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quarta-feira, 20 de maio de 2015

Relato do Parto do Artur, 27/4, 2015 – Parto domiciliar planejado, com enfermeira obstetra e obstetriz.

Equipe: Maíra Libertad, enfermeira obstetra; Marina Alvarenga, obstetriz; Vagner, marido e pai; Aninha, filha amada e irmã corujíssima; Karen, amiga, comadre e "alter-ego"; Lena, fada-madrinha; Claudia Reis, fotógrafa e amiga.


A história do parto do Artur começou a quase 14 anos, quando nos descobrimos grávidos, esperando a Aninha. Nossa moreninha hoje tem 13 anos, mas toda a história da gestação e parto dela fazem parte também da história da gestação e parto de seu irmão, Artur.
Na época que gestamos Aninha (Mai/2001-Fev/2002) a única certeza que eu tinha era de que não queria uma cesariana. Sem recursos e sem muita informação, contando em conseguir um parto normal pelo plano de saúde, perambulamos entre consultórios de obstetras até chegarmos a um vaginalista que nos ajudou a fazer a Aninha nascer de parto normal, ainda que no hospital, seguindo todo o protocolo de intervenções tradicionais. Foi traumático tanto pra mim, quanto para meu marido – eu, na verdade, só digeri tudo que nos foi feito anos depois, quando me envolvi mais e mais no movimento de Humanização do Nascimento. De lá para cá foram 13 anos de estudos, de informações, de revolta, de mágoa, de ressignificação do que passamos, de ativismo. Eu e meu marido nos separamos, reatamos, nos separamos de novo, amadurecemos através de perdas e da observação e busca de compreensão da vida, buscamos novo sentido e valores para nós mesmos, para o nosso amor.
Em maio de 2013 nos reaproximamos, voltamos a namorar e, logo depois, decidimos nos casar, dessa vez no cartório e com uma cerimônia delicada e pessoal para compartilhar o momento, nossa decisão e conquista (sim, porque estarmos juntos de novo foi uma conquista!) com nossos queridos. Nossa aliança representa o amor de uma vida, de várias vidas, um renascimento de cada um de nós, inclusive de nossa filha Ana. Uma história que não tem fim.
Não planejávamos engravidar tão cedo, mas sempre quis outro filho, Aninha queria um irmão, e Vagner, sem dúvida, queria um menino!
Nunca fui de marcar menstruação em calendário porque meu corpo sempre me avisou quando o período estava chegando... Levo meus ciclos de maneira bem natural. Um dia de agosto de 2014, quando me dei conta e olhei o calendário, percebi que já deveria ter ficado menstruada havia alguns dias, semanas na verdade, e naquele momento me bateu a certeza: "- Estou grávida!". Passou o filme na minha cabeça do dia da concepção daquele bebê – havia sido tão especial que lembrava o dia, as sensações, o olhar do Vagner. Comprei o teste da farmácia ao sair do trabalho para fazer em casa, somente para tirar a dúvida: positivo! Vagner via TV na sala quando entreguei a ele o exame. Assim como na 1ª vez, ele ficou em silêncio por alguns minutos. Sabe Deus o que se passava em sua cabeça, mas eu tinha certeza que dessa vez não era o medo misturado com felicidade da 1ª vez. Estamos em uma fase da vida de muito maior segurança e tranquilidade que estávamos naquela época em 2001.
Tanto para ele quanto para mim havia, desde então, uma certeza: este bebê não nasceria da mesma forma, não passaríamos pelas mesmas intervenções desnecessárias às quais fomos submetidos em 2002. Este bebê não ficaria 6 horas no berçário, afastado da gente, sem necessidade! Eu até poderia aturar violências contra mim e contra meu corpo, mas jamais aceitaria violência contra nosso bebê recém-chegado ao mundo. Este nasceria já recebendo amor. Para mim, imersa no assunto do parto humanizado todos esses anos, depois de ler tanto, de receber tantos relatos de violência obstétrica, depois de ver o surgimento de equipes excelentes de atendimento ao parto humanizado em nossa cidade, entendendo muito mais do assunto e já tendo parido um bebê de parto normal em hospital antes, não havia dúvida: pariria este novo bebê em casa.
Vagner e eu conversamos muito. Como todo homem, pai de família, que se sente responsável pela segurança dos seus, a maior preocupação dele era SEGURANÇA. Como nosso maior ponto forte sempre foi a amizade e a conversa, fomos conversando, conversando, até que todas as inquietudes ficassem esclarecidas. Não há como não buscar a segurança para todos quando o assunto é parto. Há muita expectativa, há muita responsabilidade e, ainda que saibamos que qualquer evento da natureza tem seus riscos, sua certa carga de imprevisibilidade, nosso papel como humanos e pais é buscar o menor risco possível, ter planos de contingência, saber pelo que passaremos – embora a gestação seja emoção, hormônios, felicidade, novidades, temos nosso lado racional para nos ajudar nesse caminho, caminho este que de toda forma não deve deixar de ser natural.
Desde 2000 e alguma coisa acompanho pela WEB o trabalho, a carreira, as ideias da Maíra Libertad. Seu caminho, suas ações, seu ativismo, seu profissionalismo e até seu nome (Libertad!) sempre me despertaram bom sentimentos. Desde o comecinho outra certeza que eu tinha é que seria ela que nos apoiaria nesta gestação e parto. A única maneira de garantir que nosso novo bebê não sofreria intervenções de protocolo de hospital (check-in de berçário etc.) seria fazer com que ele nascesse em nossa casa – o único lugar em que as regras são nossas, ainda que fossemos guiados por um profissional que nos acompanhasse no parto. Juntando tudo isso, liguei e marquei consulta com a Maíra ainda nas primeiras oito semanas de gestação. Conversamos sobre as condições de atendimento dela, sobre parto domiciliar planejado, sobre o que o serviço dela cobria, como seria o pré-natal, e pedi a ela referências científicas para que Vagner e eu pudéssemos estudar sobre os riscos e benefícios deste tipo de parto. Foi nessa 1ª consulta que conheci a Marina Alvarenga – obstetriz, a 1ª a trabalhar no Rio, assistente da Maíra – que descobri ser um doce de pessoa e possuir também excelente qualificação técnica. Elas duas juntas formam uma dupla que, a meu ver, fica completa. A firmeza e a segurança da Maíra, o carinho e a doçura da Marina. Senti-me acolhida e aceita, ainda que tão no começo desse caminho. Nossa próxima consulta de pré-natal seria em casa, já que a decisão era por parto domiciliar desde então.
Ao longo das semanas seguintes Vagner e eu conversamos muito, lemos relatos de partos acompanhados pela Maíra, o material técnico que ela nos enviou (uma compilação de textos científicos sobre parto domiciliar para gestantes com parto normal anterior), outros relatos de parto em casa. Ainda pensamos sobre o parto humanizado hospitalar, mas dentro de mim já havia aquela certeza: eu ia parir em casa.
As consultas de pré-natal se seguiram, mês a mês, em casa, com Maíra e Marina. Vagner, Aninha e eu estávamos presentes sempre que possível. Longas conversas, muito tempo para tirar dúvidas. Pouquíssimos exames, uma vez que só fiz os que são realmente necessários para um bom acompanhamento de pré-natal. Nenhum exame de toque por toda a gestação! Foi uma gestação tranquila, eu estava saudável quando engravidei (fazendo tratamento com homeopatia e acupuntura) e assim fiquei por nove meses. O tempo voou! Com o passar das consultas Vagner foi ficando mais e mais seguro com relação à nossa escolha, com relação às profissionais que escolhemos para nos apoiar. Planejamos quem estaria com a gente – Karen, a madrinha da Aninha e minha melhor amiga (alter-ego, como digo, alma-irmã e algo mais) desde os tempos da faculdade; Claudia – fotógrafa que trabalha com educação que conheci através de uma oficina de fotografia para crianças que Aninha fez a uns quatro anos, e que veio se envolvendo com o parto humanizado por minha influência através do Facebook; e a Lena, nossa ajudante e segunda-mãe, fada-madrinha. Vagner e Aninha também, claro.
Passei a gestação fazendo um "diário de grávida" no Facebook, fazendo ativismo pró-parto humanizado e conversando com muitos amigos e familiares sobre o tema, sobre nossas escolhas. Foram meses de confirmação, de mais aprendizado, fiz curso de Parto e Pós-Parto no Núcleo Carioca de Doulas, fui à Roda de Parto Domiciliar do Coletivo de Parteiras, segui estudando. Vários amigos vieram acompanhando nossas escolhas, o desenvolvimento do Artur na minha barriga, a montagem do quartinho dele – olhando hoje, para trás, tudo isso foi importante para nós. Informação, apoio, sentirmo-nos parte de um coletivo, apesar de sabermos que as escolhas que fizéssemos seriam de nossa inteira responsabilidade, ajudou-nos a firmar mais e mais nossos planos. Costumo dizer que informação é poder, estudar sobre a fisiologia do que vivemos nos dá calma para passar pelo que for necessário. Nesse ponto eu, como bióloga, e Vagner, como geólogo, pensamos bastante em comum – estudar, informar e conhecer, ainda que saibamos que não há garantias em quase nada nessa vida, dá-nos segurança. Todo esse processo foi uma conquista, foi o que chamamos de empoderamento, de sermos agentes de nossas escolhas, aceitar nossa responsabilidade sobre o que façamos. DECIDIR com base em informações científicas, evidências científicas, além de nosso feeling, claro, e de nossas próprias experiências!
É importante dizer que a certeza do parto domiciliar planejado foi se solidificando com as consultas de pré-natal, com a disponibilidade da Maíra e Marina em ouvir-nos, e muito, ouvir pacientemente todas as nossas perguntas, algumas delas feitas mais de uma vez, e em responder-nos. As pessoas se perguntam sobre os riscos dessa escolha - "E se acontece uma intercorrência, o que farão?". As profissionais que escolhemos têm formação técnica para o 1º atendimento de emergência que fosse necessário tanto comigo, quanto com o bebê, para estabilizar-nos e levar-nos ao hospital mais próximo. Há uma lista de pré-requisitos para que se possa fazer o parto em casa e, junto com Maíra e Marina, conversamos sobre todos os pontos. "E se alguma fatalidade acontece?" - há intercorrências associadas ao parto que são imprevisíveis, algumas delas fatais, e contra as quais não há o que fazer, nem em hospital. "E vocês não tiveram medo desse risco?" - sim, tivemos, mas as evidências científicas mostravam, no nosso caso, que os riscos eram mínimos, e os aceitamos. Os riscos do nosso parto em caso eram menores do que parir no hospital!
No caso do atendimento ao parto domiciliar com Maíra e Marina recebemos um termo de conhecimento de riscos e consentimento e nós o discutimos, ponto a ponto, e o assinamos em conjunto. Tínhamos um plano B também, com apoio de obstetra e sua equipe e um hospital a menos de 30 minutos daqui de casa, para o caso de algum problema mudar os planos antes do parto, ou no trabalho de parto. (Aliás, uma das coisas que ponderamos nessa gestação foi a existência desse termo: não deveria qualquer profissional de assistência ao parto discutir um documento desse com a gestante e sua família? Quando parimos com um obstetra em hospital, parece que a "garantia é  o médico", pouco se fala de riscos, e termo semelhante creio que jamais há!)
A barriga foi crescendo, as consultas tornando-se mais frequentes, semanais. As contrações de exercício começaram algumas semanas antes de eu entrar em trabalho de parto. Lembro-me com nitidez do dia que o Artur se encaixou, a pressão da expansão dos ossos do meu corpo... Eu estava bastante consciente do progresso do Artur em seu caminho, das respostas de meu corpo. Dores? Algumas, suportáveis. Ansiedade? Não muita, de minha parte ao menos. Desejo de vê-lo e cansaço com o peso da barriga, com a azia que queimava meu estômago, dificuldade de dormir? Sim, essas eram bem presentes. Mas estava tudo preparado e era só nosso reizinho desejar vir. Espera, doce espera. Trabalhei no escritório até 22/4. Trabalhei de casa até a manhã do dia em que pari (27/4). Estava me sentindo muito bem, plena e produtiva! Trabalhar, cuidar da casa, da família, dos preparativos para o parto me ajudou a curtir cada momento com a cabeça e coração leves.
Dia 25/4 pedi à Karen para fazermos umas fotos da barriga, com Aninha, Vagner, em casa mesmo – Vagner havia manifestado a vontade de fazer um ensaio fotográfico dessa vez (na gravidez da Aninha não o fizemos por falta de recursos!), mas eu não sentia muito ânimo mais para isso. Como a Karen é da família e fotografa muito bem fizemos fotos lindas na tardinha do sábado que antecedeu o parto.
Dia 26/4, domingo, acordamos cedo como sempre. Vagner e eu temos o hábito de ir ao Aterro, caminhando, nos domingos de manhã. Àquela altura eu já não conseguia força e ânimo de andar de Botafogo até lá, mas ele se ofereceu para irmos de carro até onde era possível, tomarmos água de coco, aproveitar o momento a dois, além de todo carinho que estávamos curtindo já em casa. Aninha, como pré-adolescente, optou por ficar em casa dormindo. Fomos os dois e foi ótimo! Acabamos caminhando no Leme, olhando o mar, num dia de céu cinza. Conversamos e namoramos toda a manhã e perto do almoço voltamos pra casa. A tarde e a notinha foram sossegadas, em casa mesmo. Um clima e energia muito bons!
Ainda no domingo, 26/4, por volta das 22hs, senti um jato de água entre as pernas, molhando minha roupa. Não era uma cachoeira como aparece na TV quando rompe a bolsa das águas, mas não era lubrificação normal tampouco – era água, água numa quantidade de molhar a roupa. Fui ao banheiro fazer xixi e senti sair algo de mim com mais consistência e um "ploc" na água do vaso sanitário... Era o tampão mucoso saindo. As contrações de exercício ficando mais fortes. Fiquei feliz e ao mesmo tempo duvidando que fosse aquilo mesmo... Pode levar dias entre a saída do tampão mucoso e o trabalho de parto efetivamente. Troquei de roupa e fomos dormir.
Às 2:30hs da madrugada de domingo pra segunda, 27/4, acordei com contrações fortes, do tipo de cólica menstrual – as contrações de exercício não doem, o útero apenas fica duro, essas não, essas doíam uma cólica forte! Achei que deveria falar com a Maíra, mandei uma mensagem para ela que, àquela altura da minha gestação, já estava sempre de olho no celular – além de mim Maíra tinha outra gestante com data provável de parto para 1/5 e que estava a termo! Maíra me orientou a contar as contrações... E ficar de olho em qualquer mudança, avisando-a em qualquer caso. Fiquei deitada no sofá da sala até 5:30hs. As contrações duravam 30 segundo e vinham de 4 em 4 minutos. Poderia demorar ainda muitas horas para isso tudo virar trabalho de parto ativo, de verdade. Avisei à Maíra e ficamos nos falando sobre os progressos.
Às 6:30hs acordei Vagner e Aninha, ele para ir trabalhar e ela para ir à escola. Avisei ao Vagner as novidades sobre o possível começo do trabalho de parto, mas eu mesma acreditava que ainda demoraria muito. Pedi que ele levasse Aninha à escola já que eu não tinha condições. Fiz café para ambos e foram. Avisei Karen e Claudia sobre as novidades e que poderia ser que o Artur nascesse na noite daquela segunda-feira. Disse a elas e ao Vagner que fossem trabalhar, que daria tempo e que mais tarde é que as coisas deviam andar.
Vagner levou Aninha no colégio e voltou para casa - decidiu não trabalhar e esperar - foi a sorte!!! Aninha queria estar em casa no parto, mas tinha prova aquela manhã e achei que daria tempo de ela fazer a prova e voltar para casa antes do parto.
Karen decidiu vir para nossa casa depois do almoço, Claudia começou a desmarcar seus compromissos e eu dizendo a elas que podiam ter calma! Fiquei trabalhando de casa a partir das 8:20hs. Respondi e-mails de clientes, falei com meu gerente, e as contrações ficando mais e mais fortes. Falava com Maíra pelo Whatsapp também. Lena, nossa ajudante chegou cedo e pedi que cuidasse logo da sala, do nosso quarto e banheiro porque o Artur deveria nascer naquele dia e logo mais haveria mais gente pela casa. Pedi a ela que fizesse o almoço também... Havíamos feito compras de frutas e legumes no final de semana e compras de mercado (estoque para parto e pós-parto!) no final de semana e eu estava ainda preocupada com a entrega que seria na segunda!
Havia combinado com a Maíra de ela dar um pulo aqui em casa para ver como eu estava – ela havia me perguntado se eu achava que estava progredindo rápido. Eu ria e dizia "Não sei".
Por volta das 11:00hs eu já não conseguia conversar nas contrações... Larguei meu laptop de qualquer jeito e desisti, enfim, de trabalhar! Maíra me orientou a contar de novo as contrações, duração e intervalo entre uma e outra. Ela me disse que seria melhor o Vagner contar e eu ainda achando que eu mesma poderia fazê-lo - ledo engano... Perdia as contas! Pedi a ele que contasse e dentro de 10 minutos a coisa já estava tensa! Eram contrações de 60 segundos a cada 3 minutos. Eu já estava saindo de órbita. Mandei uma mensagem para Maíra dizendo que não dava mais para conversar, ela já estava vindo para cá ("Graças a Deus", pensei!). Marina já estava arrumando o "kit parteira" delas (é uma mala enorme!) e vindo pra cá também. Lembro-me que Karen e Claudia ainda me perguntavam se estava na hora delas virem ou não, eu já não respondia. Pedi pro Vagner avisá-las que deviam vir sim.
Eu não sabia se deitava, se andava... Andar era melhor para as dores, mas a minha vontade era deitar e descansar. Se o intervalo entre as contrações fosse longo eu estaria deitada nos intervalos e andando durante as contrações. Mas eram ondas, rápidas, e a única coisa que eu tinha tempo de fazer era respirar. Fui deitar na cama, mas não me senti confortável, depois levantei e fiquei apoiada na pia do banheiro – pendurar meu quadril durante as contrações melhorava tudo. Lembro que Maíra chegou e eu estava assim, "pendurada" na pia do banheiro, ainda vestida. Dali pra frente as coisas tomaram mais e mais força; acho que o Artur estava esperando Maíra chegar para que pudéssemos trabalhar todos juntos. Já não sabia mais do intervalo e da duração das contrações, eram fortes, eram muitas, com um intervalinho pra eu respirar. Fui para o chuveiro quente e foi a 1ª salvação! Água realmente faz muita, muita diferença. Nosso box é pequeno e eu demorei a achar posição. A vontade era deitar no chão, mas não me cabia. Sentei num banco de madeira, doía o períneo - imagina algo lutando para abrir tudo lá em baixo e você sentada numa superfície dura de madeira? Não dava. Pedi para me darem minha bola de Pilates e consegui ficar debaixo do chuveiro sentada nela... Água na região lombar, água no rosto, água na barriga, água, água... Muita água. Eu só queria água. Nunca desejei parto na água, nunca pensei em usar chuveiro como analgésico, mas nunca amei tanto a água quanto nesse parto. Ela é mágica, de fato!
Enquanto eu gemia e me molhava no banheiro, Marina chegou com a piscina de borracha – eu só queria a piscina naquele estágio. Ainda me perguntava se alguma mão em mim, uma massagem ou qualquer coisa me fariam bem, se eu devia ter tido uma doula ou não. Às vezes achava que uma mão em mim seria bom, outras vezes achava que ia ter um ataque se me encostassem. No segundo seguinte tinha a certeza de que estar só com as contrações naquele momento era tudo que eu precisava. Estava tão consciente das ondas, do movimento do Artur descendo pelo meu ventre – qualquer coisa mais me atrapalharia a concentração. Pergunto-me agora como as meninas souberam que eu precisava estar só.
Notei a agitação do Vagner, Marina, Maíra e Lena arrumando a sala, enchendo a piscina, trazendo água quente, bem quente de algum lugar. Mas ao mesmo tempo eu não prestava mais atenção em nada, além de mim mesma e das contrações. Ondas, ondas, água, água. Todos os movimentos circulares, a natureza arredondada, Terra, ventre, ondas... Era o que estava na minha cabeça. Lembro-me de ter sentado no vaso sanitário do banheiro enquanto eles enchiam a piscina. Antes que estivesse pela metade eu já havia me metido dentro dela.
Os braços cansados, tremiam por dentro. Eu queira ficar submersa, queria entrar em mim mesma. Centrar-me. Respirava entre as contrações, relaxava e tentava deitar na água, mas o intervalo entre uma contração e outra era tão curto que não dava tempo de relaxar muito. Aí que me dei conta de que o trabalho de parto já tinha avançado muito, muito... Não seria à noite que Artur nasceria!
Vagner teve um papel crucial no trabalho de parto! Além de cuidar de tudo que eu precisava com as meninas, ele estava sempre me apoiando, abraçando-me quando vinha uma contração, jogava água com a mangueira nas minhas costas. E nos intervalos ia resolver alguma coisa! Como ele podia ser tão rápido? Ele me trouxe água de beber algumas vezes também.
Lembro-me de ouvir a campainha duas vezes, a 1ª vez era a Karen, a 2ª vez era a Claudia. Estavam todos lá. Não sei ao certo onde ficaram, o que fizeram, não me lembro de ter visto mais nada além de mim mesma, era como se eu olhasse para dentro. As sensações físicas das contrações eram meus olhos, ouvido, tato. Eu achava que gritava muito alto, que estava fazendo muito barulho e me preocupava, ainda, com isso - depois me disseram que eu gemia apenas e, às vezes, baixinho. Estava tão centrada em mim que meus sons, para mim, eram altos!
Lembrei da Aninha, que ainda estava na escola, queria que a buscassem às 14:20hs, hora do final da prova. Ao mesmo tempo tinha medo que ela me visse com dor e gritando e se assustasse.
Maíra e Marina se revezavam usando o sonar na minha barriga, entre as contrações, para ouvir o coração do bebê. Elas me diziam que ele estava feliz e bem. Eu ouvia o coração dele forte, batendo em ondas também. Sentia meu corpo abrindo, abrindo, nessas ondas. Sentia vontade vomitar, de fazer coco, e certo momento lembro-me de estar preocupada com isso - de fazer coco dentro d'água, e a Maíra, muito naturalmente, disse que eu não me preocupasse que ela cataria com a luva se acontecesse. Como a gente ainda tira razão de algum lugar pra pensar nisso?
Quando se tem consciência da fisiologia do parto, quando se tem consciência de seu corpo, quando se está integrada com seu bebê, vira tudo uma coisa só. Unidade. Sentia as mãos fortes do Vagner de tempos em tempos, sua respiração no meu ouvido.
Nos intervalos, em alguns momentos, a razão me vinha novamente e eu me perguntava se ainda seria capaz, se aguentaria. Lembro-me de ver Maíra e Marina sentadas ao longe, olhando. Quando me faltava força e fé, três pessoas marcaram. Lembro-me de três momentos, entre as contrações. Num deles eu perguntei à Maíra com quantos centímetros de dilatação eu devia estar, se faltava muito - a resposta dela: "Não sei, esquece isso, isso não é relevante!", com um sorriso. E veio outra contração. A cada contração sentia meu corpo se abrindo, relembrava das etapas do trabalho de parto, do caminho do bebê descendo pelo útero, abrindo espaço entre meus ossos, descendo, descendo.
Em outro momento, entre outras duas contrações, senti vontade de chorar, minha pelve parecia que ia rasgar, abrir... Tive medo de não dar conta. Não sabia mais quanto duraria aquilo tudo, se eu aguentaria. Olhei para fora da piscina e meus olhos encontraram os da Marina, ela sorria. "- Eu consigo, não é?", eu disse, e ela, ainda sorrindo, acenou que sim com a cabeça. Mais vontade de chorar. Outra contração. Eu me debruçava na borda da piscina, macia, quente, acolhedora. E sentia os braços do Vagner me envolvendo... Eu devia estar na "hora da covardia", quando já está tão perto do final que a gente pensa em desistir. Nesse momento o Vagner me abraçou e disse baixinho ao meu ouvido: "- Vamos lá! Você não me convenceu disso tudo? Não estamos juntos nessa? Agora falta pouco! Vamos pra dentro!"... Os olhos se enchem de lágrima neste momento, ao escrever, ao lembrar da presença de espírito dele, do quão bem ele me conhece e soube que o que eu precisava não era alento, ou mão na cabeça, era força, muita força. Força da terra, da água, das vísceras, do nosso amor que se refez tantas vezes, tão forte. Passei a mão na minha vulva e senti o cabelinho do bebê – sim, ele estava ali! Esperando-me, esperando que eu recuperasse minhas forças. Ele estava fazendo a parte dele, estava em seu caminho e era minha vez de fazer também minha parte. Lembrei mais uma vez da fisiologia do parto, que por tantos anos li... Estávamos avançados no expulsivo, se a cabeça dele estava ali eu já tinha os benditos 10cm de dilatação do colo útero. Agora era meu períneo e meu medo da episiotomia que sofri anos atrás, uma força, uma contração podia resolver tudo.
Concentrei-me no Artur, no meu útero, na contração que estava vindo, senti-me leoa, as palavras do Vagner ecoando na minha mente. Eu não via nada à minha volta, somente a onda da contração, vindo, maior que eu, mas não, não a deixaria me cobrir. Dessa vez íamos trabalhar juntos, Artur, meu útero, meu períneo, minha mente... Ao invés de gemer, gritei e pari a cabeça de nosso filhote querido, tão esperado. A sensação? Senti o tal círculo de fogo, em segundos, mas a maior sensação era de um orgasmo gigante. Conseguimos! Eu ria. Agora era o corpinho macio dele, escorregadio, que deveria sair na próxima contração. Institivamente eu, que até então estava quase de joelhos na água, virei meu corpo e deitei afundando-me nela, apoiando a cabeça na borda da piscina. Ali esperando-nos estavam as mãos protetoras da Maíra. As mãos ansiosas do Vagner. Os olhos sorridentes da Marina. E eu rindo, rindo... Rindo! E dizendo que dava pra sentir ele se mexendo dentro de mim! Passando a mão no cabelinho dele. Chorava ao mesmo tempo em que ria!
Naquele momento eu consegui ver as pessoas à minha volta, enfim, o olhar aliviado de todos, sorrindo e ansiosos para conhecer o Artur. Na minha mente eu dizia "Já foi, eu consegui! Agora é só parir o corpinho macio dele!". À minha frente Maíra de luvas afastava qualquer ideia de alguém por a mão no bebê, de puxá-lo, de por a mão no meu períneo ou qualquer coisa. Vagner, ao meu lado pela borda da piscina, encorajava-me sorrindo um sorriso tranquilo e calmo. Mais uma contração e pronto. Artur havia nascido, por mim. Estava apaixonada por ele já dali, ou muito antes daquele momento. Eu pensava "Conseguimos, meu amor, meu príncipe! Obrigada por me acompanhar nessa jornada e por fazer dar tudo tão certo. Nós sabemos parir e nascer! Conseguimos!". Maíra recebeu o Artur junto comigo, tive tempo de ver e comentar "Ele nasceu com uma circular de cordão!" – era mais um detalhe pra coroar nosso conhecimento de que os bebês sabem nascer, que os partos dão certo, que cordão jamais é assassino. Maíra desfez a volta no pescoço dele e o colocou no meu colo.
Vagner veio ficar junto de nós, e a primeira reação do Artur foi segurar na mão do pai com seus dedinhos longos.
Assim como no parto da Aninha a visão mais forte deste momento foi o olhar do Artur para mim. Ele, recém-parido, no meu colo. Ele era lindo, ele nasceu grande, nasceu bem, esperto. Os olhos cor de mel, seu cabelinho preto. As mãozinhas... O cordão umbilical, lembro-me de ter ficado algum tempo olhando o cordão – ele é mágico, ele é lindo, é macio. Pulsava ainda quente.
Eu queria tirar o sutiã, mas o Artur já estava aconchegado no meu colo, as fraldinhas aquecidas em cima dele; não, eu não ia me afastar dele para tirar sutiã, e foi aí que Vagner deu uma ideia brilhante (amor, muito obrigada, sempre, por sua presença!) "Vamos cortar!!! O que é um sutiã?"... E eu feliz, sentindo-me mais livre ainda, nua, com nosso rebento nos braços e na água morninha. Todos aqueles sorrisos à nossa volta! Nosso bebê saudável, perfeito.
Ficamos Vagner, eu e Artur juntinhos alguns muitos minutos ali, namorávamos nosso menino, que nos olhava profundamente.
Em algum momento Maíra sugeriu que fôssemos para a cama, aguardar o parto da placenta. Marina já havia arrumado tudo no quarto, nossa cama estava quentinha, macia, limpa e deliciosa à luz da tarde de outono do Rio. Elas e Vagner me ajudaram a levantar da água, caminhar para o quarto e deitar. Naquele momento eu já sentia fome, sede!
O Artur agarrado em mim todo esse tempo, já estava bem esperto e quis mamar ainda na primeira hora. Foi uma grande emoção vê-lo tão pequenino já sugando meu seio. Não tem preço a liberdade de estar com nosso bebê recém-parido o tempo todo desde que ele saiu de dentro de mim, de saber que ele não foi invadido, medido, mexido, e que ele pôde estar livre para, no tempo dele, mamar ou não, conforme quisesse.
Lembro-me de que em algum momento entre as contrações pedi que buscassem Aninha na escola. Eu não tinha noção da hora, mas achava que a prova dela já tinha terminado. E achava que o trabalho de parto ainda demoraria e daria tempo de ela chegar e ver o irmão nascer. Ao mesmo tempo tive medo de como seria a reação dela e quais seriam as memórias que ficariam ao ver-me gritando (eu achava que estava gritando, lembram?) e sentindo dor. Acabou que Aninha chegou quando já estávamos na cama, esperando o parto da placenta. Foi triste ver a decepção dela ao saber que o irmão já tinha nascido, mas ao mesmo tempo foi lindo ver seus olhos pra ele – paixão também à primeira vista, como ela disse. Um entendimento e carinho naturais. Foi Aninha que cortou o cordão depois que pari a placenta, foi ela que ajudou Marina a vestir a primeira roupinha dele e que o levou lindo, no colo, para ver nossas amigas que estavam na sala. Nossa filha querida foi perfeita e tem sido mais que filha, irmã, companheira, nossa maior e mais amada cuidadora também.
Enquanto esperávamos o parto da placenta, com Artur já mamando, lembro-me de ouvir o Vagner comentar que ia avisar à nossa família que o Artur havia nascido, e a Maíra comentar que era melhor esperar a placenta! Sim, sim, claro! Um dos meus medos era a placenta apegada e, como ela sempre diz, o parto ainda não acabou enquanto não há a dequitação da placenta!!! Pedi a ela que fosse correndo na sala conversar com Vagner e explicar a ele o assunto. A família podia esperar uns minutos mais!
Não sei bem quanto tempo depois disso a Maíra me falou que a placenta já devia ter soltado, mas que estava ainda dentro de mim esperando uma contração. Eu já estava tão relaxada e feliz que nem sentia mais que ainda tinha contrações! Ela me examinou e viu que era exatamente isso, a placenta estava ali na portinha, esperando uma contração. Fizemos uma forcinha juntas, eu, Maíra e a placenta e pronto! Ali estava ela, linda em seu vermelho sangue, com todos os seus vasos e membranas, a placenta tão mágica e misteriosa, poderosa, que havia nutrido nosso Artur, permitido a ele crescer, receber alimento e oxigênio. Aninha queria ver a placenta, desde a gestação conversávamos sobre o que era, como era e pedi à Maíra que explicasse à ela tudo sobre a anatomia e posicionamento da placenta. Adorei vê-las analisando a placenta do Artur e conversando sobre suas funções!
Como disse, Aninha cortou o cordão e depois de não sei quanto tempo o Artur foi para alguns poucos metros longe de mim, para ser pesado pela Mariana e vestido pela Aninha.
Maíra e Marina examinaram meu períneo e não tive laceração grave, nada que precisasse de ponto. Maíra me mostrou com um espelhinho e vi que era apenas uma laceração de mucosa - conversamos e optamos por não dar pontos e seguir com a cicatrização natural. Em no máximo sete dias tudo estaria cicatrizado, somente cuidando com água, sem anti-inflamatórios ou outros remédios.
Enquanto Aninha desfilava orgulhosa com o irmão nos braços pelo apartamento, Karen, Claudia, Lena e Vagner viam o nosso pequeno príncipe, Marina me ajudou a levantar e fui para o banheiro tomar um banho delicioso e quente! Eu estava ali de pé, sozinha, na nossa casa, no nosso banheiro. Vesti minha camisola linda, presente especial do Vagner ainda na gestação para o pós-parto, penteei meu cabelo e fui pra sala me sentar com minha família querida e nossas amigas!
A esta altura a casa já estava recomposta, a sala já tinha cara de sala e a piscina já havia sido esvaziada. Vagner estava na cozinha fritando hambúrguer para todas, Lena já havia arrumado tudo, Karen e Aninha estavam conversando, eu babando o Artur, Claudia tirando fotos e as gatas caminhando pela casa tentando entender o que havia acontecido!
Brindamos o parto, a chegada do Artur e nossa equipe de sucesso com um bom Pro Seco, comemos hambúrguer feito em casa, falamos do parto, de como o Artur é lindo, de como parece com a Aninha e outras trivialidades... A vida seguindo seu curso, normal como deve ser, após o evento de energia e bênçãos enormes, de alegria e emoção extremas, que todos havíamos compartilhado havia algumas horas!
Vagner fez também um bolo de coco delicioso e comi algumas boas fatias dele, ainda quente, com água de coco! Era o primeiro bolo do Artur!
Claudia foi embora perto das 18hs, pois tinha ainda outro compromisso e, como foi tudo tão rápido, daria tempo para cumpri-lo. Marina e Maíra foram embora por voltas das 18:30hs, depois de nos passarem as orientações sobre cuidados com o coto, com o Artur, comigo etc. e de combinarmos a visita de pós-parto para dali a 24 horas. Lena e Karen ainda ficaram um pouco mais, ajeitando algumas coisas e conversando.
Durante aquela noite a casa estava serena... Nós três apaixonados pelo Artur, olhando, olhando, cheirando... À noite Vagner e Aninha dormiram o sono dos justos, e eu, como boa recém-parida e inundada de ocitocina, passei a madrugada vidrada, olhando aquela maravilha da vida ao meu lado! Todos empoleirados no nosso quarto. Ninguém conseguiu se afastar do Artur por alguns vários dias!
Esse parto foi perfeito, como tinha de ser, uma benção, uma alegria. Digo que foi "tsunâmico", tanto pela rapidez, quanto pela sensação das contrações em ondas gigantes diante de mim! Eu esperava que demorasse muito mais... Achei que pariria na madrugada de segunda para terça, havia idealizado coisas a fazer no trabalho de parto, roupas a vestir, fotos que eu gostaria de tirar. O que eu comeria durante o dia, o que serviríamos para as meninas... Não deu tempo de nada disso, mas foi perfeito, do jeitinho que tinha de ser!
Se eu me arrependo? De nada! Se a dor é tudo isso que falam? Dói, dói muito, mas a dor não é um décimo do terror que fazem. É uma dor com propósito, é uma dor com início, meio e fim. É uma dor que não é dor, é processo, é o corpo se abrindo para uma nova vida, para que a gente se transforme junto do parto e saiba como ter forças para ser mãe. Alguns minutos depois de parir o Artur eu, rindo, dizia, que já podia pensar no terceiro filho e que parir é bom demais!!!
Obrigada, do mais profundo cantinho do meu coração, à vocês, Maíra e Marina, pelo apoio, pelo cuidado pela força, por nos ajudarem a realizar esse sonho! Obrigada Lena, Karen e Claudia, pela companhia, pela ajuda, pelas boas energias, pelo carinho. Meu amor, meu amigo, meu companheiro, meu homem na Terra, Vagner, obrigada por ser completo e por me fazer completa, obrigada por seu olhar, por nosso lar, por nossos filhos, obrigada pela sua mão, pelo seu peito, pelo seu coração, por nós. Aninha, minha filha linda, perdão por não dar conta, muitas vezes, de tudo que você deseja; obrigada pelo seu amor, obrigada pela sua torcida, obrigada pela sua fé inabalável em nós. Meu amor e admiração por você, filha, não têm tamanho! Seja bem-vindo, menino de olhos serenos, menino de paz, espírito de calma que veio completar nossa família! Seja bem-vindo, Artur!!!

terça-feira, 17 de junho de 2003

Natália nasceu!

bebeagua
Nasceu ontem, 16/06/2003, num parto natural de cócoras e na água, a Natália, filha da Virgínia. Ela nasceu com 2.925 kg e 47cm.
As duas passam bem, e em breve publicarei o relato do parto.
Façam visitas aqui

Veja o relato escrito pela Virgínia:

"Gente aí vai o relato do parto da Natália!!! :))
Desde criança, minhas referências sobre parto, sempre foram muito positivas, já que minha mãe teve dois partos normais... apesar de terem sido hospitalares com todas as rotinas possíveis, só deixaram lembraças boas a ela... e ela sempre me transmitiu isso!!!
A história do parto da Natália começou mais ou menos em agosto de 2002, eu e o Edson já estavamos tentando engravidar e meu programa favorito durante os dias era assistir ao programa "História de um bebê" (no People&Arts) e sonhar com o bebe... um belo dia, o programa mostrava um parto domiciliar maravilhoso... fiquei muito impressionada com aquilo, pois até então não imaginava qualquer possibilidade de um parto fora de um hospital! Achei aquilo o máximo dos máximos!!!
Isso me motivou a pesquisar na internet sobre o assunto... nessa busca, encontrei o site da Amigas do Parto e do Instituto Aurora, dois sites que tornaram meu sonho possível!
Imediatamente devorei todo o conteúdo do site da Amigas do Parto, fiquei boba com os relatos... e me inscrevi na lista de discussão... com isso, pude entender muitas coisas e ver que um parto humanizado (de preferência domiciliar) era mesmo uma coisa possível e que era o MELHOR para mim e para o bebe que um dia eu teria! Além disso, o site do Instituto Aurora, me apresentou a Fadynha, que viria a ser uma "peça" fundamental para todo o processo que viria a acontecer!
Bom, passados aproximadamente 2 meses (em 17/10/2002), descobri minha gravidez de 4 semanas... assim, começava a "luta" para conseguir o meu sonho de ter um parto humanizado e domiciliar.
Iniciei meu pré-natal com um médico do convêncio, indicado pela Fadynha, no entanto ele não era o que eu realmente desejava... seria possível ter um parto legal com ele, mas talvés depois de MUITO diálogo, se a gravidez corresse ABSOLUTAMENTE sem problemas e se o trabalho de parto não apresentasse NENHUMA intercorrência... o que realmente me deixava muito apreensiva, já que não sabia o que me esperava na hora do parto... talvéz um TP longo, uma bolsa rota a algumas horas e nenhum sinal de contrações... enfim... coisas que poderiam me levar a uma cesárea desnecessária.
Eu queria mesmo era fazer meu pré-natal e parto com um médico que respeitasse meu tempo, meus desejos e que fizesse o parto na minha casa...
no entanto um médico assim só se não fosse do nosso convênio, então teríamos que pagar as consultas e o parto. Como o Edson (meu marido) não tinha a
confiança suficiente num parto domiciliar, ele tentava me convencer de que seria loucura gastarmos esse dinheiro com isso, se podíamos utilizar o médico do convênio.
Independente da confusão de qual médico escolher... com 5 semanas de gravidez comecei a fazer Yoga com a Fadynha e uma coisa era certa... queria ela como doula do meu parto, fosse ele realizado com que médico fosse. A Yoga foi a melhor coisa que eu poderia ter feito... me deixou mais confiante, me ensinou muitas coisas, ajudando na minha preparação física e psicológica para o parto.
Com 13 semanas, convenci o Edson a irmos a primeira consulta com o Dr. Francisco Villela (o médico ideal para mim)... de cara amei mais ainda e passei a ficar mais com o pé atrás em relação ao outro médico. Descobrimos o quanto ele cobraria pelo parto... o que realmente me surpreendeu, pois achei que seria mais caro... mas mesmo assim o Edson ainda insistiu em continuarmos com o outro médico. Ficamos então nesse chove não molha durante meses...
Levei o pré-natal intercalando as consultas entre os dois médicos... hora decidíamos por um, hora por outro... mas graças a Deus minha gravidez transcorria maravilhosa, sem nenhum problema... engordei somente 5Kg, minha pressão se manteve ótima, não tive dores nas costas, nem inchaços, nem nada, além de enjoo e azia... e uma pontinha de frustração pela minha barriga ser tão pequena, que beirando os 9 meses de gravidez fui barrada na fila de gestantes do bradesco! HERG!!! J
Enfim... com 34 semanas, resolvi radicalizar... cheguei pro Edson e disse... não gosto do médico do nosso convênio... vamos mudar definitivamente para o Dr. Francisco e eu abro mão de fazermos o parto em casa (faremos na Perinatal)! Como eu desconfiava, o parto domiciliar era o problema, e não o dinheiro ou qualquer bobagem parecida... então graças a Deus (novamente) ele concordou e mudamos definitivamente para o Dr. Francisco!!!
Bom, dia 12/06/2003 completei 38 semanas... a expectativa aumentou e felizmente minha mãe chegou de São Paulo para passar 45 dias aqui, o que me deixou muito mais calma... Eu não sentia nada físico, mas tinha uma intuição de que a Natália chegaria logo, apostava que seria até aquele domingo (15/06)... Fora isso, estava com
uma sindrome de arrumação terrível... arrumei 2 armários da casa que estavam para ser arrumados a mais de um ano, quando mudamos para esse apartamento,
arrumei a estante da sala, a lavanderia... Isso me fazia acreditar ainda mais na minha intuição... minha filhota estava chegando e eu estava arrumando o ninho para recebê-la!!! Dito e feito: segunda feira (16/06/2003) a 1:20h da madrugada, minha bolsa estourou...
Acordei meio assustada, corri para banheiro para tentar ter certeza do que estava acontecendo antes de acordar o Edson. Chegando no banheiro confirmei a suspeita e resolvi chamá-lo... Me troquei e sentei na cama, esperando que alguma coisa diferente acontecesse... e dali 15 minutos comecei a sentir contrações... nada mais do que leves cólicas (muito leves perto das minhas cólicas menstruais)... então começamos a cronometrar os intervalos e durações, e acordamos minha mãe que dormia na sala!
Esse negócio de intervalos e durações me estressou um pouco, fiquei meio apreensiva se estavamos medindo certo, se era aquilo mesmo... já que concluímos que as contrações estavam vindo de 7 em 7 minutos com duração de aproximadamente 1 minuto!! Resolvi tentar relaxar um pouco deitada na cama, mas foi bem difícil, já que nesse momento senti um pouco de medo do que aconteceria depois e também porque o Edson e minha mãe tomaram banho e se colocaram prontos para ir para a Perinatal, e o pior, minha mãe começou a lavar um resto de roupinhas da Nat que faltavam ser lavadas!!! O Edson já foi para o computador mandar e-mail para o pessoal do trabalho avisando do acontecido, desmarcar reuniões e coisas do tipo!!! Mas enfim... me concentrei em mim e na minha filha... fiz uma oração... expliquei para a
Natália o que estava acontecendo... que a hora de ela vir ao mundo havia chegado e que nós duas deveriamos fazer cada uma a sua parte no processo!
As 4:15h verificamos que as contrações estavam de 5 em 5 minutos e durando 1:30 minutos, mas continuavam super leves em termos de dor, eu ria da cara de desespero do Edson... hehehehe... então ligamos para o Dr. Francisco... que nos mandou ir para a Perinatal... então me troquei, pegamos um taxi e chegamos lá as 4:45h... demos entrada e fomos para o quarto!
Chegando lá, já avisei a enfermeira que meu médico havia pedido que NADA fosse feito antes que ele chegasse, e ela acatou a recomendação e não nos incomodou mais... Foi quando resolvi chamar a Fadynha!
Enquanto esperava eu coloquei aquela camisolinha horrível do hospital... nem sei porque, já que havia me programado para colocar uma camisola minha, mas na hora, coloquei aquela... e comecei a fazer alguns exercícios e andar... mas mesmo assim as contrações perderam a regularidade.
Dr. Francisco chegou ali pelas 05:40 ... me examinou, ouviu a Natália (155 batimentos por minuto - ótimo!) e fez um toque... 3 cm de dilatação e colo um pouco grosso! Como o TP estava muito no inicio ele resolveu ir atender sua 1ª paciente no consultório e ficamos em contato por telefone.
A Fadynha chegou, ficamos conversando e rindo... eu estava bem, mas um pouco frustrada pela falta de ritmo das contrações... a Fadynha falava que era normal, era devido a chegada ao hospital, que eu tinha que me ambientar primeiro, mas que elas viriam! Continuamos os exercícios, a conversa, a Fadynha aplicou uma moxa e a cada contração eu me acocorava para axíliar a descida do bebe!
Dito e feito de novo... entre 9 e 10 horas da manhã... minhas contrações não só haviam se regularizado como já estavam de 2 em 2 minutos com duração de 1
minuto.
Ligamos para o Dr. Francisco, que pediu que eu deitasse um pouco para que desse tempo de ele voltar a Perinatal antes que o processo avançasse demais.
Deitei... frustação novamente... as contrações cessaram como num passe de mágica. Ele chegou, me examinou novamente... 6 cm de dilatação e colo
apagado, escutou a Nat que estava muito bem, mas nada de contrações.
Então, levantei da cama e reiniciei os exercícios, caminhava em círculos pelo quarto minúsculo e me acocorava nas pouquíssimas contrações que
ocorriam.
A Fadynha resolveu fazer um outra moxa, e me disse para estimular meus mamílos, com o objetivo de ativar novamente as contrações!!! Lá ficamos...
moxa, conversa, riso, poses para fotos... passada mais ou menos 1 hora... de repente o negócio estourou, voltamos ao ritmo de 2 em 2 minutos com duração de 1 minuto.
Fui, então para o chuveiro, por sinal horrível já que a água não era quente o suficiente, mas foi bom, dei uma relaxada... continuava me acocorando nas contrações e nos intervalos intercalava em ficar quietinha, ou fazendo exercício de rotação pélvica para ajudar a descida... Importante dizer que a "dor" era totalmente suportável... era cansativo, mas dava para levar sem problemas.
Enquanto isso, Dr. Francisco foi providenciar a preparação da sala de pré-parto especial (onde existe uma cadeira de parto de cócoras e uma banheira)...
Depois de ums 40 minutos de banho, saí e aguardamos a liberação da sala!
A uma da tarde, fomos para a tal sala especial... me decepcionei quando cheguei lá (não tinha podiado conhecer, quando visitei a maternidade)... era um quarto normal, com uma cama normal e com um micro banheiro onde num canto estava uma também micro banheira... hehehe... Mas enfim, não me estressei...
A Fadynha logo colocou um cobertor no chão e lá fiquei ajoelhada ou deitada sobre as pernas, enquanto ela aplicava uma massagem com óleo de arnica ou Tei-fur (não sei o certo) na minha lombar, o que era ótimo!
Nisso, as contrações pareciam estar mais fortes, mas não em termos de dor, era uma sensação estranha, que infelizmente não sei descrever... então falei para o Edson chamar o Dr. Francisco, que aguardava na sala dos médicos...
Ele chegou, escutou a Nat... tudo ok... e fez outro toque... 9 cm de dilatação... e ele disse que poderia ir para a banheira se quizesse!
Detalhe a parte... não tem coisa mais terrível que esse exame de toque... isso sim que doi, não as contrações! Mas graças a Deus foram só esses três!
Resolvi ir para a banheira... que maravilha... a água é a melhor coisa que podia existir nesse momento... com a hidromassagem, então... muito relaxante e gostoso...
A sensação estranha se intesificava... era o expulsivo chegando, com a vontade de empurrar inexplicável... que coisa estranha que é essa tal "vontade de empurrar"... durante 9 meses me questionei de o que seria isso... e passado por ela... continuo sem saber!!! Mas de uma coisa eu sei e me lembro muito bem... que nessa hora me senti muito feliz, pois tudo estava indo bem e logo teria minha filhota nos meus braços!!!
Foram mais ou menos 40 minutos de expulsivo... o grande problema era o tamanho da banheira... Eu, com meu 1,79m de altura tinha uma dificuldade imensa de me ajeitar de cócoras naquela banheira e numa posição em que o Dr. Francisco tivesse acesso para amparar o bebe...
Mas também não me afligi com isso... mudava de posição, pra lá e prá cá... de lado, na transversal... a Fadynha "empuleirada" num espaço microscópico atrás de mim... me segurava durante as contrações, cantava mantras, enchugava meu rosto, me insentivava! Também ouvi algumas vezes o Edson me incentivando apesar de não saber direito de onde ele falava...
Essa hora é bem difícil de descrever... a sensação é de estar fora do corpo... eu ouvia as conversas... as vezes até queria dar algum palpite, mas também não conseguia falar... é muito estranho!
Neste momento, meu sonho de adolescente de ter um parto na água, estava se realizando... não me importava a dor na perna, nem o cansaço, nem o calor...
Toquei o cantinho da cabeça da Natália, quando ela ainda estava acho que 1 cm (mais ou menos) dentro de mim... Naquele episódio do "História de um bebe" que citei lá no começo, a mãe também acariciava a cabeça do nenem ainda dentro dela... isso era também um dos meus sonhos... maravilhoso você poder tocar o bebe ainda dentro de você! É como se tivesse acesso à aqueles 9 meses de gravidez!!
As últimas contrações foram bem difíceis, estava cansada e queria ver logo a carinha da Nat. Eu ouvia as falas do Edson, Fadynha e Dr. Francisco, que me
incentivavam e eu fazia força e mais força...
De repente, senti ela sair de mim... cabecinha, ombrinho, e pluft saiu... muito rápido...
Suavemente o Dr. Francisco trouxe ela para a superfície, mas sem tirar o corpinho da água, só tirou a cabecinha, e me deu... fiquei segurando aquela cabecinha miudinha, toda branquinha de vérnix (e quanto vérnix) aos prantos... um choro tão estranho quanto o período expulsivo... não sairam lágrimas, mas com certeza foi o choro mais emocionado da minha vida até agora!
Fiquei com ela nos meus braços por quase uma hora... conversava... acariciava a cabecinha, a carinha... só não dava para ver o resto do corpinho... pois colocaram um pano para ajudar no aquecimento.
Não sei quanto tempo depois, Dr. Francisco arrumou tudo para que o Edson cortasse o cordão umbilical. Tentei colocar a Natália no peito, mas ela não conseguiu pegar, pois meu bico é plano e estava molhado... ela queria, mas não conseguiu... coitadinha! Mas ficamos ali, ela me olhava com aquela carinha linda, como se
conseguisse me ver...
Então era a hora da primeira separação... a Natália foi com o pai e a pediatra para o berçario, para ser pesada, medida e vestida... lindíssima... 2,925 Kg e 47 cm....
Eu permaneci na sala, para a sutura de algumas lacerações do meu períneo... foram alguns pontos... mas aquele tempo me pareceu uma eternidade absurda...
queria ir logo embora dali, pegar minha princesinha no colo... olhar para ela direito... ver cada pedacinho dela!
A Natália não passou por nenhum procedimento de rotina.. não foi aspirada, não recebeu colírio de nitrato de prata, nem vitamina K! Isso tudo também só foi possível devido a pediatra que acompanhou a gente... Dr. Kátia Burigo... muito legal ela!!!
Então, finalmente fui para o quarto e lá encontrei o Edson e minha filhota todinha vestida de branco me esperando!
Considerações importantes:
1. As pessoas falam tanto sobre a "dor do parto", mas eu acho que ela não existe... o que eu senti não foi dor... foi muito mais uma sensação de plenitude, e "domínio" do meu corpo. Mas também acho que isso só foi possível devido a minha preparação psicológica para o parto, ou seja, pelo fato de eu ter estudado muito, saber pelo menos na teoria todo o processo, todas as fases pelas quais iria passar, e assim estar segura com tudo.
Eu ouso dizer que não senti dor durante o parto... Dor mesmo eu senti no primeiro dia de cólicas fortes da Natália, quando eu estava de mãos atadas vendo minha filha se esguelando... isso sim é dor!!!!
2. A participação da Fadynha foi impressindível para eu conseguir tudo isso, pelo apoio físico e emocional. Eu acho que todas as mulheres deveriam ter acesso a uma doula, pois neste caso acredito que menos pessoas optariam por uma cesárea eletiva."

quinta-feira, 12 de junho de 2003

Entrevista com Marília Largura no Mais Você!!!

Ontem a parteira Marília Largura participou do programa Mais Você, com a Ana Maria Braga, na Rede Globo:
Veja o bate-papo de Ana Maria Braga com dona Marília Largura, parteira há mais de 50 anos em:
http://maisvoce.globo.com/variedades.jsp?id=8069
Marília Largura possui o site www.partohumanizado.com.br
Marília Largura participou do parto da Débora, que teve o Pedro Gabriel de parto pélvico, ou seja, o neném nasceu sentado, de bundinha :-)
Veja o relato:
O nascimento de Pedro Gabriel.
Dia 30/03/2003 à 0:45h - pesando 2.950g
Parto natural pélvico vaginal

Dia 1
Debora teve contrações não dolorosas durante todo o dia, a cada 10 minutos
17h - Debora vai tirar a pressão, pois na véspera o aparelho do médico não estava funcionando e ele pediu para ela fazer uma medida.
Resultado: 15 x 10. Suspeita de pré-eclâmpsia
18h - Cheguei com a Marilia, discutimos a questão, resolvemos a conselho do médico, fazer um teste de proteinúria no Hospital mais próximo.
22h - Saída para o hospital
meia noite - Exame vai demorar, fomos comer comida japonesa esperando o resultado 1h da madrugada - Exame deu positivo, há proteinúria, o quadro indica pré-eclâmpsia, Dr. Jorge recomenda internação para sulfatação (medicamento que ajuda a impedir convulsão).
2h da madrugada - Chegamos ao hospital da internação, não podemos dizer que o bebê está pélvico, nem que Debora está em trabalho de parto, para não provocar uma cascata de intervenções. Medimos a pressão na chegada: 13 x 10. Debora lembra que a pressão no pré-natal foi mais pra 12 x 9 do que para 11 x 7. Ligo para o médico, decidimos repetir o exame de proteinúria antes de fazer a sulfatação, que leva 24 horas e ela teria que ficar sozinha no centro obstétrico, sem acompanhante, em trabalho de parto.
4h da madrugada, exame ainda não está pronto, ligamos para Dr. Jorge, falamos sobre a pressão média do pré-natal, ele decide liberar Debora para voltar para casa.
Fomos cada qual para a sua casa descansar um pouco e aguardar o início da fase ativa.
Dia 2
10h - Debora sai para medir a pressão, que está 11 x 7. Não era hipertensão, embora houvesse proteinúria. Ela passa o dia com
contrações a cada 10 minutos, mas sem dor. Cada qual está na sua casa
18h - Nova medida de pressão: 16 x 12. Ela se assusta, liga pra mim, peço para ela ir tomar um banho demorado. Ligo pro Dr. Jorge, ele entende que a pressão dela é mesmo muito variável e sujeita às oscilações provocadas pela tensão. A oscilação não é característica da hipertençsão. Marilia explica que é comum a mulher ficar mais apreensiva e com um pouco de medo conforme chega o final do dia e começa a escurecer. Dr. Jorge receita um tranqüilizante fitoterápico para ela, que então dorme profundamente das 23h às 8h do dia 03.
Dia 3
9h - Marcos me liga pois Débora já tem contrações com alguma dor, a cada 5 minutos. Pego Marilia em casa e vamos para lá. Marilia faz um exame de toque: 1 cm. Contrações de 30 segundos a cada 5 ou 6 minutos. Dani, uma das irmãs, já está no local. Chega Estrela, a irmã caçula. E assim passamos a manhã, nós 6, conversando, contando piada, decidindo o que fazer. Estrela e Dani fazem uma deliciosa macarronada com molho de frango.
14:30h - Suspeita que bolsa rompeu, tampão começa a ser eliminado, novo exame de toque, bebê elimina mecônio na mão da Marilia. Primeira grande c*gada do Pedro Gabriel... Dilatação está 3 para 4 cm, contrações já duram 45 a 50 segundos. Hora de ir embora.
15:30h - Chegada no Hospital, Dr. Jorge chegou na frente e já conversou com as enfermeiras, que permitiram o trabalho de parto no apartamento comum, pois não há suíte de parto. Internamos e fomos para lá. É feito um monitoramento fetal de 20 minutos, dilatação está para 6 cm. Vamos para o banho.
até 19:30h alternamos o acompanhamento da Débora entre todos nós, com direito a banho, descanso, mais banho, massagem, carinho, frases curtas para animar. Dilatação já está em 8 cm, Débora está brava, começa a perder a paciência, mas está firme. Pede algum remédio, "porrada na cabeça", qualquer coisa. Toma uma dose de Plasil, que não faz efeito algum, aparentemente. Mas ela está firme, apesar do cansaço.
20h - Vamos para o centro cirúrgico, pois o parto pélvico, mesmo vaginal, tem alguns riscos e não há tempo de transferir na hora do
problema. No centro cirúrgico chega a Dra. Andrea, assistente do Dr. Jorge. Ficamos então das 20h à meia noite todos juntos no C.O., alvos da curiosidade local. De cócoras, de pé, andando, Marcos foi um companheiro super forte, ajudando-a nas contrações, dando conforto, dizendo coisas muito legais pra ela. De vez em quando um de nós saía para tomar água ou comer uma bolachinha na salinha de "conforto". Às 21h Dr. Jorge autoriza 1/3 de dose de Dolantina, que acaba virando 1/10, por erro da enfermeira. Mas foi o sufiente para ela dar uma relaxada básica. Só que o efeito da droga passou e ela continuou muito relaxada. Estava super concentrada nas contrações e perto das 23h começou a ter vontade de fazer força.
Meia-noite - Debora vai para a mesa de parto e fica na posição de Simms (de lado) para empurrar o bebê. Começa a aparecer um pontinho branco (o bumbum) cada vez que ela fazia força. Chega a pediatra, fica por perto. Chega o anestesista e fica por perto. Chegam os plantonistas, que nunca viram um parto pélvico lá e ficam por perto (atrás da porta, escondidinhos).
0:15h - Debora fica em posição de parto, com as pernas na perneira.
Manobra para parto pélvico: o bumbum começa a aparecer e o médico empurra o bebê com uma compressa, para ele ficar todo socadinho, como um ovo, aumentando o diâmetro do bumbum que vai sair. Isso ajuda a dilatar o canal, de modo que ombro e cabeça não fiquem presos. A parteira guia a cabeça do bebê por cima, com a mão, para que o pescoço não se dobre. O médico pára de comprimir, e lá vem o bumbunzinho, lindo, fazendo muito cocô. As pernas estão junto ao tórax, vem tudo junto saindo. Sai um braço, sai outro braço. Outra manobra e o médico dobra o corpinho do bebê para cima. A cabeça ainda está lá dentro, são poucos segundos que parecem muitas horas.
Um silêncio histérico. Nem um pio. Apenas os gemidos vindos do fundo da garganta de Débora enquanto ela faz força. A voz de comando do médico para a assistente. "Solta aqui, dobra pra cá." O médico diz alto: "Força agora, mãe!" Débora faz uma última força gigantesca, o médico faz uma pequena episiotomia mediana, põe o dedo lá dentro, puxa o queixinho do bebê e a cabeça sai num "Blupt".
Nasceu, nasceu, meu Deus.. nasceu Pedro Gabriel, branquinho como a mãe...
O médico segura Pedrinho abaixo da altura da mãe, sem cortar o cordão. Com uma cânula tira a secreção do nariz. O bebê está quieto.
Começa a fazer uma boquinha, espuminha e resmunga bem baixinho: unhé...
Silêncio total, ouve-se a respiração ofegante de Debora, pelo esforço. Mais um resmungo.. unhé... ele começa a mexer os bracinhos...
Começam todos a chorar, Marcos e eu estamos descontrolados. Débora vê o bebê, o cordão é cortado, já não pulsa.
O bebê é colocado sobre o colo de Débora que começa a conversar com ele docemente, acalmando, fazendo carinho. Aparece uma coberta para cobri-lo. Debora também está chorando.
Por trás das máscaras dos médicos, das enfermeiras, muitos olhos brilhando.
O relógio começa a bater novamente, tic-tac, tic-tac..
Todos se abraçam, todos parabenizam Debora, todos se parabenizam.
Uma vitória fantástica do casal mais obstinado que já conheci.
Uma vitória de uma equipe que mesmo sem nunca ter trabalhado junta esteve em perfeita harmonia durante todo o tempo.
Uma vitória da humanidade, da fé, da esperança.
Uma vitória das mulheres, dos homens, dos bebês.
Uma vitória da natureza sobre a tecnocracia.
Uma vitória da luz.
À equipe do Dr. Jorge e Dra. Andrea, fica também meu agradecimento e minha admiração eterna pela forma humana, respeitosa com que trataram a mim, à parteira Marilia e principalmente ao casal Debora e Marcos.
Parabéns pela competência e pela persistência. Vocês foram simplesmente fantásticos.
À parteira Marilia Largura, fica a alegria de ter compartilhado um parto com uma mulher sábia, experiente, forte, que soube ser doce o tempo todo, firme quando foi preciso, técnica nas horas necessárias, brilhante em suas colocações e em sua conduta. Mais uma vez tive a certeza de que parteiras são mesmo mulheres especiais, com um pé na terra e outro com os anjos.
Mas à minha querida Debora e ao meu querido Marcos fica meu agradecimento profundo por essa horas de prazer, de alegria, de gozo, de vitória. Meu agradecimento por ela ter dado novas esperanças a todos nós. Renovou a fé de todos os profissionais envolvidos. Fé na mulher, fé no parto natural, fé na natureza. Que Deus esteja sempre protegendo e abençoando o caminho de vocês três. Pedro Gabriel veio ao mundo com o bumbum virado para a lua. Mas não sabe ele que a grande sorte não foi ter nascido de bumbum, mas foi ter nascido da união de um casal maravilhoso, forte, guerreiro.
Ana Cristina Duarte - a doula
31/03/2003
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quarta-feira, 11 de junho de 2003

A chegada da Hellen

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Nasceu dia 06 de junho de 2003 a Hellen, filha da Rachel. A obstetra foi a Roxana. A Hellen nasceu de cesariana, após um trabalho de parto muito longo e cansativo.
Leia o relato, feito pela obstetra:
"Queridos amigos da Lista:
Somente agora consigo usar o computador, mas vou contar para vocês minha versão da chegada da Hellen. A Rachel pediu para fazer isso, que depois ela conta a versão dela.
Nós inicialmente achávamos melhor ser um parto domiciliar, lá em Blumenau. MAs o hospital em Blumenau não permitia que eu fosse a médica dela se o parto recisasse ser hospitalar. Mesmo após eu ter mandado todos os meus diplomas e registros do CRM, eles não permitiram porque os documentos não estavam autenticados!! Como na casa da sogra dela não dava para tentar o parto domiciliar, resolvemos vir para uma clínica aqui em Florianópolis.
Na segunda feira de madrugada ela começou a sentir dores e outros sintomas que nos fizeram pensar em um trabalho de parto. Ela passou no hospital em Blumenau (não queríamos que ela viesse se houvesse algum problema). O médico plantonista ofereceu gentilmente uma cesárea, já que o trabalho de parto havia começado. Assim, eles vieram para Florianópolis de madrugada. MAs as contrações pararam.
Então eles esperaram mais dois dias, para ver se as contrações voltavam, mas nada aconteceu e a família voltou para Blumenau. Na quinta de noite, a Rachel me ligou de noite. As contrações estavam regulares! A Rachel, o marido e uma prima (que foi a Doula) vieram para a maternidade. Eu os encontrei às 00 horas e a Rachel estava em franco trabalho de parto, com 3 centímetros de dilatação. As contrações eram fortes, por isso resolvemos já ficar na maternidade.
Ela estava aguentando firme e forte, com contrações intensas. Fez exercícios, tomou banho. Foi realmente exemplar!
Às 5 e meia da manhã, fiz um toque e ela estava com 4 centímetros. A cabeça da nenê estava bem encaixada, então no toque vaginal eu rompi a bolsa. O líquido estava com um pouquinho de mecônio, mas era bem flúido, então não me preocupei. O coração da nenê sempre se manteve batendo forte, sem nenhum sinal que pudesse indicar sofrimento. Como as dores eram intensas, fizemos acupuntura.
Às oito da manhã, com 5 centímetros, ela estava exausta. Não conseguia descansar entre as contrações, tinha muitas cólicas. Conversamos sobre as nossas possibilidades para aliviar a dor, e escolhemos tomar uma Dolantina.
(Achei que tanto a Rachel, quanto o marido e a Doula estiveram muito presentes em todas as decisões. Isso foi muito legal! A Rachel, mesmo
com muita dor e muito cansada, participou ativamente de todo o processo, como deve ser!).
Com isso ela conseguiu relaxar um pouco, descansou, as dores ficaram mais suportáveis.
ÀS 10 da manhã estava com 6 quase 7 centímetros. A cabeça estava encaixada, transversa e um pouco alta para a dilatação. Mas o trabalho de parto estava progredindo bem, esperamos.
Às 12:30, após muitas contrações muito intensas (A Hellen nem se alterava, continuava super-bem - o que me deixava muito tranquila) o toque estava mantido, os mesmos centímetros,a cabeça no mesmo lugar.
Liguei para o disk-parto humanizado, nosso amigo Ric, para ver se ele tinha alguma idéia. Ele tinha. Me ensinou uma manobra para ajudar o bebê e me auxiliou com uns remédios homeopáticos.
Fizemos a manobra diversas vezes. A Rachel foi uma heroina. Estava com muita dor, muito cansada, mas fazia exercícios pélvicos, andava, fazia o que podia. Quero dizer também que a Doula e o marido foram dez! Davam o maior carinho e suporte, ajudavam, insentivavam, tudo.
O bebe desceu e mudou a posição da cabeça para uma mais favorável, mas o colo não dilatou mais. Tudo bem com o foco, então esperamos.
Às 15:30 ela não aguentava mais, o colo estava mantido. Optamos por fazer uma analgesia, para ver se conseguiamos um relaxamento do colo.
Na evolução após a analgesia (qe foi uma dose baixa e ela conseguiu ficar sentada todo o tempo) o colo não se dilatou e começou a haver uma distensão do segmento. Como a Hellen estava ótima, aguardamos mais um pouco. Mas a dilatação não evoluiu. O colo se manteve nos 7 centímetros.
Às 17:30 fizemos a cesárea. A Hellen nasceu linda, a cara da mãe. Logo foi para o peito e mamou bem bonitinha!
A Rachel ficou bem chateada, eu também. Mas sei que fizemos tudo o que podíamos. Esperamos o que deu. Foram 17 horas desde a internação até o parto!!!
Acho que é o tipo de frustração que a gente tem que aprender a lidar. Eu adorei acompanhar a Rachel nessa viagem, me senti honrada deles terem me escolido e confiado em mim.
Parabéns Rachel e Hugies, pela linda filhota!
Parabéns Hellen, pois seus pais são guerreiros! Eles sabem o que querem e não desistem, apesar de todas as dificuldades! Nas horas que passamos juntos, pude perceber todo amor dessa família, toda a determinação. Você é mesmo uma sortuda!
Beijos
Roxana"

sexta-feira, 9 de maio de 2003

Relato do Parto Natural da Socorro - Parto Mágico

Gente, a Bia acabou de dormir. Vou tentar resumir o meu parto.

Como eu contei, na sexta da semana passada o meu médico - que era pra mim um Deus - me deu a notícia de que se eu tivesse nenê de segunda a quinta só poderia ter com ele se fosse para o hospital público, pois ele não sairia do hospital para ir aonde eu estivesse.

Na segunda à noite fui visitar o hospital: terrível.O marido não pode entrar.

Decidi: tenho que ter um plano C.

Na terça de manhã a minha doula me sugeriu um médico, Dr. Luís Carlos, que por coincidência é pai de uma amiga minha da faculdade.

Liguei pra ele, fiz perguntas sobre parto normal, anestesia, vi que ele é dos nossos e marquei uma consulta na quinta de manhã.

Ás nove da noite da terça-feira eu estava ao telefone e recebi uma notícia ótima, um convite para publicar um artigo em uma revista de literatura, vindo de uma professora de Minas que é incrível (coisas do meu mestrado.)

Ao terminar o telefonema, vi que o colchão estava sujo de sangue e muco.

Era o tampão.

Liguei pro médico e pra doula. Mandaram que eu monitorasse os intervalos entre as contrações para ter certeza que era TP.

Meia-noite as cólicas apertaram. Duas da manhã ficaram no intervalo de cinco em cinco minutos. O médico mandou que fossemos para o hospital com a doula.

Chegando lá, fui examinada pelo obstetra de plantão. Duas da manhã, dois centímetros de dilatação.

Fomos para o quarto, fiquei na bola, com a doula e meu marido. Tomei banho, ouvi música suave e as contrações começaram a apertar mais.

As cinco da manhã, o médico chega, de som na mão. Examina: seis centímetros de dilatação. aguardamos mais um pouco. Muita dor.

As seis da manhã, examina de novo: oito centímetros de dilatação.

Descemos para a sala de parto. Fiquei de cócoras, sustentada na escadinha de dois degraus, com meu marido por trás. Fiquei de cócoras no chão, apoiada na doula.

Na hora de nascer, fui pra cama e fiquei sentada, puxando pelas alças.

Ás sete e quarenta nasceu minha Bia!

A pediatra fez os exames com ela em cima de mim. Depois saiu a placenta.LINDO!

Tive algumas pequenas fissuras pode dentro da vagina e nos lábios. O médico deu uns pontinhos.

Não usei soro, anestesia, episio, NADA! Foi como Deus fez!

O médico a doula foram fantásticos. É um capítulo à parte.

No mesmo dia recebi alta do hospital.

Toda mulher precisa viver isso. É uma grande experiência. Indescritível.

Estou com muito sono, depois conto mais. Podem perguntar, parto agora é meu assunto preferido!!!!!!!!!!!!!!!!

MIL BEIJOS Socorro Acioli, mãe da Bia, de um dia!