quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Eu não tive dilatação

Por AnaCris Duarte.

"Levanta o mouse para cada vez que você ouviu essa frase, e também se você a proferiu. Não, esquece, você deve ter outras coisas a fazer depois de algumas horas levantando o mouse sem parar.

Vamos aos chocantes fatos: não existe falta de dilatação. Mas por favor, antes que você comece a ranger dentes e ficar com os olhos vermelhos de ódio, leia esse texto até o fim. Se sobrar alguma dúvida ou restar a discordância, conversemos com amor!

A dilatação do colo do útero é um processo passivo que ocorre quando as contrações encurtam as fibras musculares do útero, empurrando o bebê para baixo e puxando o colo para cima. Essas contrações, uma após a outra, vão puxando o colo de tal forma contra a cabeça do bebê, que é como se ele estivesse vestindo uma blusa de gola muito apertada. Cada vez que o útero contrai no trabalho de parto, a gola veste mais um pedaço de milímetro de sua cabecinha.

A contração passa, o colo relaxa, mas não volta a fechar o que já abriu. Na contração seguinte, é puxado mais um pouco. Lá pelas tantas o colo "veste" toda a cabeça do bebê, em seu maior diâmetro. Essa é a "dilatação total", e nessa hora o colo do útero tem aproximadamente 10 cm de diâmetro. 

Porque então tantas mulheres (especialmente as usuárias do serviço privado) têm tantos problemas de dilatação? Bem, existem algumas causas, vamos a elas:

1) Se a mulher não entrar em trabalho de parto e não ficar em trabalho de parto, ela obviamente não terá dilatação (a não ser que tenha uma patologia que a faça dilatar precocemente). Portanto quando a mulher vai na consulta de 38, 39 semanas, e o obstetra diz que ela não tem dilatação, o certo seria responder: "Claro, doutor, se eu estivesse em trabalho de parto eu saberia".

2) O trabalho de parto é caracterizado por contrações espontâneas de 3 em 3 minutos (aproximadamente), que duram de 1 minuto a 90 segundos. Em outras palavras, quando a mulher fica 12 horas "em trabalho de parto", com contrações a cada 10 minutos, isso não era trabalho de parto. Isso eram os pródromos, o princípio, a fase de instalação do processo do parto.

3) Tem mulher que demora mais para entrar em trabalho de parto efetivo, e pode ficar 2 ou 3 dias com contrações ritmadas, mas que não chegam a engrenar nos 3 em 3 minutos. É preciso muita paciência e muita doula para lidar com essa longa latência, mas o fato é que uma hora ela vai entrar em trabalho de parto.

4) Quando a bolsa se rompe e não há dilatação, é necessário esperar. Após longa espera, é possível se induzir o parto. Uma indução bem feita (preparação do colo com prostaglandinas e posterior aumento da dinâmica com ocitocina) pode levar 48 horas facilmente. Nem todo serviço e nem todo obstetra está disposto a ficar 48 horas induzindo um parto.

5) Ocitocina aplicada numa mulher sem dilatação só faz provocar contrações dolorosas, intensas, e que não fazem o colo do útero dilatar. Muitas vezes essa é a "técnica de convencimento" que alguns profissionais usam para a mulher desistir do parto normal e pedir uma cesárea pelo amor de Deus.

6) Dependendo do estado de tensão da mulher, ela pode bloquear a dilatação ou ter um processo muito lento, absurdamente lento. Para essas mulheres, a analgesia de parto normal (peridural ou combinada, raqui não) pode ser um tremendo alívio e não foram poucas as vezes que vi mulheres estacionadas nos 3 ou 4 ou 5 cm há muitas horas evoluírem para parto espontâneo apenas duas horas após analgesia. E se duvidam, posso indicar um anestesista com quem trabalho e que já testemunhou inúmeros casos assim, para explicar como isso funciona.

7) Em dez anos trabalhando semanalmente com três equipes que têm 10% de cesarianas, mais de 400 mulheres atendidas por mim quando era doula, além das centenas atendidas por elas em que eu não estava presente, mas sim outras doulas, eu nunca vi uma cesariana feita por falta de dilatação. Nunca! Nos 10% de cesarianas em trabalho de parto entraram basicamente: estresse fetal antes da dilatação total ou desproporção céfalo-pélvica. Em outras palavras, as poucas cesarianas feitas antes da dilatação total foram feitas porque o bebê se cansou e não dava mais para esperar terminar o processo de dilatação, sob risco dessa espera fazer mal ao bebê.

8) Para chegar de fato nos dois últimos centímetros de dilatação e atingir a tal  "dilatação total", o bebê já tem que estar descendo através da bacia pélvica. Por isso, nos casos em que há a verdadeira desproporção céfalo-pélvica, a mulher dilata até 8-9 cm. Talvez esse último centímetro que falta jamais venha a ser vencido. Após todas as tentativas de ajudar o nascimento, às vezes com algumas intervenções, pode ser que o bebê de fato não passe pela bacia pélvica, e nesse caso a cesariana seja feita quando a dilatação estacionou nos 8-9 cm.

9) A dilatação não é um processo simétrico. Ela depende da posição da cabeça do bebê. Normalmente o último centímetro a abrir está à frente da cabeça do bebê, próximo ao osso púbico materno, internamente. A esse último centímetro chamamos de "rebordo de colo" ou "rebordo anterior". Com paciência, esse último centímetro desaparecerá, e o bebê nascerá. Às vezes pode ser preciso ou pode ser útil abreviar o tempo do parto reduzindo-se esse último centímetro com um exame de toque. Isso se chama "redução do colo". É um processo doloroso, que deve ser evitado a todo custo, se possível.

10) A única coisa que pode impedir um colo de dilatar é um tumor grave no tecido. Tirando essa situação, todas as mulheres irão dilatar, se tiverem os recursos, tempo e equipe necessários.

Para aguardar que todas as mulheres dilatem, precisamos ter disponíveis profissionais bem dispostos, sem pressa, com repertório, incluindo parteiras, doulas, obstetras, anestesistas e pediatras. É preciso haver recursos completos para alívio da dor como ambiente agradável, bola, banqueta, banheira, chuveiro, massagem, alimentos, conforto para os acompanhantes, etc. E por fim, é preciso ter disponível analgesia de boa qualidade para as poucas mulheres que necessitam."




terça-feira, 25 de junho de 2013

Sobre parto domiciliar


"Tenho uma genuína comiseração e tristeza pelos meus colegas médicos que nunca tiveram a oportunidade (ou o desejo) de participar de uma festa de vida como um parto domiciliar. Enquanto a ciência contemporânea derruba as últimas resistências e mitos contrários ao nascimento em casa, muitos ainda continuam agarrados aos seus preconceitos e sua visão mitológica do parto. Mesmo quando as evidências gritam a todo instante em seus ouvidos informações sobre a segurança superior do parto domiciliar, eles ainda insistem em negar às mulheres o direito a uma assistência qualificada nesse momento especial. Sentir na pele a emoção de um nascimento em paz é uma experiência única, e eu lamento por aqueles que, mesmo estando tão próximos da magia e do mistério do nascimento, preferem olhar para o lado, e ocupar-se somente da patologia. O belo, o divino e o magnífico aparecem de uma forma resplandecente nos nascimentos em paz, e aqueles com olhos de ver e ouvidos de ouvir permitem-se contaminar pelo júbilo e pela alegria que deles emana."

(Ricardo Herbert Jones - Obstetra)


sexta-feira, 31 de maio de 2013

Nos tornamos cegos para os riscos de ter filhos por cesariana



Os hospitais prestam a assistência médica e tratamento necessários para mulheres que se deparam com dificuldades no parto. Mas muitas mulheres e bebês têm a intervenção médica sem uma boa razão. Nós nos tornamos cegos para os riscos de algumas intervenções comumente utilizadas e a importância do parto natural para um bom começo de vida. Nós nos tornamos cegos para os riscos de ter filhos por cesariana.

Em vez disso, somos cada vez mais levados a acreditar que só é seguro para dar à luz em um hospital e rodeada por médicos.

A cada ano, menos da metade das mulheres grávidas no Reino Unido conseguem ter um parto natural, sem intervenções. E apenas 42% dos nascimentos na Inglaterra e Escócia acontecem sem uma indução, anestesia peridural, raquidiana ou assistido por fórceps ou ventosa (extração a vácuo). Um quarto dos bebês nascidos no Reino Unido são nascidos por cesárea.

No Brasil o cenário é ainda pior, a taxa de cesárea no Brasil é a maior do mundo, 44%. A Organização Mundial da Saúde estabelece que apenas 15% dos partos podem ser operatórios. Os partos vaginais são recheados de intervenções e os partos naturais no Brasil são minoria.

São estes níveis de intervenção justificáveis? Há grandes variações no número de intervenções entre os diferentes hospitais na Inglaterra, o que sugere que nem todos estes podem sempre justificados pela necessidade clínica ou demográfica.

Intervenções aparentemente inócuas, como por exemplo o clampeamento do cordão umbilical imediatamente após o nascimento, as quais eram realizadas rotineiramente são agora comprovadamente prejudiciais. Há evidências de que atrasar clampeamento do cordão umbilical pode prevenir a deficiência de ferro e melhorar o desenvolvimento a longo prazo do bebê.

Intervenções médicas, sobretudo cesarianas, também carregam riscos significativos. Para a mãe os riscos incluem hemorragia, infecção, embolia e trombose. Para o bebê, pode levar a dificuldades respiratórias, problemas pulmonares, prematuridade causada pela operação que está sendo realizada cedo demais e dificuldade com a ligação e amamentação.

Outros problemas podem ser fatais para a mãe e o bebê em gestações subseqüentes. Recentemente, foi relatado que um número significativo de cesarianas eletivas estão previstas, sem uma necessidade médica, e, ainda mais preocupante, realizado antes das 39 semanas, apesar das evidências de que um bebê pode não estar pronto para a vida fora do útero antes dessa idade gestacional.

Nascimento em 37-38 semanas pode significar pior saúde a longo prazo e os resultados do desenvolvimento, tais como problemas respiratórios graves, por esses bebês do que para aquelas realizadas após as 39 semanas.

Na maioria dos casos, o parto natural é a maneira mais segura e saudável de ter filhos e, por isso, deve ser estimulado por meio de uma assistência humanizada, segura e de qualidade. A cesárea deve ser uma opção somente quando o parto normal ou natural oferecer risco de vida ao bebê e à gestante, que precisa ser informada sobre as razões que a impedem de optar pelo parto normal.


Por que as taxas de intervenções são tão altas?

Há muitas explicações - e muitas mais perguntas - sobre por que temos esses altos níveis de intervenção.

Os profissionais inclinam-se para abordagens médicas, porque eles não sabem ou não aceitam a evidência do equilíbrio, ou seja, o balanço entre os benefícios e os riscos de intervenções. Isso seria um reflexo da fé de uma sociedade em tecnologia e tratamento médico, uma perda das habilidades na obstetrícia, da confiança e da autonomia, ou é a dificuldade em reunir e interpretar as evidências sobre temas complexos que são confundidos por muitos fatores diferentes?

É claro que precisamos de chegar a um equilíbrio mais sensato. Uma intervenção muitas vezes leva a outra. A mulher que teve uma cesariana é mais provável que precise de uma repetição do que aquela que teve um primeiro parto normal. A indução do trabalho de parto é mais susceptível de conduzir a cesariana do que aquela mulher que entrou em trabalho de parto espontâneo e uma epidural aumenta a necessidade de parto instrumental e da necessidade de cesariana. A monitorização contínua do coração do feto em trabalho de parto é mais susceptível de conduzir a uma cesariana em gestações de baixo risco, sem evidências de que isso leva a uma melhor saúde para o bebê.

Mas, na realidade, não são as mulheres que estão empurrando os níveis crescentes de intervenção. Escolher ter um parto natural nem sempre é fácil, especialmente quando os serviços de saúde não as orientam corretamente. É comum ver relatos de médicos e parteiras que "burlam" as mulheres e as induzem a fazer o que não querem para eles e para seus bebês. Esse é, talvez, um indicador da diferença entre a política e a prática em algumas circunstâncias. Suporte para parto normal e evitar intervenções desnecessárias agora é visto por muitos como uma questão de direitos humanos.

Existem muitas evidências de estudos internacionais demonstrando que o cuidado liderado por parteiras, sem o envolvimento médico - a menos que seja necessário - leva a um aumento na taxa de parto normal, a redução nas grandes intervenções e mais satisfação relatadas no atendimento.


Um grande estudo recente comparou o cuidado da parteira em diferentes contextos, tais como partos domiciliares ou centros de parto do hospital com cuidados obstétricos (médicos) em gestações de baixo risco, na Inglaterra. Os resultados demonstraram que as mulheres com gestações não complicadas que planejam o seu nascimento com cuidado de uma parteira têm menos intervenções e o parto ocorre de maneira igualmente segura. Os resultados suportam a política de oferecer às mulheres saudáveis, a escolha do local para dar à luz.

No entanto, o cuidado por parteiras está disponível apenas para uma pequena proporção de mulheres no Reino Unido e um número ainda menor para as mulheres brasileiras. Para aumentar o número de partos normais é preciso ampliar o acesso às parteiras e informações de alta qualidade e oferecer verdadeiramente o direito de escolha do local de nascimento do bebê, para as gestantes de baixo risco. Precisamos também de assegurar o apoio pessoal adequado (como o acompanhamento de uma doula, por exemplo) e o uso de intervenções somente quando necessário, garantindo às mulheres que precisam de cuidados médicos que elas tenham a atenção médica de que necessitam.

Fonte:

sexta-feira, 29 de março de 2013

Qualquer forma de violência é condenável, por Ana Cristina Duarte


Qualquer forma de violência é condenável.

Uma das piores formas de violência que eu conheço é a violência obstétrica, pelas seguintes razões:

- Atinge dois seres que estão vulneráveis, e ao mesmo tempo: a mãe e o bebê. Às vezes atinge também o acompanhante, em geral o pai do bebê.

- É perpetrada por um grupo que tem o domínio (equipe profissional) em seu próprio campo de batalha (o hospital, a sala de parto).

- Muitas vezes não tem testemunha (a equipe se cala, o acompanhante muitas vezes foi impedido de assistir o parto).

- Não é reconhecida pela sociedade, que entende que os profisssionas sempre estavam fazendo o seu melhor e que provavelmente a mulher é quem não colaborou/se comportou.

- Tem quase 100% de impunidade, pois as poucas denúncias caem no buraco negro dos conselhos profissionais e sindicâncias intermináveis.

- Pode causar graves sequelas físicas e psicológicas e, em raros casos, a morte.

- Atinge um número absurdo de mulheres em nosso país, se considerarmos todas as suas formas. Podemos estar chegando perto de 100% de mulheres que foram ou serão submetidas à violência obstétrica durante seus partos.



São atos de violência obstétrica:

- Impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua preferência, familiar ou de seu círculo social.

- Tratar uma mulher em trabalho de parto de forma agressiva, não empática, grosseira, zombeteira ou de qualquer forma que a faça se sentir mal pelo tratamento recebido.

- Tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e nomes infantilizados e diminutivos, tratando-a como incapaz.

- Submeter a mulher a procedimentos dolorosos desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos pubianos, posição ginecológica com portas abertas.

- Impedir a mulher de se comunicar com o “mundo exterior”, tirando-lhe a liberdade de telefonar, usar celular, caminhar até a sala de espera etc.

- Fazer graça ou recriminar por qualquer característica ou ato físico como, por exemplo, obesidade, pelos, estrias, evacuação etc.

- Fazer graça ou recriminar por qualquer comportamento como gritar, chorar, ter medo, vergonha etc.

- Dar bronca, ameaçar, chantagear ou cometer assédio moral com qualquer mulher/casal por qualquer decisão que ela possa ter tomado, quando essa decisão for contra as crenças, fé ou valores morais de qualquer pessoa da equipe, por exemplo: não ter feito ou ter feito inadequadamente o pré natal, ter muitos filhos, ser mãe jovem (ou o contrário), ter tido ou tentado um parto em casa, ter tido ou tentado um parto desassistido, ter tentado ou ter efetuado um aborto, ter atrasado a ida ao hospital, não ter informado qualquer dado, seja intencional, seja involuntariamente.

- Fazer qualquer procedimento sem explicar antes o que é, por que está sendo oferecido e, acima de tudo, SEM PEDIR PERMISSÃO.

- Submeter a mulher a mais de um exame de toque (ainda assim quando estritamente necessário), especialmente por mais de um profissional, e sem o consentimento, mesmo que para ensino e treinamento de alunos.

- Dar hormônios para tornar mais rápido e intenso um trabalho de parto que está evoluindo normalmente.

- Cortar a vagina (episiotomia) da mulher quando não há necessidade (discute-se a real necessidade em mais que 5 a 10% dos partos).

- Dar um ponto na sutura final da vagina de forma a deixá-la menor e mais apertada para aumentar o prazer do cônjuge (“ponto do marido”).

- Subir na barriga da mulher para expulsar o feto (manobra de Kristeler).

- Submeter a mulher e/ou o bebê a procedimentos feitos exclusivamente para treinar estudantes e residentes.

- Permitir a entrada de pessoas estranhas ao atendimento para “ver o parto”, quer sejam estudantes, residentes ou profissionais de saúde, principalmente sem o consentimento prévio da mulher e de seu acompanhante com a chance clara e justa de dizer não.

- Fazer uma mulher acreditar que precisa de uma cesariana quando ela não precisa, utilizando de riscos imaginários ou hipotéticos não comprovados (o bebê é grande, a bacia é pequena, o cordão está enrolado).

- Submeter uma mulher a uma cesariana desnecessária, sem a devida explicação dos riscos que ela e seu bebê estão correndo (complicações da cesárea, da gravidez subsequente, risco de prematuridade do bebê, complicações a médio e longo prazo para mãe e bebê).

- Submeter bebês saudáveis à aspiração de rotina, injeções e procedimentos na primeira hora de vida, antes que tenham sido colocados em contato pele a pele e de terem tido a chance de mamar.

- Separar bebês saudáveis de suas mães sem necessidade clínica.

Se você, mulher, foi submetida a qualquer um desses atos de violência, denuncie. Não permita que a violência se perpetue. Será necessário que milhares de mulheres se ergam e digam basta, até que as mulheres parem de sofrer. O parto é um momento de alegria, de prazer. A dor fisiológica é suportável. Mas a dor da violência, essa pode se tornar insuportável e deixar profundas marcas.



Para denunciar:

1) Exija seu prontuário no hospital (ele é um documento seu, que fica depositado no hospital, mas as cópias devem ser entregues sem questionamento e custos).

2) Escreva uma carta contando em detalhes que tipo de violência você sofreu e como se sentiu.

—> Se o seu parto foi no SUS, envie a carta para a Ouvidoria do Hospital com cópia para a Diretoria Clínica, para a Secretaria Municipal de Saúde e para a Secretaria Estadual de Saúde.

—> Se o seu parto foi em hospital da rede privada, envie sua carta para a Diretoria Clínica do Hospital, com cópia para a Diretoria do seu Plano de Saúde, para a ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar) e para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Existem outras instâncias de denúncia, dependendo da gravidade da violência recebida, mas um advogado deveria ser consultado.

(1 de março de 2013)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Um bebê saudável não é a única coisa que importa


Esse texto foi traduzido pela Clarissa Oliveira e postado em http://amaequequeroser.wordpress.com/2013/02/10/um-bebe-saudavel-nao-e-o-bastante/


"Venho sofrendo com uma questão que se tornou dolorosamente pessoal para mim: por que tantas mulheres, tantas amigas, aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir, desistem de lutar contra o sistema e se tornam mais uma contribuinte à vergonhosa estatística de parto do nosso país?

Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (se bem que as masoquistas estão na moda, né? :-P). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.

Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência  diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.

E é por isso que quero compartilhar esse texto maravilhoso com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu."



Um bebê saudável não é a única coisa que importa - 
por Cristen Pascucci


Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é a única coisa que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.

Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.

O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.

Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?

É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de  respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.

Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.

Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”

Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.

Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.

Sabe aqueles vídeos e explicações sobre sua escolha por um parto humanizado, os quais você fica como louca buscando?

ESTÃO AQUI:


http://alaya77.blogspot.com.br/p/videos-documentarios-e-reportagens.html?showComment=1361459656790


Uma super compilação com várias das pessoas que a gente considera como líderes, como aqueles que nos ensinam, apoiam, orientam, que dão exemplo!

Não deixe de visitar!!!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Morte por cesariana desnecessária


Da obstetra Carla Andreucci Polido, sobre a morte por cesariana desnecessária.

"Morte materna é um fato incontestável. Perdemos mais uma brasileira, sem riscos anteriores, submetida a uma cesariana eletiva por "circular de cordão", que desenvolveu uma trombose intestinal no pós operatório.

Cesariana é uma grande cirurgia, com todas as grandes implicações que isso representa. Realizá-la sem indicação clínica é submeter a mulher e a criança a riscos desnecessários, por mais avançada que seja nossa medicina.

Há necessidade de melhora de nossa assistência obstétrica, fato incontestável. Mas essa melhora precisa passar pela qualificação da assistência ao parto normal em primeiro lugar.

Chega de operar todo mundo por comodidade dos serviços ou dos profissionais, ou mesmo das famílias.

Vamos voltar a fazer obstetrícia de verdade, com toda a tecnologia incorporada à prática, sempre que realmente necessária.

Essa é a evolução da ciência.

Assim salvamos vidas."

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Cesariana Humanizada




O problema de expressões como “cesariana humanizada” ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais "humanizada", pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não existe "apendicectomia humanizada", “histerectomia humanizada”, ou qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo é do médico, e não da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica, não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos, e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas.

O parto, pelo contrário, é ATIVO. É algo que a mulher FAZ, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa (bio-psico-social-emocional-espiritual) e a vinculação com a medicina baseada em evidências.

Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido quando está focado no bem estar das pessoas. Veja bem, até a biblioteca Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Eu escrevi um capítulo no meu segundo livro só para tratar desse tema, pois acredito que as nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o individualismo - mesmo com sua tendência egocêntrica - é o único anteparo que temos à barbárie. Com a ideia SEMPRE PRESENTE de que CADA MULHER É DIFERENTE DA OUTRA fica impossível dizer "eu jamais faria isso". No que concerne a um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por uma cesariana "sem andar 100 km dentro dos seus mocassins", assim como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão BEM ESPECÍFICA E RARA, realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.

A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano, expresso no nascimento, as posturas "fechadas" como "eu sempre" ou "eu nunca" acabam se tornando slogans do passado, um pouco cafonas, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da sabedoria que vem com o amadurecimento.

Quando defendo o arrefecimento das posturas radicais, não o faço pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que as ideias de nada valem sem as pessoas.

E só pode ser para elas, em sua característica única, a nossa atenção.

De: Ricardo Herbert Jones

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Exame de toque em todas as consultas de pré-natal???


Estão me perguntando se há evidência justificando o EXAME DE TOQUE em TODAS as consultas pré-natais.

Bom, eu imagino que ninguém em sã consciência vá conduzir um ECR tão maluco, tocando sistematicamente (ou não) da primeira à última consulta...

... mas temos uma revisão sistemática da Cochrane avaliando o exame cervical repetido (traduzindo: pelo toque) para identificar mulheres de risco para parto prematuro:


E A CONCLUSÃO FOI QUE NÃO EXISTEM EVIDÊNCIAS PARA CORROBORAR ESSA PRÁTICA.

Espero que daqui para a frente os Comitês de Ética em Pesquisa rejeitem outros estudos semelhantes, mesmo em populações de risco para prematuridade, uma vez que já dispomos de estratégias efetivas para determinar risco de parto prematuro e sua prevenção nessas mulheres.

Pronto, passa para a próxima pergunta!

Por. Dra Melania Amorim

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

APOIO CONTÍNUO PARA MULHERES DURANTE O NASCIMENTO


Como o pretexto agora é que as referências sobre apoio contínuo intraparto e presença de doulas não podem ser aceitas no Brasil porque estão em inglês, estou caridosamente disponibilizando em primeira mão a tradução do artigo que escrevi com Leila Katz para a Biblioteca de Saúde Reprodutiva da ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Em português agora, eu lhes apresento:

APOIO CONTÍNUO PARA MULHERES DURANTE O NASCIMENTO

Em comparação com os cuidados usuais, providenciar apoio contínuo intraparto aumenta a chance de parto vaginal espontâneo, reduz a duração do trabalho e o uso de analgesia e reduz a incidência de cesariana e parto instrumental. Adicionalmente, menos bebês nascem com escore de Apgar menor que 7 no 5º. minuto e mães expressam maior satisfação com a experiência do nascimento.

Comentário para a Biblioteca de Saúde Reprodutiva da Organização Mundial da Saúde por Amorim MMMR e Katz L

1. INTRODUÇÃO
Historicamente e através das culturas, mulheres têm parido em casa e sido atendidas e apoiadas por outras mulheres durante o trabalho de parto e o parto (1). No entanto, atualmente a maioria das mulheres em muitos países dão à luz em hospitais, onde o trabalho de parto e o parto são considerados eventos médicos, sendo as mulheres em trabalho de parto tratadas como pacientes (2,3). Como conseqüência, o apoio contínuo intraparto recebido pelas mulheres no passado está sendo perdido (4,5).

Nos anos recentes, tanto mulheres e movimentos sociais como os gestores de saúde têm clamado não somente por tornar mais natural o nascimento, mas também por apoio um para um por e para mulheres durante o trabalho de parto. Em resposta a esse clamor, modificações da prática têm ocorrido e o parceiro, membros da família ou amigos têm tido a sua participação permitida durante o nascimento, mesmo em locais institucionais como as salas de trabalho de parto e parto (6). Os defensores da presença de familiares e amigos durante o trabalho de parto e o nascimento defendem que essas pessoas podem providenciar apoio contínuo intraparto.. Por outro lado, alguns profissionais de saúde têm questionado se membros leigos da família ou da comunidade podem ajudar as mulheres em trabalho de parto a lidar com a dor e a ansiedade relacionadas com o nascimento (7). A presente revisão sistemática da Biblioteca Cochrane (8) teve por objetivo avaliar os efeitos do apoio contínuo um a um intraparto em comparação com os cuidados usuais.

2. MÉTODOS DA REVISÃO 
Os autores da revisão procuraram o Registro Cochrane do Grupo de Gestação e Nascimento em busca de estudos sem aplicar qualquer restrição de linguagem. Os critérios de seleção para incluir estudos nessa revisão foram ensaios clínicos randomizados comparando apoio contínuo intraparto fornecido por um familiar ou uma pessoa de fora da família (com ou sem qualificação profissional na área de saúde) com os cuidados usuais. Mulheres grávidas em trabalho de parto foram as participantes dos estudos. Em todos os casos, “cuidados usuais”não envolveram o apoio contínuo intraparto mas poderiam ter incluído outras medidas, como uso rotineiro de analgesia peridural para alívio da dor durante o trabalho de parto.

Os desfechos maternos primários foram qualquer analgesia/anestesia (medicação para dor), uso de ocitocina sintética durante o trabalho de parto, parto vaginal espontâneo, depressão pós-parto e sensaçãos negativas ou pontuação negativa sobre a experiência de parto. Os desfechos neonatais primários foram admissão em enfermaria de cuidados especiais e amamentação com 1-2 meses pós-parto. Os desfechos secundários foram eventos intraparto (analgesia regional/anestesia, duração do trabalho de parto, dor grave durante o trabalho de parto, nascimento por cesariana, parto vaginal instrumental, trauma perineal (episiotomia ou laceração requerendo sutura), baixo escore de Apgar com 5 minutos e hospitalização neonatal prolongada, maternagem difícil e baixa autoestima no período pós-parto.

Um modelo de metanálise com efeito fixo de Mantel-Haenszel foi usado para combinar dados e uma análise com modelo randômico foi adotada para comparações em que houve elevada heterogeneidade. Nos casos em que ocorreu elevado risco de viés associado com a qualidade dos ensaios clínicos incluídos, análise de sensibilidade foi realizada para os desfechos primários. Análises de subgrupo incluíram a conduta do serviço referente à presença de acompanhante, disponibilidade de analgesia peridural, protocolo de monitoração eletrônica fetal de rotina e variações nas características do provedor.

3. RESULTADOS DA REVISÃO
Um total de 21 ensaios clínicos envolvendo 15.061 mulheres foram incluídos. Os ensaios clínicos tinham sido conduzidos sob diversas condições, regulamentos e rotinas hospitalares. Houve notável uniformidade na descrição do apoio contínuo intraparto em todos os ensaios clínicos, e em todos eles a intervenção incluiu apoio um a um continuo ou praticamente contínuo, pelo menos durante a fase ativa do trabalho de parto. Os autores da revisão classificaram a qualidade dos ensaios clínicos como geralmente boa a excelente. 

Dezenove dos 21 ensaios clínicos incluíram menção específica de toque confortador e uso de palavras de elogio e incentivo pelo provedor do apoio. Em 11 ensaios clínicos a presença do parceiro ou outros membros da família foi permitida, mas nos 10 outros ensaios clínicos nenhum apoio adicional foi permitido. Analgesia peridural estava disponível de rotina em 14 ensaios clínicos e monitoração eletrônica fetal foi usada de rotina em nove deles. Não foi possível comparar os efeitos do apoio contínuo intraparto de acordo com a fase do trabalho de parto (latente ou ativa). Os indivíduos que promoveram o apoio contínuo intraparto variaram em termos de sua experiência de cuidadores do nascimento, suas qualificações e a sua relação com as mulheres em trabalho de parto. Eles poderiam ser parte da equipe hospitalar (como obstetrizes, estudantes de Obstetrícia ou enfermeiras) ou poderiam ser outras mulheres ou não-membros da equipe hospitalar, com ou sem treinamento especial (como doulas ou mulheres que tinham dado à luz anteriormente).

As mulheres alocadas para receber apoio intraparto contínuo tiveram maior chance de ter parto vaginal espontâneo [risco relativo (RR) 1,08, intervalo de confiança (IC) a 95%=1,04 – 1,12) e menor chance de receber analgesia de parto (RR=0,90, IC 96%=0,84 – 0,97) ou relatar insatisfação (RR=0,69, IC 95%=0,59 – 0,79). Além disso, elas tiveram menor duração do trabalho de parto (diferença média de -0,58 horas, IC 95%= -0,86 – -0,30), menor chance de serem submetidas a cesariana (RR=0,79; IC 95%=0,67 – 0,92) ou terem parto instrumental (RR=0,90; IC 95%=0,84 – 0,96), analgesia regional (RR=0,93; IC 95%=0,88 – 0,99) ou um bebê com escore de Apgar baixo no quinto minuto (RR=0,70; IC 95%=0,50-0,96). Não houve nenhum efeito aparente em intervenções intraparto como uso de ocitocina, problemas maternos (trauma perineal grave, dor grave durante o trabalho de parto, maternagem difícil baixa autoestima pós-parto e depressão pós-parto), outras complicações neonatais (admissão em enfermaria de cuidados especiais e hospitalização prolongada) ou amamentação com 1-2 meses pós-parto.

A análise de subgrupo sugeriu que o apoio contínuo intraparto foi mais efetivo quando fornecido por uma mulher que não era nem parte da equipe hospitalar nem pertencia à rede social da parturiente. Também foi mais efetivo em locais onde a analgesia peridural não estava rotineiramente disponível. Não foi possível realizar a análise planejada de subgrupo baseada no tempo de início do apoio intraparto.

4. DISCUSSÃO

4.1. Aplicabilidade dos resultados
Os benefícios do apoio contínuo in traparto em termos de desfechos maternos e perinatais são claros, como demonstrado por essa Revisão Sistemática Cochrane, e são consistentes em todos os ensaios clínicos em todos os lugares, apesar das diferenças nas rotinas obstétricas, protocolos hospitalares e condições e qualificações dos indivíduos que forneceram o apoio. Quando apoio contínuo intraparto é fornecido, as mulheres têm mais partos vaginais espontâneos, menor duração do trabalho de parto, menor uso de analgesia de parto, menor taxa de cesarianas e partos instrumentais e menos bebês com baixos escores de Apgar no quinto minuto. Além disso, as mulheres expressam mais satisfação com a experiência de nascimento.

Embora seja virtualmente impossível determinar a forma “ideal” de apoio contínuo intraparto, os benefícios parecem ser maiores quando o apoio contínuo intraparto é fornecido por uma doula. O apoio fornecido por doulas leigas está associado com redução da duração do trabalho de parto e maiores escores de Apgar no quinto minuto. Por outro lado, qualquer cuidador contínuo não pertencente à equipe institucional (amigos, membros da família ou o pai do bebê) podem fornecer apoio intraparto com redução do uso de analgesia e de partos operatórios. 

4.2. Implementação da intervenção
Todos os hospitais devem implementar programas que oferecem apoio contínuo para mulheres durante o trabalho de parto. A presença de um acompanhante da própria escolha da mulher deve ser permitida e encorajada. Uma alternativa para isso pode ser a integração de doulas em maternidades para a prestação de apoio contínuo a mulheres durante do trabalho de parto. Doulas são mulheres leigas que receberam treinamento especial para fornecer apoio não médico para mulheres e famílias durante o trabalho de parto, nascimento e período pós-parto (7,9). Formuladores de políticas e administradores devem reconhecer que os melhores desfechos são alcançados quando o apoio intraparto contínuo é fornecido por prestadores que não fazem parte da equipe da instituição, especialmente doulas. Isso é particularmente importante quando os formuladores de políticas de saúde desejam reduzir taxas elevadas de cesariana em seus hospitais ou países. 

Os custos dos serviços de doulas, quando disponíveis, são geralmente repassados para a família da mãe. Esses custos poderiam ser uma barreira para a prestação de apoio contínuo intraparto. Considerando todas as vantagens e os possíveis custos mais baixos para o sistema de saúde associados com a presença de doulas (menor chance de cesarianas e de uso de analgesia), os formuladores de políticas de saúde deveriam considerar cobrir os custos dos serviços de doulas. Programas para treinamento e acreditação de doulas deveriam estar disponíveis em todas as regiões do país. Cursos e programas para treinamento de doulas comunitárias podem ser oferecidos por hospitais públicos e serviços primários de saúde.

4.3. Implicações para pesquisa

Agora que os benefícios do apoio contínuo intraparto em termos de desfechos maternos e perinatais em curto prazo estão bem estabelecidos, estudos ulteriores devem investigar os efeitos do apoio contínuo durante o período pós-parto, bem como o seu impacto em desfechos maternos e infantis em longo prazo. Esses desfechos devem incluir, mas não devem se restringir às causas de morbidade materna, como incontinência urinária e fecal, dispareunia, dor perineal prolongada e depressão. A pesquisa no futuro também deve abranger algumas possíveis vantagens do apoio contínuo, como maior facilidade no estabelecimento de vínculo entre mãe e bebê e amamentação em longo prazo. 

Estudos comparando diferentes modelos de treinamento de provedores para o apoio contínuo intraparto devem ser realizados, e comparações dos serviços de doulas comunitárias ou doulas oferecidas pelo hospital ou doulas privadas também podem ser realizadas. Todos esses estudos devem incluir análises econômicas de custos e benefícios.

Referências

1. Rosenberg K, Trevathan W. Birth, obstetrics and human evolution. BJOG 2002;109(11):1199-1206.
2. Davis-Floyd RE, Sargent CF. Childbirth and authoritative knowledge: cross-cultural perspectives. University of California Press; 1997:505.
3. McCool WF, Simeone SA. Birth in the United States: an overview of trends past and present. The Nursing clinics of North America 2002;37(4):735-746.
4. Kitzinger S. Birth your way. New York; NY: DK Adult; 2002:208.
5. Davis-Floyd RE. Birth as an American rite of passage: second edition. University of California Press; 2004:424.
6. Davis-Floyd RE, Barclay L, Tritten J, Daviss B-A, eds. Birth models that work. Berkeley, CA: University of California Press; 2009:496.
7. Stuebe AM, Barbieri RL. Continuous intrapartum support. Uptodate. 2012. Available at:
http://www.uptodate.com/contents/continuous-intrapartum-support?source=search_result&search=doulas&selectedTitle=1%7E6#H10. Accessed March 20, 2012.
8. Hodnett ED, Gates S, Hofmeyr GJ, Sakala C, Weston J. Continuous support for women during childbirth. Cochrane Database of Systematic Reviews 2011;Issue 2. Art. No.: CD003766; DOI: 10.1002/14651858.CD003766.pub3.
9. Kayne MA, Greulich MB, Albers LL. Doulas: an alternative yet complementary addition to care during childbirth. Clinical Obstetrics and Gynecology. 2001;44:692-703.
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Este documento deve ser citado como: Amorim MMR and Katz L. Continuous support for women during childbirth: RHL commentary (last revised: 1 May 2012). The WHO Reproductive Health Library; Geneva: World Health Organization.

POR: Dra. Melania Amorim