele!". À minha frente Maíra de luvas afastava qualquer ideia de alguém por a mão no bebê, de puxá-lo, de por a mão no meu períneo ou qualquer coisa. Vagner, ao meu lado pela borda da piscina, encorajava-me sorrindo um sorriso tranquilo e calmo. Mais uma contração e pronto. Artur havia nascido, por mim. Estava apaixonada por ele já dali, ou muito antes daquele momento. Eu pensava "Conseguimos, meu amor, meu príncipe! Obrigada por me acompanhar nessa jornada e por fazer dar tudo tão certo. Nós sabemos parir e nascer! Conseguimos!". Maíra recebeu o Artur junto comigo, tive tempo de ver e comentar "Ele nasceu com uma circular de cordão!" – era mais um detalhe pra coroar nosso conhecimento de que os bebês sabem nascer, que os partos dão certo, que cordão jamais é assassino. Maíra desfez a volta no pescoço dele e o colocou no meu colo.
Vagner veio ficar junto de nós, e a primeira reação do Artur foi segurar na mão do pai com seus dedinhos longos.
Assim como no parto da Aninha a visão mais forte deste momento foi o olhar do Artur para mim. Ele, recém-parido, no meu colo. Ele era lindo, ele nasceu grande, nasceu bem, esperto. Os olhos cor de mel, seu cabelinho preto. As mãozinhas... O cordão umbilical, lembro-me de ter ficado algum tempo olhando o cordão – ele é mágico, ele é lindo, é macio. Pulsava ainda quente.
Eu queria tirar o sutiã, mas o Artur já estava aconchegado no meu colo, as fraldinhas aquecidas em cima dele; não, eu não ia me afastar dele para tirar sutiã, e foi aí que Vagner deu uma ideia brilhante (amor, muito obrigada, sempre, por sua presença!) "Vamos cortar!!! O que é um sutiã?"... E eu feliz, sentindo-me mais livre ainda, nua, com nosso rebento nos braços e na água morninha. Todos aqueles sorrisos à nossa volta! Nosso bebê saudável, perfeito.
Ficamos Vagner, eu e Artur juntinhos alguns muitos minutos ali, namorávamos nosso menino, que nos olhava profundamente.
Em algum momento Maíra sugeriu que fôssemos para a cama, aguardar o parto da placenta. Marina já havia arrumado tudo no quarto, nossa cama estava quentinha, macia, limpa e deliciosa à luz da tarde de outono do Rio. Elas e Vagner me ajudaram a levantar da água, caminhar para o quarto e deitar. Naquele momento eu já sentia fome, sede!
O Artur agarrado em mim todo esse tempo, já estava bem esperto e quis mamar ainda na primeira hora. Foi uma grande emoção vê-lo tão pequenino já sugando meu seio. Não tem preço a liberdade de estar com nosso bebê recém-parido o tempo todo desde que ele saiu de dentro de mim, de saber que ele não foi invadido, medido, mexido, e que ele pôde estar livre para, no tempo dele, mamar ou não, conforme quisesse.
Lembro-me de que em algum momento entre as contrações pedi que buscassem Aninha na escola. Eu não tinha noção da hora, mas achava que a prova dela já tinha terminado. E achava que o trabalho de parto ainda demoraria e daria tempo de ela chegar e ver o irmão nascer. Ao mesmo tempo tive medo de como seria a reação dela e quais seriam as memórias que ficariam ao ver-me gritando (eu achava que estava gritando, lembram?) e sentindo dor. Acabou que Aninha chegou quando já estávamos na cama, esperando o parto da placenta. Foi triste ver a decepção dela ao saber que o irmão já tinha nascido, mas ao mesmo tempo foi lindo ver seus olhos pra ele – paixão também à primeira vista, como ela disse. Um entendimento e carinho naturais. Foi Aninha que cortou o cordão depois que pari a placenta, foi ela que ajudou Marina a vestir a primeira roupinha dele e que o levou lindo, no colo, para ver nossas amigas que estavam na sala. Nossa filha querida foi perfeita e tem sido mais que filha, irmã, companheira, nossa maior e mais amada cuidadora também.
Enquanto esperávamos o parto da placenta, com Artur já mamando, lembro-me de ouvir o Vagner comentar que ia avisar à nossa família que o Artur havia nascido, e a Maíra comentar que era melhor esperar a placenta! Sim, sim, claro! Um dos meus medos era a placenta apegada e, como ela sempre diz, o parto ainda não acabou enquanto não há a dequitação da placenta!!! Pedi a ela que fosse correndo na sala conversar com Vagner e explicar a ele o assunto. A família podia esperar uns minutos mais!
Não sei bem quanto tempo depois disso a Maíra me falou que a placenta já devia ter soltado, mas que estava ainda dentro de mim esperando uma contração. Eu já estava tão relaxada e feliz que nem sentia mais que ainda tinha contrações! Ela me examinou e viu que era exatamente isso, a placenta estava ali na portinha, esperando uma contração. Fizemos uma forcinha juntas, eu, Maíra e a placenta e pronto! Ali estava ela, linda em seu vermelho sangue, com todos os seus vasos e membranas, a placenta tão mágica e misteriosa, poderosa, que havia nutrido nosso Artur, permitido a ele crescer, receber alimento e oxigênio. Aninha queria ver a placenta, desde a gestação conversávamos sobre o que era, como era e pedi à Maíra que explicasse à ela tudo sobre a anatomia e posicionamento da placenta. Adorei vê-las analisando a placenta do Artur e conversando sobre suas funções!
Como disse, Aninha cortou o cordão e depois de não sei quanto tempo o Artur foi para alguns poucos metros longe de mim, para ser pesado pela Mariana e vestido pela Aninha.
Maíra e Marina examinaram meu períneo e não tive laceração grave, nada que precisasse de ponto. Maíra me mostrou com um espelhinho e vi que era apenas uma laceração de mucosa - conversamos e optamos por não dar pontos e seguir com a cicatrização natural. Em no máximo sete dias tudo estaria cicatrizado, somente cuidando com água, sem anti-inflamatórios ou outros remédios.
Enquanto Aninha desfilava orgulhosa com o irmão nos braços pelo apartamento, Karen, Claudia, Lena e Vagner viam o nosso pequeno príncipe, Marina me ajudou a levantar e fui para o banheiro tomar um banho delicioso e quente! Eu estava ali de pé, sozinha, na nossa casa, no nosso banheiro. Vesti minha camisola linda, presente especial do Vagner ainda na gestação para o pós-parto, penteei meu cabelo e fui pra sala me sentar com minha família querida e nossas amigas!
A esta altura a casa já estava recomposta, a sala já tinha cara de sala e a piscina já havia sido esvaziada. Vagner estava na cozinha fritando hambúrguer para todas, Lena já havia arrumado tudo, Karen e Aninha estavam conversando, eu babando o Artur, Claudia tirando fotos e as gatas caminhando pela casa tentando entender o que havia acontecido!
Brindamos o parto, a chegada do Artur e nossa equipe de sucesso com um bom Pro Seco, comemos hambúrguer feito em casa, falamos do parto, de como o Artur é lindo, de como parece com a Aninha e outras trivialidades... A vida seguindo seu curso, normal como deve ser, após o evento de energia e bênçãos enormes, de alegria e emoção extremas, que todos havíamos compartilhado havia algumas horas!
Vagner fez também um bolo de coco delicioso e comi algumas boas fatias dele, ainda quente, com água de coco! Era o primeiro bolo do Artur!
Claudia foi embora perto das 18hs, pois tinha ainda outro compromisso e, como foi tudo tão rápido, daria tempo para cumpri-lo. Marina e Maíra foram embora por voltas das 18:30hs, depois de nos passarem as orientações sobre cuidados com o coto, com o Artur, comigo etc. e de combinarmos a visita de pós-parto para dali a 24 horas. Lena e Karen ainda ficaram um pouco mais, ajeitando algumas coisas e conversando.
Durante aquela noite a casa estava serena... Nós três apaixonados pelo Artur, olhando, olhando, cheirando... À noite Vagner e Aninha dormiram o sono dos justos, e eu, como boa recém-parida e inundada de ocitocina, passei a madrugada vidrada, olhando aquela maravilha da vida ao meu lado! Todos empoleirados no nosso quarto. Ninguém conseguiu se afastar do Artur por alguns vários dias!
Esse parto foi perfeito, como tinha de ser, uma benção, uma alegria. Digo que foi "tsunâmico", tanto pela rapidez, quanto pela sensação das contrações em ondas gigantes diante de mim! Eu esperava que demorasse muito mais... Achei que pariria na madrugada de segunda para terça, havia idealizado coisas a fazer no trabalho de parto, roupas a vestir, fotos que eu gostaria de tirar. O que eu comeria durante o dia, o que serviríamos para as meninas... Não deu tempo de nada disso, mas foi perfeito, do jeitinho que tinha de ser!
Se eu me arrependo? De nada! Se a dor é tudo isso que falam? Dói, dói muito, mas a dor não é um décimo do terror que fazem. É uma dor com propósito, é uma dor com início, meio e fim. É uma dor que não é dor, é processo, é o corpo se abrindo para uma nova vida, para que a gente se transforme junto do parto e saiba como ter forças para ser mãe. Alguns minutos depois de parir o Artur eu, rindo, dizia, que já podia pensar no terceiro filho e que parir é bom demais!!!
Obrigada, do mais profundo cantinho do meu coração, à vocês, Maíra e Marina, pelo apoio, pelo cuidado pela força, por nos ajudarem a realizar esse sonho! Obrigada Lena, Karen e Claudia, pela companhia, pela ajuda, pelas boas energias, pelo carinho. Meu amor, meu amigo, meu companheiro, meu homem na Terra, Vagner, obrigada por ser completo e por me fazer completa, obrigada por seu olhar, por nosso lar, por nossos filhos, obrigada pela sua mão, pelo seu peito, pelo seu coração, por nós. Aninha, minha filha linda, perdão por não dar conta, muitas vezes, de tudo que você deseja; obrigada pelo seu amor, obrigada pela sua torcida, obrigada pela sua fé inabalável em nós. Meu amor e admiração por você, filha, não têm tamanho! Seja bem-vindo, menino de olhos serenos, menino de paz, espírito de calma que veio completar nossa família! Seja bem-vindo, Artur!!!

terça-feira, 21 de abril de 2015

Por: Dra. Melania Amorim, Obstetra.

Para quem não sabe, 50% das gestantes NORMAIS não dilatam 1cm/hora até chegar aos 6cm.

Não há motivo para intervir com ocitocina, amniotomia ou outras medidas baseando-se tão somente em limites rígidos de tempo se parturiente e bebê estão bem.

Esta mensagem não é de uma comunista do parto. Para maiores informações, consultar:


Altamente perigoso com recomendações do irresponsável, comunista, índio e revolucionário ACOG.
Porque, sabem como é, nem tudo continua como a gente aprendeu na Faculdade, o que já advertia Sidney Burwell.

Evolução é isso aí. Não se trata de retornar ao primitivo e arriscar vidas mas, ao contrário, acompanhar as mudanças na Obstetrícia moderna.


Estuda, gente, estuda!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Sobre o Estado da Obstetrícia no Brasil e porque lutamos tanto

Por Ana Cristina Duarte, Bióloga, Obstetriz.

Porque estamos há anos luz de uma boa obstetrícia no Brasil. Um texto recente que li escrito por um obstetra brasileiro fala sobre:

"A arte obstétrica de assistência ao parto não deveria e não poderia ser exercida por qualquer pessoa face a grandiosidade deste ato médico."

"O parteiro tem a responsabilidade, a obrigação de entregar a família uma mãe e seu concepto absolutamente hígidos."

"Em nenhuma hipótese o feto deverá ficar privado de uma boa oxigenação."

"Pequenos sangramento que acontecem durante o parto lesarão as células cerebrais e isto no futuro da criança poderá traduzir-se por retardo de aprendizado até retardo mental profundo como até paralisia cerebral."

Vejam que a ignorância parte da base e eu quero crer que uma parte razoável dos nossos obstetras não pensem assim, mas de toda forma:

1) A assistência ao parto de risco habitual ou baixo risco não é de exclusividade dos médicos, fato reconhecido por nossa legislação, pela OMS, pelas evidências científicas e pela prática nos países de primeiro mundo. Então parem de dizer que só médico obstetra pode assistir um parto normal.

2) Não existe garantia de resultado em obstetrícia, e é assim que o CRM responde a muitos dos questionamentos: não há como garantir a vida de mãe e de bebê. A garantia que se pode dar é de boa assistência, mas o resultado depende de outros fatores. Mesmo em países com as menores taxas de mortalidade neonatal (coisa que estamos longe), bebês morrem. E algumas poucas mulheres também. Garantia de higidez não existe.

3) Não há como garantir oxigenação de bebês, nem dentro do útero, nem fora. Há como garantir a melhor assistência possível que diminua tanto quanto seja possível o risco de anóxia.

4) Pequenos sangramentos, até determinado nível, são esperados e fisiológicos em partos normais e em cesarianas. E eles não causam maiores danos. É previsto pela natureza. Já as isquemias de médio e grande porte, essas podem causar sequelas. Já a paralisia cerebral, em 95% dos casos aproximadamente não têm qualquer relação com o momento do nascimento mas sim com os eventos da gestação e os do puerpério.

Não me admira que esses caras estejam processados, pois eles prometem algo que não tem como ser conseguido, em nenhum lugar do mundo. E quando eles têm um resultado ruim, as mulheres querem saber onde ficou a garantia de higidez, oxigenação, etc..


Sejam honestos com as mulheres, por favor.

Sobre cesariana eletiva, sem necessidade, com 37 ou 38 semanas de gestação

Por Melania Amorim:

Serviço de utilidade pública: recém-nascidos (RN) entre 37 e 38 semanas são considerados como "termo precoce" e têm uma morbidade significativamente maior, em relação aos RN entre 39 e 40 semanas. A CESARIANA ELETIVA desnecessária (=sem indicação médica) aumenta os riscos de desconforto respiratório, admissão em UTI e outros desfechos neonatais adversos, e esses riscos são tanto maiores quanto menor a idade gestacional. MARCAR CESARIANA ELETIVA SEM INDICAÇÃO antes de 39 semanas É UM CRIME, UM ATENTADO CONTRA OS NEONATOS. Proteja o seu bebê!

terça-feira, 7 de abril de 2015

"Está quase explodindo!", "Você tem o peito tão pequeno, será que vai ter leite suficiente?"

Tô cansada de ouvir que minha "barriga está enorme"... Que estou "quase explodindo"... Ou que meu "peito é pequeno", e que será que vou "ter leite suficiente"...
Não, eu não estou acima do peso, e mesmo que estivesse isso seria problema meu.
Não, a minha barriga não está enorme, está do tamanho que devia estar. É minha segunda gestação e, felizmente, o bebê tem espaço mais que suficiente pra estar aqui e crescer bem.
Não, ele não está enorme e gordo e não, não vou me arrebentar toda para pari-lo porque o parto será suave como deve ser.
E não, minha barriga não está quase explodindo, nem eu vou explodir. Meu corpo aguenta o que está passando e muito bem. Eu tenho boa constituição física, faço Pilates a anos e meus músculos do abdômen e períneo seguram o que têm de segurar, minha pele está bem hidratada e eu me alimento bem... - e mesmo que não fosse nada disso, o problema seria meu também e depois eu lidaria com o que tivesse que lidar.
Estou me sentindo linda e muito bem, segura e feliz, com toda forma redonda, com as veias das pernas altas e roxas, com taquicardia às vezes, usando as roupas que cabem e que posso usar nessa fase e que nem sempre ficam as mais elegantes. Gestar é mágico e pleno, ainda que nem todos consigam entender seu significado!
Sobre o peito pequeno, que não cresceu... Seio grande = gordura no seio! Gordura no seio não é sinal de amamentação com qualidade. O leite é produzido pelas glândulas mamárias e para tê-las funcionais não é preciso ter seios fartos e grandes. Para quem os tem, beleza! Para quem não os tem, beleza tb. A chance de amamentar bem e produzir o leite adequado pro seu/meu bebe (cada um pro seu!) é toda se a saúde estiver bem, e se houver apoio, informação e calma!

Parem, simplesmente parem de tratar corpos femininos com julgamentos e valores, com críticas ou comentários que parecem inocentes, mas incutem defeitos na cabeça da gente!

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Ruptura uterina em mulheres planejando parto vaginal após cesariana prévia (VBAC)

Por: Maíra Libertad - Enfermeira Obstetra.

"O estudo não é novo, tem limitações metodológicas importantes, mas alguns dados são interessantes. Os pesquisadores coletaram dados de todos os casos reportados de ruptura no Reino Unido em 2009-2010 (159 casos analisados, com dados completos).

A taxa de ruptura uterina em mulheres planejando um parto vaginal tendo uma cesárea prévia (VBAC) foi de 21 casos a cada 10.000 nascimentos. Se forem consideradas apenas aquelas que não tiveram indução ou condução do trabalho de parto, esse número cai para 13 em 10.000.

A média de idade gestacional dos casos de ruptura uterina foi de 39 semanas (variando de 8 a 42 semanas). Sete casos ocorreram antes das 24 semanas, sendo 5 deles durante procedimentos de interrupção terapêutica da gestação. Em 21 casos, a mulher tinha cesárea prévia e teve ruptura sem entrar em trabalho de parto ou tentar indução - 14% destas mulheres tinham placenta prévia (condição que aumentou em 28 vezes a chance de ter ruptura uterina). Em 20 casos de ruptura uterina, a mulher não tinha cesárea prévia (3 romperam sem trabalho de parto e 17 em trabalho de parto). Das 139 mulheres com cesárea prévia que tiveram ruptura, 13 tinham 2 ou mais cesáreas - o que aumentou a chance de ruptura em 3 vezes.

Alterações nos batimentos cardíacos fetais foi o sinal mais frequente identificado quando da ruptura uterina (em 76% dos casos), seguido de dor abdominal (49%) e sangramento vaginal (29%).

Das 159 rupturas uterinas, 2 mulheres morreram (1,3%), 15 fizeram histerectomia (9%), 10 tiveram lesão de outros órgãos (6%), 50 foram admitidas em UTI ou similar (31%).

Dos 152 bebês para os quais havia dados completos, 15 foram óbitos fetais (12 antes do parto, sendo 7 deles anteriores à ruptura, e 3 intraparto). Houve ainda 10 mortes neonatais precoces e 41% de admissão em UTI neonatal. A taxa de mortalidade excluindo os casos de óbito fetal anterior à ruptura foi de 124/1000.

Em resumo:
- A taxa de ruptura uterina em VBAC **sem indução ou condução do trabalho de parto** neste estudo foi de 13 em 10.000 ou 1,3 em 1.000 ou 0,13%.
- Rupturas uterinas acontecem (menos frequentemente) mesmo em mulheres sem cesárea prévia e mesmo em mulheres que nem sequer entraram em trabalho de parto.
- Placenta prévia parece ser um fator de risco importante para ruptura uterina.
- Como em qualquer discussão sobre VBAC, é preciso lembrar que os riscos associados se iniciam na PRIMEIRA CESÁREA e não na tentativa de parto em uma gestação atual. Haja vista o risco maior de ruptura uterina em quem tem placenta prévia - condição relacionada fortemente à presença de cicatriz uterina anterior.


segunda-feira, 23 de março de 2015

História das posições para o Parto

Por: Coletivo de Parteiras



"Quer saber mais sobre a história das posições para o parto? Dê uma olhada nesta compilação dos registros de mulheres parindo nas mais variadas posições de diversos tempos e culturas. Raramente se vê uma mulher parindo deitada!"


sexta-feira, 20 de março de 2015

Já viram a nova carteira da gestante do Ministério da Saúde?

Linda linda, e cheinha de informações super relevantes!

Veja neste link!

Esse modelo é o do Ministério da Saúde, aqui no Rio li que é um pouco diferente - seguem o modelo do projeto Cegonha Carioca.

AMEI!!! Quero uma pra mim!

quinta-feira, 19 de março de 2015

Viva o ânus!

(por Ana Fialho, dedicado a Bernadette Bousada - ambas obstetras)

"Num país não tão distante, por motivos não tão claros, de repente começaram a se fazer muitas colostomias. Fazer coco naturalmente tinha riscos potenciais, hemorróidas, fissuras, doía... Algumas pessoas, coitadas, herdavam geneticamente a dificuldade de fazer coco, outras pessoas não tinham nenhum prazer no ato, outras ainda achavam que se perdia muito tempo da vida sentadas na privada. Optavam então por colocar uma bolsa no fim do intestino e por ali o coco sairia sem complicações.

Nesse país era tão frequente a cirurgia que os médicos ficaram craques nela! Os resultados eram maravilhosos, poucas intercorrências, na verdade a taxa de mortalidade era quase zero! Com o avanço na tecnologia cirúrgica e farmacêutica, a dor do pós operatório e as infecções eram mínimas! Ninguém mais questionava quando alguém escolhia nunca mais fazer coco na vida, uma escolha informada, a pessoa é livre, o anus é dela e ela decide se quer usá-lo ou não!

Com o tempo, a taxa de colostomia ultrapassou os 80%, a minoria que ainda queria fazer coco era taxada de louca, irresponsável, inconsequente. Como quase ninguém mais fazia coco, o evento, outrora cotidiano, tornou-se assustador! Dava muito medo fazer coco. So se podia fazer coco com ajuda de profissionais, muitas intervenções para auxiliar e claro em ambiente hospitalar.

O medo era tanto que as complicações entre os fazedores de coco aumentaram muito, taxas de hemorróidas, fissuras, até hemorragias graves após o ato aumentaram vertiginosamente. Fora aquele cortezinho no anus pra ajudar a sair o coco que inflamava, doia, dificultava os próximos cocos... Mesmo com medicações, anestesia, cortes, fazer coco era muito difícil, tinha que ser muito corajoso! Ouvi dizer até que a vizinha de uma prima que mora nesse país morreu entalada porque quis forçar fazer coco de qualquer jeito, sem ajuda de ninguém. Um horror.

Se essa história parece estranha, exagerada, se a comparação com o parto te parece esdrúxula, é simplesmente porque a cesariana para nós não é mais considerada uma cirurgia que substitui um evento fisiológico. O parto não é mais considerado fisiológico e quem está perdendo somos nós, mulheres, homens, crianças.

Viva o ânus! Meu corpo, minhas regras!"

segunda-feira, 16 de março de 2015

Ultrassonografia em excesso durante a gestão faz mal ou não?

Por: Maíra Libertad Soligo-Takemoto - Enfermeira Obstetra, no Facebook.

"A ultrassonografia está sendo usada cada vez mais por razões não médicas, no entanto, nas primeiras 10 semanas de gravidez deve ser realizada somente quando for clinicamente indicada, informa um novo documento publicado hoje pelo Royal College de Obstetras e Ginecologistas (RCOG) no Reino Unido.

O documento de opinião avalia as questões relacionadas à exposição às ondas de ultra-som nas primeiras 10 semanas de gestação, conhecidas como período embrionário, à luz das mais recentes evidências e protocolos de organizações e comitês de segurança da ultrassonografia, tanto nacionais quanto internacionais. O uso com indicação médica e sem indicação médica foi analisado.

O documento destaca que não há evidências de que a exposição repetida às ondas de ultra-som tenha efeitos cumulativos ou prejudiciais. No entanto, as primeiras 10 semanas de gestação são um período de potencial vulnerabilidade para o embrião, uma vez que ele é muito pequeno e a divisão celular é mais rápida durante este período. Adicionalmente, o fluxo de sangue fetal é limitado pois a circulação fetal-placentária só é estabelecida após 11 semanas de gestação, o que significa uma potencial vulnerabilidade ao estresse térmico.

Com a falta de dados epidemiológicos, os autores adotaram uma abordagem preventiva/cautelosa e afirmam que eles não endossam o uso de ultra-som nesta fase inicial da gravidez, a menos que indicado clinicamente ou no âmbito de pesquisa.

Os autores do documento não recomendam o uso de ultra-som incluindo 4D com o único propósito de guardar imagens ou vídeos de recordação no período embrionário.


Link para as principais mensagens do documento (em PDF):