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sábado, 14 de março de 2015

Carta à Carolina Ferraz (ou sobre o que é o Parto Humanizado, em palavras simples)

Fonte: http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ser-mae/carta-a-carolina-ferraz/
Por: Rita Lisauskas, em 13 de março de 2015, 08:17am.

Carolina Ferraz, foto do Instagram da atriz.


Oi Carolina, tudo bem com você?

Fiquei sabendo pelos jornais e revistas que você está grávida aos 46 anos e queria te dar os parabéns. A gente não se conhece, mas temos algo em comum: fizemos tratamento para engravidar.Hoje em dia a ciência permite que o que antes era impossível aconteça. Eu sou grata à medicina por ter conseguido realizar meu sonho de ser mãe mesmo tendo um problema seriíssimo nas trompas.

Mas não é por isso que te escrevo, não. Li que você descartou, em entrevista, ter um parto humanizado dizendo não “ter essa coisa filosófica” e que, por isso, vai ter seu filho no hospital. A expressão “humanizado” tem sido usada indiscriminadamente e virado erroneamente sinônimo de parto em casa. Mas humanizado é muito mais que isso, viu? Segundo o dicionário Aurélio, humanizar é “tornar-se humano, adoçar, suavizar, civilizar, compadecer-se”. E muitos hospitais, nas últimas décadas, têm praticado o oposto disso. Acredito, inclusive, que as mulheres voltaram a ter seus filhos em casa por causa dessas (más) práticas. Mas isso é assunto para outro post.

Queria te falar um pouquinho nesta carta sobre o parto humanizado. Começo afirmando que ele pode sim ser feito também no hospital. Basta que você encontre uma equipe médica que respeite suas vontades e o tempo do seu bebê (confesso que essa é a parte difícil, mas não impossível. Se você se ler bastante sobre o assunto e tiver sempre em mente que bebês sabem nascer e que mulheres sabem parir, o seu médico não poderá nunca te convencer do contrário). Não deixe que ninguém diga que por ter 46 anos você não pode ter um parto normal e humanizado. Se sua gravidez estiver evoluindo bem, como parece ser o caso, seu filho pode vir ao mundo da forma mais humana possível.

As mulheres que procuram um parto normal humanizado querem apenas o que na maioria dos países de primeiro mundo é básico: que o bebê nasça no tempo dele e não do médico (que muitas vezes não quer ser acordado de madrugada e nem incomodado aos fins-de-semana). Querem escolher a posição de parto (parir deitada e com as pernas para cima daquele jeito das novelas é quase impossível, sabia?). Querem ter o direito de tomar (ou não) a anestesia, não querem ser cortadas “para ajudar o bebê a passar” e querem gritar e gemer sem ouvir o clássico machista: “na hora de fazer não doeu, né?” Elas querem também que seus bebês sejam trazidos imediatamente para o peito em vez de serem aspirados, limpos ou pesados (aconchego da mãe é melhor e mais importante que ir direto para uma balança gelada, né não?). Essas mães desejam também que os médicos esperem alguns minutos para cortar o cordão umbilical porque sabem que o sangue que está lá pertence ao bebê e pode garantir que ele não tenha anemia nos primeiros seis meses de vida. Querem poder regular a luz, já que o bebê está há 9 meses em um útero escuro, escolher uma música tranquila (nada como uma trilha sonora para estrear nesse mundo, hein?) e que o bebê não seja carregado como um frango no abatedouro e nem leve um tapinha na bunda para chorar. (A gente precisa nascer apanhando e chorando?). Ou seja, o parto humanizado não é nada demais considerando que o corpo é da mulher e que o bebê também é dela, não acha?

É claro que você pode considerar que nada disso é importante, é um direito seu. É claro que você pode achar que nascendo bem, tendo os olhos e nariz nos lugares certos, está de bom tamanho. Sem dúvida. Seu corpo, seu filho, suas regras. Mas eu achei que devia dividir algumas coisas que aprendi com você. É essa a conversa que eu tenho com todas as minhas amigas grávidas. Claro que não somos amigas, mas sabe como é: a gente vê a pessoa na TV durante tantos anos que se sente próxima. E é em nome dessa simpatia que nutro por você que desejo do fundo do coração que você tenha uma boa hora e que seu filho nasça com muita saúde e paz.

Abraços,

Rita.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Sistema de Saúde em países onde a maioria dos partos é normal - quem presta o cuidado?

Quer entender como funciona sistema de saúde em países em que os partos são a maioria normais e quem presta o cuidado na gestação, parto e pós-parto são as parteiras?

Assista a primeira reportagem sobre o tema no SBT!

Clique no link abaixo para assistir:
http://www.sbt.com.br/jornalismo/noticias/50115/Maioria-dos-bebes-nasce-de-parto-normal-do-Reino-Unido.html#.VQAvkPnF8WL

quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Metade das 826 operadoras de plano de saúde existentes no Brasil têm taxas de cirurgia cesariana para nascimentos acima de 90% em nosso país.

92 delas tiveram 100% de nascimentos via cesariana em 2013.


Agora me digam: vocês acham isso realmente normal? Acham que realmente não há algum ou vários interesses comerciais por trás disso? Acham realmente que isso é o melhor para as gestantes e bebês? Que isso não é uma epidemia e que não é um problema de saúde pública? E que o Ministério da Saúde e a ANS não tem que olhar melhor o que está havendo?

Leia a reportagem completa aqui:

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Tabu alimenta 'epidemia' de cesáreas no Brasil

Por: Mariana Della Barba, da BBC Brasil em São Paulo
Em: 21 janeiro 2015


"Uma vez cesárea, sempre cesárea." A frase, dita pelo pesquisador Edwin Cragin, em 1916, era para alertar seus colegas obstetras sobre o risco de se fazer uma cesárea e sobre como deveriam evitá-la, especialmente em mulheres grávidas pela primeira vez.

Hoje, 99 anos depois, ela continua, segundo especialistas, sendo tirada de contexto e usada para alimentar o tabu de que mulheres não poderiam ter um parto normal se já tiverem passado por uma cesárea.

Em um país como o Brasil, que tem o mais alto índice de cesarianas do planeta, essa concepção tem um impacto ainda maior, alimentando o que o Ministério da Saúde considera uma "epidemia" que já faz com que 84% dos partos na rede privada sejam cesáreas (na rede pública, é de 40%), enquanto o recomendado pela OMS é de 15%.

Embora tenha índices mais baixos que os brasileiros, os Estados Unidos também enfrentam desafios semelhantes para baixar do patamar de 32,8% de cesáreas, já que muitas das razões que fizeram esse índice subir por lá são as mesmas que temos aqui.


Um desses pontos em comum é justamente o tabu do parto normal após cesárea ou VBAC - sigla em inglês para Vaginal Birth after Cesarean Section (parto vaginal após uma cesárea), que também é usada no Brasil.


Proibido

O estudo "Listening to Mothers" (Ouvindo as Mães), feito com mais de 2.400 grávidas nos EUA pela organização Childbirth Connection, concluiu que muitas das cesáreas estavam ligadas ao acesso restrito ao VBAC.

"É claro que aumentar as expectativas (de que sempre é possível um VBAC) não é algo saudável para as mulheres", afirmou à BBC Brasil Carol Sakala, doutora em saúde pública e bem-estar materno da ChildBirth Connection. "Mas é completamente inaceitável que não se discuta a possibilidade de um VBAC com as mães. É inaceitável pressionar uma mulher a ter outra cesárea desnecessária diante da quantidade de evidências que temos hoje mostrando que VBACs podem ser seguros."

Carol ressalta que o estudo mostrou ainda que entre mulheres com cesáreas anteriores, quase a metade (48%) estava interessada em um parto normal, mas 46% tiveram essa opção negada. Em 24% dos casos, isso ocorreu por relutância do médico e, em 15%, os hospitais em que elas dariam à luz simplesmente não faziam VBACs.


'Fui chamada de louca'

Foi exatamente esses empecilhos que a enfermeira e professora da Universidade Federal de Brasília (UnB) Mônica Chiodi de Campos enfrentou ao ter seus três primeiros filhos - todos por cesárea - até conseguir ter seu quarto filho por parto normal, um VBA3C.

"Me colocaram todo o tipo de barreira possível. Foi muito difícil encontrar uma equipe para me auxiliar no parto. Fui chamada de louca por muita gente", conta.

"Na minha primeira gravidez, minha bolsa rompeu com 38 semanas e passei por uma cesárea de urgência. No meu segundo filho, meu ginecologista da época já me despejou a famosa 'uma vez cesárea, sempre cesárea', e assim foi. Na terceira gestação, achei que seria diferente, mas, ao ser atendida na maternidade por uma médica plantonista e por ter duas cesáreas, minha sentença já estava decretada."

A enfermeira conta que, quando engravidou pela quarta vez, encontrou um médico que, depois de muita insistência, topou lhe acompanhar. "Durante a gestação, pesquisamos muito sobre VBA3C, que ele nunca tinha feito. Há pouca literatura sobre isso no Brasil."

"Sofri muita pressão, mas me mantive firme. É claro que, se houvesse qualquer problema, faria uma cesárea. Mas meu parto foi ótimo e meu filho (que tem 3 meses) é super saudável. Ao saber da história, várias mulheres me procuraram, pedindo dicas de VBAC. Muitas nem sabiam que podiam fazer parto normal depois de uma cesárea."


Terrorismo

Para a obstetra e professora da UFSCar Carla Andreucci Polido, aos poucos as brasileiras estão indo atrás de informações sobre esse procedimento, mas ela acredita que ainda haja muito "terrorismo" sobre risco de rotura uterina após cesarianas.

Segundo Carla, estudos mostram que o sucesso de um VBAC após duas cesáreas pode ultrapassar 70% e que a segunda, terceira ou quarta cesarianas têm riscos de complicações semelhantes à prova de trabalho de parto após cesariana.

Já para o ginecologista Etelvino Trindade, presidente da Federação Brasileira de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), o risco de rotura uterina é preciso estar bem claro para a mãe, já que se isso ocorre há chances de morrerem mãe e bebê.

Os dois médicos, no entanto, concordam que ampliar a discussão sobre o VBAC é um dos caminhos para se combater a alta incidência de cesáreas no Brasil.

"Entender que é uma possibilidade segura é uma constatação especialmente digna de nota em nosso país", afirmou Carla, em relação ao fato de Brasil ter a maior taxa de cesáreas do mundo. "Isso porque é cada vez mais provável que mulheres já cheguem aos obstetras com cicatrizes uterinas anteriores."


Tudo online

Mas como fazer para que o número de partos normais após cesáreas entre as brasileiras se eleve?

Se formos novamente comparar nosso cenário com o americano, vale considerar algumas medidas que elevaram a taxa de VBACs de 8,3% em 2007 para 10,2% em 2012.

As principais iniciativas vêm de organizações independentes, que divulgam informações sobre o procedimento, auxiliam grávidas interessadas no tema e publicam na internet taxas de VBACs de milhares de hospitais e médicos país afora.

Sites como o CalQualityCare comparam os índices em todas as cidades da Califórnia. O site VBACfinder também faz um levantamento na maioria dos Estados americanos. Outra fonte é o e-book Vaginal Birth Bans in America: The Insanity of Mandatory Surgery, que traz um mapa interativo com hospitais que não atendem mulheres com cesáreas prévias que querem tentar um parto normal.


É ou não cesarista?

No Brasil, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) deu recentemente um primeiro passo nessa direção.

Uma das resoluções para estimular o parto normal e reduzir as cesarianas na rede privada (que atende hoje 23,7 milhões de brasileiras) prevê que as mulheres possam solicitar aos planos de saúde os porcentuais de cirurgias cesáreas e de partos normais por estabelecimento de saúde e por médico. O dado deve estar disponível em 15 dias, sob pena de multa de R$ 25 mil.

A medida foi criticada por algumas classes médicas, que consideram essa uma invasão na autonomia do médico.


"Invasão é quando uma mulher é cortada sem necessidade", afirma Carol Sakala, da ChildBirth Connection. "E a autonomia deveria estar com a mulher. Sempre que são publicados os dados sobre os procedimentos usados no parto, isso sempre melhora a situação e o atendimento de mães e bebês"

Para Carol, seria ainda mais útil se as barreiras fossem eliminadas, e os dados estivessem à disposição para todos online, sem a necessidade de pedir para o plano de saúde e esperar.

Segundo a ANS, essa possibilidade está sendo estudada para o futuro.

No entanto Trindade, da Febrasgo, diz que sua preocupação é com o fato de o médico poder ficar "estigmatizado" ao ver sua taxa de cesáreas se tornar pública.

"A percepção das taxas pode ficar enviesada e ter distorções, no caso de um médico especialista em casos complicados, de alto risco (que podem ser indicação de cesárea). Ele pode ser chamado de cesarista, como costumam dizer. E isso é incômodo para alguns", afirma o ginecologista, em referência a como são chamados médicos com altíssimos níveis de cesarianas.

Karla Coelho, gerente de assistência à saúde da ANS, rebate essa opinião, dizendo não creditar que haja médicos com 80% de casos complicados. "Isso é uma reversão da lógica. Não se pode banalizar essa discussão."

Trindade atribui a alta incidência de cesáreas, em parte, ao temor dos médicos brasileiros de serem processados.

"Os médicos estão mais reticentes em querer assumir um risco maior", disse, acrescentando que um congresso em março vai discutir medidas para se reduzir as cesáreas e apontar propostas.


Questionado se essas propostas não deveriam estar sendo feitas há anos, ele afirmou que "muitos médicos estão em sua zona de conforto e, embora concordem que é preciso reduzir as cesáreas, não se preocupam muito com isso".

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Como a analgesia pode aliviar as dores do parto


Quem foi que disse que parto tem que ser com dor? Muitas mulheres não esperam nem entrar em trabalho de parto e agendam suas cesáreas com medo da tal temida ‘dor do parto’. Mas, essa dor é tão forte assim? Como saber se vai suportar sem antes sentir de fato as contrações? Parto humanizado não significa que você não pode, por exemplo, pedir uma analgesia para aliviar a dor.

O médico anestesista Carlos Eduardo da Costa Martins explica que a analgesia é uma grande aliada para ter um parto “sem dor”. Martins diz que ela pode ser aplicada durante o início do trabalho de parto ou até mesmo no final, dependendo da vontade da mulher.

As dosagens, detalha o médico, são controladas pelo profissional de acordo com cada fase do parto.

O médico explica que é colocado um cateter na paciente e que o anestesista fica administrando as soluções analgésicas conforme a necessidade e aumento da dor da parturiente. Ou seja, depois que é acionado, o anestesista também fica ao lado da mulher o tempo todo sendo que às vezes o trabalho pode ser rápido ou levar várias horas. Atualmente, no entanto, isso só é possível na rede particular de saúde já que na rede pública não há um anestesista para cada paciente.

“Não há uma receita de bolo quando se fala em analgesia. Varia de acordo com o momento e da intensidade da dor que passa a paciente. Damos a dose necessária e suficiente”, explica.

O médico comenta que cerca de 80% das pacientes pedem analgesia quando estão entre quatro e oito centímetros de dilatação. Mas, segundo ele, muitas pedem ainda no início do trabalho de parto e outras só no expulsivo [momento do nascimento do bebê].

Para tomar a analgesia, explica o médico, a mulher precisa estar com contrações seriadas e, é claro, com dor. Ele comenta que a interferência do anestesista tem que ser mínima para que a mulher continue a se mexer durante o trabalho de parto, ou seja, a gestante pode continuar se movimentando, ficar de cócoras ou achar a melhor posição para poder ter seu bebê.  Mesmo com a analgesia, se for corretamente administrada, a parturiente consegue andar, agachar e, é claro, sentir as contrações.

A obstetriz Ana Cristina Duarte explica que a maioria das mulheres é bastante tolerante às dores das contrações, afinal, as  dores são como a onda do mar, ou seja, elas vem e vão e tem parturientes que chegam a dormir entre uma contração e outra.

“No final do trabalho de parto as dores tendem a se intensificar e, nessa hora, pode entrar a analgesia se esse for o desejo da paciente”, comenta a obstetriz.

Foi o caso da jornalista Marcella Chartier, tomou analgesia quando já estava com oito centímetros de dilatação. Ela conta que planejava um parto domiciliar, mas foi transferida para o hospital para aliviar a dor depois de várias horas em trabalho de parto. “Tomei a analgesia e consegui relaxar e parir”, conta. Segundo Marcella, foi possível sentir as contrações e se movimentar. “Assim que tomei a analgesia caminhei pelos corredores do hospital”, conta Marcella, que teve seu bebê em maio de 2012 em uma maternidade particular de São Paulo.

Marcella diz que se pudesse dar um conselho para as mulheres que têm medo da dor do parto é que elas aguentam. “Acho que vivemos em uma sociedade que atrela a dor a doença, mas a dor do parto não é assim. É a natureza trabalhando. pra depois não sentirmos mais nada. As mulheres que têm medo da dor eu diria que elas dão conta, como eu dei, até o momento que pedi a analgesia. É um recurso possível”, comenta.

Nada impede, no entanto, que a mulher receba a analgesia com poucos centímetros de dilação, como  Silvana Paiva Barreto, 32, tomou a analgesia quando estava com apenas três centímetros de dilatação – para parir a mulher precisa ter 10 centímetros de dilatação. Ela conta que a bolsa rompeu de manhã e que à noite estava com apenas um centímetro de dilatação.

“Meu trabalho de parto não evoluía e comecei a sentir medo das contrações, além de estar cansada. Não queria tomar analgesia”, diz.

Silvana conta que na hora sentiu muito alívio e que conseguiu relaxar e descansar e só então o trabalho de parto evoluiu. Como a dosagem é ministrada pelo anestesista, ela tomou novamente uma analgesia quando estava com 6 centímetros de dilatação. “Meu bebê nasceu de cócoras, pude sentir as contrações, mas sem dor. Foi tudo muito calmo e tranquilo, inclusive, o expulsivo”, diz.

Silvana, que teve uma cesárea no primeiro filho, desta vez pariu e foi até a cama andando e com o bebê no colo. “A impressão que tenho é que a analgesia me ajudou a encontrar o equilíbrio, a relaxar e o trabalho de parto evoluir”, comenta sobre o parto de Joaquim, que aconteceu em março deste ano.


Sempre recomendo que as mulheres esperem entrar em trabalho de parto e sintam que dor é essa. Se ela for maior do que o esperado, que peçam analgesia”, comenta.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

terça-feira, 3 de junho de 2014

A quem interessa as cesarianas? E os ataques à Fiocruz?



Não sou mulher, não sou médico, mas como pai de dois filhos nascidos de parto normal (o segundo, aliás, de parto natural) vou entrar no mérito da cesariana vs parto normal. Até porque não se trata apenas de um debate de saúde. Recentemente o colunista da Veja, Rodrigo Constantino publicou uma coluna dedicada ao tema (http://veja.abril.com.br/blog/rodrigo-constantino/saude/e-preciso-fazer-uma-cesariana-para-extirpar-o-comunismo-da-fiocruz/). Nesta coluna o autor além de deferir ataques à Fiocruz, divulga trechos de uma suposta carta da Associação de Ginecologia e Obstetrícia do Rio de Janeiro também questionando a fundação e defendendo o altíssimo índice na realização de cesarianas no Brasil.

Por parte da Fiocruz, queria deixar claro, até mesmo como trabalhador da Fundação, que temos um espaço aberto e plural de pesquisa, que tem como intuito a promoção da saúde, o desenvolvimento social, como toda instituição pública relacionada à pesquisa deveria ser. O nosso histórico na área de luta contra as desigualdades sociais, a qualidade de vida da população brasileira e em defesa do Sistema Único de Saúde nos coloca hoje como a mais destacada instituição de ciência e tecnologia em saúde da América Latina. Ao se tratar, da questão da saúde pública, e, mais especialmente a saúde da mulher, tão cara nos tempos atuais onde ainda encontramos a questão de gênero pouco debatida, a Fiocruz tem caminhado para suprir esta disparidade.

Trabalha-se com o imaginário na saúde, hoje, de forma invertida. Quando tratamos a saúde da mulher durante a gestação e na hora do parto, essa inversão fica ainda mais evidente. Quantas mulheres, grávidas, iniciam o seu pré-natal dispostas a fazer o parto normal, a parir, e são convencidas ao longo dos meses a fazer a cesariana? Afinal, a quem interessa as cesarianas?

As mulheres têm, sim, direito de escolher. Seus corpos, suas regras. Mas para isso precisam estar munidas de informação e as instituições de saúde necessitam estar preparadas para assistir às mulheres em suas escolhas. Portanto, não podemos ignorar o que as corporações médicas têm feito desse assunto. A falta de informação, ou a informação manipulada pelas instituições de saúde têm grande responsabilidade nisso.

Há indicações claras, complicações na gravidez e no parto para a realização de cesariana. Temos que ser responsáveis com isso. Mas, a quem interessam a cesarianas? Recentemente, a Fiocruz divulgou a pesquisa “Nascer no Brasil”. Os resultados mostram que o número de cesarianas aumentou quase quatro vezes desde a década de 1970, atingindo 52% do total de partos em 2010. Na rede privada, o número é impressionante: 88%. Impressionante, aliás, quando se sabe que a Organização Mundial de Saúde sugere que esse número seja, no máximo de 15%! A OMS realiza estudos mundiais para chegar a esse percentual. Assim como, no Brasil, a Fiocruz, que é renomada instituição de pesquisa, independente e de referência nacional e internacional em saúde pública, dedicou-se, tecnicamente, a conhecer os motivos que levam as gestantes a se submeterem à cesariana, o quadro de nascimentos prematuros no país e as consequências dos tipos de parto - normal e cesariana - sobre a saúde da mulher e do recém-nascido.

Aprendi, quando estava grávido, no mundo de gestantes, puérperas, doulas, parteiras, filhos e médicos que circular de cordão (cordão umbilical enrolado no pescoço do bebê) não é motivo para cesariana; que a anestesia e outras intervenções têm seus prós mas também seus contras; que o bebê dá os sinais de que está pronto para nascer e que não deve ser arrancado da barriga se não há indicações clínicas para isso... E vivenciei, com minha companheira e meus filhos, a diferença entre um parto normal com intervenções e um parto natural, com o bebê vindo ao mundo da forma natural, humana, como deve ser. Não senti as dores do parto, mas via nas expressões dela que não eram fáceis. E vi na força dela, na bravura dela e dos bebês que vir ao mundo deve ser assim. O parto é normal, nascer é normal, não é um ato cirúrgico.

A mim interessa o parto normal, sem a violência que muitas vezes é cometida contra mães e bebês, sem a lógica hospitalizante, fria e de consumo em saúde que hoje as corporações médicas, o complexo médico-hospitalar e essa sociedade injusta e desigual impõem.


Flavio Serafini é professor da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV-Fiocruz)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Nos tornamos cegos para os riscos de ter filhos por cesariana



Os hospitais prestam a assistência médica e tratamento necessários para mulheres que se deparam com dificuldades no parto. Mas muitas mulheres e bebês têm a intervenção médica sem uma boa razão. Nós nos tornamos cegos para os riscos de algumas intervenções comumente utilizadas e a importância do parto natural para um bom começo de vida. Nós nos tornamos cegos para os riscos de ter filhos por cesariana.

Em vez disso, somos cada vez mais levados a acreditar que só é seguro para dar à luz em um hospital e rodeada por médicos.

A cada ano, menos da metade das mulheres grávidas no Reino Unido conseguem ter um parto natural, sem intervenções. E apenas 42% dos nascimentos na Inglaterra e Escócia acontecem sem uma indução, anestesia peridural, raquidiana ou assistido por fórceps ou ventosa (extração a vácuo). Um quarto dos bebês nascidos no Reino Unido são nascidos por cesárea.

No Brasil o cenário é ainda pior, a taxa de cesárea no Brasil é a maior do mundo, 44%. A Organização Mundial da Saúde estabelece que apenas 15% dos partos podem ser operatórios. Os partos vaginais são recheados de intervenções e os partos naturais no Brasil são minoria.

São estes níveis de intervenção justificáveis? Há grandes variações no número de intervenções entre os diferentes hospitais na Inglaterra, o que sugere que nem todos estes podem sempre justificados pela necessidade clínica ou demográfica.

Intervenções aparentemente inócuas, como por exemplo o clampeamento do cordão umbilical imediatamente após o nascimento, as quais eram realizadas rotineiramente são agora comprovadamente prejudiciais. Há evidências de que atrasar clampeamento do cordão umbilical pode prevenir a deficiência de ferro e melhorar o desenvolvimento a longo prazo do bebê.

Intervenções médicas, sobretudo cesarianas, também carregam riscos significativos. Para a mãe os riscos incluem hemorragia, infecção, embolia e trombose. Para o bebê, pode levar a dificuldades respiratórias, problemas pulmonares, prematuridade causada pela operação que está sendo realizada cedo demais e dificuldade com a ligação e amamentação.

Outros problemas podem ser fatais para a mãe e o bebê em gestações subseqüentes. Recentemente, foi relatado que um número significativo de cesarianas eletivas estão previstas, sem uma necessidade médica, e, ainda mais preocupante, realizado antes das 39 semanas, apesar das evidências de que um bebê pode não estar pronto para a vida fora do útero antes dessa idade gestacional.

Nascimento em 37-38 semanas pode significar pior saúde a longo prazo e os resultados do desenvolvimento, tais como problemas respiratórios graves, por esses bebês do que para aquelas realizadas após as 39 semanas.

Na maioria dos casos, o parto natural é a maneira mais segura e saudável de ter filhos e, por isso, deve ser estimulado por meio de uma assistência humanizada, segura e de qualidade. A cesárea deve ser uma opção somente quando o parto normal ou natural oferecer risco de vida ao bebê e à gestante, que precisa ser informada sobre as razões que a impedem de optar pelo parto normal.


Por que as taxas de intervenções são tão altas?

Há muitas explicações - e muitas mais perguntas - sobre por que temos esses altos níveis de intervenção.

Os profissionais inclinam-se para abordagens médicas, porque eles não sabem ou não aceitam a evidência do equilíbrio, ou seja, o balanço entre os benefícios e os riscos de intervenções. Isso seria um reflexo da fé de uma sociedade em tecnologia e tratamento médico, uma perda das habilidades na obstetrícia, da confiança e da autonomia, ou é a dificuldade em reunir e interpretar as evidências sobre temas complexos que são confundidos por muitos fatores diferentes?

É claro que precisamos de chegar a um equilíbrio mais sensato. Uma intervenção muitas vezes leva a outra. A mulher que teve uma cesariana é mais provável que precise de uma repetição do que aquela que teve um primeiro parto normal. A indução do trabalho de parto é mais susceptível de conduzir a cesariana do que aquela mulher que entrou em trabalho de parto espontâneo e uma epidural aumenta a necessidade de parto instrumental e da necessidade de cesariana. A monitorização contínua do coração do feto em trabalho de parto é mais susceptível de conduzir a uma cesariana em gestações de baixo risco, sem evidências de que isso leva a uma melhor saúde para o bebê.

Mas, na realidade, não são as mulheres que estão empurrando os níveis crescentes de intervenção. Escolher ter um parto natural nem sempre é fácil, especialmente quando os serviços de saúde não as orientam corretamente. É comum ver relatos de médicos e parteiras que "burlam" as mulheres e as induzem a fazer o que não querem para eles e para seus bebês. Esse é, talvez, um indicador da diferença entre a política e a prática em algumas circunstâncias. Suporte para parto normal e evitar intervenções desnecessárias agora é visto por muitos como uma questão de direitos humanos.

Existem muitas evidências de estudos internacionais demonstrando que o cuidado liderado por parteiras, sem o envolvimento médico - a menos que seja necessário - leva a um aumento na taxa de parto normal, a redução nas grandes intervenções e mais satisfação relatadas no atendimento.


Um grande estudo recente comparou o cuidado da parteira em diferentes contextos, tais como partos domiciliares ou centros de parto do hospital com cuidados obstétricos (médicos) em gestações de baixo risco, na Inglaterra. Os resultados demonstraram que as mulheres com gestações não complicadas que planejam o seu nascimento com cuidado de uma parteira têm menos intervenções e o parto ocorre de maneira igualmente segura. Os resultados suportam a política de oferecer às mulheres saudáveis, a escolha do local para dar à luz.

No entanto, o cuidado por parteiras está disponível apenas para uma pequena proporção de mulheres no Reino Unido e um número ainda menor para as mulheres brasileiras. Para aumentar o número de partos normais é preciso ampliar o acesso às parteiras e informações de alta qualidade e oferecer verdadeiramente o direito de escolha do local de nascimento do bebê, para as gestantes de baixo risco. Precisamos também de assegurar o apoio pessoal adequado (como o acompanhamento de uma doula, por exemplo) e o uso de intervenções somente quando necessário, garantindo às mulheres que precisam de cuidados médicos que elas tenham a atenção médica de que necessitam.

Fonte: