segunda-feira, 7 de abril de 2014
segunda-feira, 30 de dezembro de 2013
MITOS E FATOS - Tabus associados ao PARTO
"Mitos e Fatos. São poucos os fatos da vida envoltos
em tanto mistério, medos e tabus quanto o parto. Talvez nem o sexo tenha sido
tão mistificado, alguém aqui já ouviu falar de quem tenha medo de morrer de
sexo? Ou de ter falta de líquido, cordão enrolado, bacia estreita para o sexo?
Quem já esteve grávida fartou-se de ouvir de amigos,
parentes, conhecidos e até de desconhecidos sobre os grandes perigos do parto.
Todo mundo tem uma história trágica a contar. São tantas histórias dramáticas
que não consigo entender como é que as nossas cidades não estão povoadas de
pessoas lesadas, paralisadas, ressecadas e enroladas em cordões assassinos! Sem
contar nas mulheres alargadas e com incontinência urinária no último grau.
Qual é a grávida que não foi parada pela manicure, pela
cobradora do ônibus, pela cunhada da prima da vizinha para ouvir uma história
tenebrosa sobre o bebê que bebeu água do parto, que chorou na barriga, que fez
cocô no líquido amniótico, que secou de tanto que passou da hora, que tinha 30
voltas de cordão no pescoço, que teve um parto seco, que teve um fórceps tão
forte que lhe afundou o crânio de lado a lado?
Se você está grávida e se a sua barriga já aparece,
certamente você já ouviu uma história dessas e não gostou nada dos pulos que
seu coração deu. Pensando em ajudar as mulheres que se encontram nessa
situação, aqui vão algumas dicas para ajudar a desmistificar os "grandes
perigos" que as cercam quanto mais o parto se aproxima.
*** MITO: Falta de Dilatação ***
EXPLICAÇÃO - Muitas mulheres hoje em dia dizem que não
conseguiram ter um parto porque tiveram falta de dilatação.
FATOS - Tecnicamente não existe falta de dilatação em
mulheres normais. Ela só não acontece quando o médico não espera o tempo
suficiente. A dilatação do colo do útero é um processo passivo que só acontece
com as contrações uterinas.
*** MITO: Bacia Estreita ***
EXPLICAÇÃO - Uma mulher com bacia estreita não teria
espaço para a passagem do bebê
FATOS - Existem situações não muito comuns em que um bebê
é grande demais para a bacia da mulher, ou então está numa posição que não
permite seu encaixe. Não mais que 5% dos partos estariam sujeitos a essa
condição. Além disso, tecnicamente é impossível saber se o bebê não vai passar
enquanto o trabalho de parto não acontecer, a dilatação chegar ao máximo e o
bebê não se encaixar.
*** MITO: Parto Seco ***
EXPLICAÇÃO - Um parto depois que a bolsa rompeu seria uma
tortura de tão doloroso.
FATOS - A verdade é que depois que a bolsa rompe o
líquido amniótico continua a ser produzido, e a cabeça do bebê faz um efeito de
"fechar" a saída, de modo que o líquido continua se acumulando no
útero. Além disso o colo do útero produz muco continuamente que serve como um
lubrificante natural para o parto.
*** MITO: Parto Demorado ***
EXPLICAÇÃO - Um bebê estaria correndo riscos porque o
parto foi/está sendo demorado.
FATOS - Na verdade o parto nunca é rápido demais ou
demorado demais enquanto mãe e bebê estiverem bem, com boas condições vitais, o
que é verificado durante o trabalho de parto. Um parto pode demorar 1 hora como
pode demorar 3 dias, o mais importante é um bom atendimento por parte da equipe
de saúde. O que dá à equipe as pistas sobre o bebê são os batimentos cardíacos.
Enquanto eles estiverem num padrão tranquilizador, então o parto está no tempo
certo para aquela mulher.
*** MITO: Bebê passou da hora ***
EXPLICAÇÃO - O bebê teria como uma "data de
validade" após a qual ele ficaria doente
FATOS - Os bebês costumam nascer com idades gestacionais
entre 37 e 42 semanas. Mesmo depois das 42 semanas, se forem feitos todos os
exames que comprovem o bem estar fetal, não há motivos para preocupação. O
importante é o bom pré-natal. Caso os exames apontem para uma diminuição da
vitalidade, a indução do parto pode ser uma ótima alternativa.
*** MITO: Cordão Enrolado ***
EXPLICAÇÃO - A explicação é de que o bebê iria se
enforcar no cordão umbilical
FATOS - O cordão umbilical é preenchido por uma gelatina
elástica, que dá a ele a capacidade de se adaptar a diferentes formas. O
oxigênio vem para o bebê através do cordão direto para a corrente sanguínea.
Assim, o bebê não pode sufocar.
*** MITO: Não entrou/não teve trabalho de parto ***
EXPLICAÇÃO - A idéia aqui é de que a mulher em questão
tem uma falha que a impede de entrar em trabalho de parto
FATOS - A verdade é que toda mulher entra em trabalho de
parto, mais cedo ou mais tarde. Ela só não vai entrar em trabalho de parto se a
operarem antes disso.
*** MITO: Não tem dilatação no final da gravidez ***
EXPLICAÇÃO - A explicação é que o médico fez exame de
toque com 38/39 semanas e diz que a mulher não vai ter parto porque não tem
dilatação nenhuma no final da gravidez.
FATOS - Tecnicamente uma mulher pode chegar a 42 semanas
sem qualquer sinal, sem dilatação, sem contrações fortes, sem perder o tampão e
de uma hora para outra entrar em trabalho de parto e dilatar tudo o que é
necessário. É impossível predizer como vai ser o parto por exames de toque
durante a gravidez.
*** MITO: Placenta envelhecida ***
EXPLICAÇÃO - A placenta ficaria tão envelhecida que não
funcionaria mais e colocaria em risco a vida do bebê
FATOS - O exame de ultra-som não consegue avaliar
exatamente a qualidade da placenta. A qualidade da placenta isoladamente não
tem qualquer significado. Ela só tem significado em conjunto com outros
diagnósticos, como a ausência de crescimento do bebê, por exemplo. A maioria
das mulheres têm um "envelhecimento" normal e saudável de sua
placenta no final da gravidez. Só será considerado anormal uma placenta com
envelhecimento precoce, por exemplo, com 30 semanas de gravidez.
Curiosamente, a amamentação também tem uma maravilhosa
lista de mitos e lendas, sempre no sentido de diminuir a confiança da mãe em
sua capacidade. Se você conhece algum mito interessante do parto ou da
amamentação que queira nos contar, nós poderemos incluir neste quadro!
Aproveite agora para cuidar de você e do seu bebê. Não deixe que os pessimistas
de plantão estraguem esse maravilhoso momento da vida de vocês."
Por Ana Cristina Duarte, obstetriz.
Para o site do Parto do Princípio - Mulheres em Rede pela
Maternidade Ativa
Marcadores:
Bacia estreita,
Bebê passou da hora,
Circular de Cordão,
Explicação,
Fato,
Mito,
Não entrei em trabalho de parto,
Não tive dilatação,
Parto Seco,
Placenta Velha
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
Eu não tive dilatação
Por AnaCris Duarte.
"Levanta o mouse para cada vez que você ouviu essa frase, e também se você a proferiu. Não, esquece, você deve ter outras coisas a fazer depois de algumas horas levantando o mouse sem parar.
"Levanta o mouse para cada vez que você ouviu essa frase, e também se você a proferiu. Não, esquece, você deve ter outras coisas a fazer depois de algumas horas levantando o mouse sem parar.
Vamos aos chocantes fatos: não existe falta de dilatação.
Mas por favor, antes que você comece a ranger dentes e ficar com os olhos
vermelhos de ódio, leia esse texto até o fim. Se sobrar alguma dúvida ou restar
a discordância, conversemos com amor!
A dilatação do colo do útero é um processo passivo que
ocorre quando as contrações encurtam as fibras musculares do útero, empurrando
o bebê para baixo e puxando o colo para cima. Essas contrações, uma após a
outra, vão puxando o colo de tal forma contra a cabeça do bebê, que é como se
ele estivesse vestindo uma blusa de gola muito apertada. Cada vez que o útero
contrai no trabalho de parto, a gola veste mais um pedaço de milímetro de sua
cabecinha.
A contração passa, o colo relaxa, mas não volta a fechar
o que já abriu. Na contração seguinte, é puxado mais um pouco. Lá pelas tantas
o colo "veste" toda a cabeça do bebê, em seu maior diâmetro. Essa é a
"dilatação total", e nessa hora o colo do útero tem aproximadamente
10 cm de diâmetro.
Porque então tantas mulheres (especialmente as usuárias
do serviço privado) têm tantos problemas de dilatação? Bem, existem algumas
causas, vamos a elas:
1) Se a mulher não entrar em trabalho de parto e não
ficar em trabalho de parto, ela obviamente não terá dilatação (a não ser que
tenha uma patologia que a faça dilatar precocemente). Portanto quando a mulher
vai na consulta de 38, 39 semanas, e o obstetra diz que ela não tem dilatação,
o certo seria responder: "Claro, doutor, se eu estivesse em trabalho de
parto eu saberia".
2) O trabalho de parto é caracterizado por contrações
espontâneas de 3 em 3 minutos (aproximadamente), que duram de 1 minuto a 90
segundos. Em outras palavras, quando a mulher fica 12 horas "em trabalho
de parto", com contrações a cada 10 minutos, isso não era trabalho de
parto. Isso eram os pródromos, o princípio, a fase de instalação do processo do
parto.
3) Tem mulher que demora mais para entrar em trabalho de
parto efetivo, e pode ficar 2 ou 3 dias com contrações ritmadas, mas que não
chegam a engrenar nos 3 em 3 minutos. É preciso muita paciência e muita doula
para lidar com essa longa latência, mas o fato é que uma hora ela vai entrar em
trabalho de parto.
4) Quando a bolsa se rompe e não há dilatação, é
necessário esperar. Após longa espera, é possível se induzir o parto. Uma
indução bem feita (preparação do colo com prostaglandinas e posterior aumento
da dinâmica com ocitocina) pode levar 48 horas facilmente. Nem todo serviço e
nem todo obstetra está disposto a ficar 48 horas induzindo um parto.
5) Ocitocina aplicada numa mulher sem dilatação só faz
provocar contrações dolorosas, intensas, e que não fazem o colo do útero
dilatar. Muitas vezes essa é a "técnica de convencimento" que alguns
profissionais usam para a mulher desistir do parto normal e pedir uma cesárea
pelo amor de Deus.
6) Dependendo do estado de tensão da mulher, ela pode
bloquear a dilatação ou ter um processo muito lento, absurdamente lento. Para
essas mulheres, a analgesia de parto normal (peridural ou combinada, raqui não)
pode ser um tremendo alívio e não foram poucas as vezes que vi mulheres
estacionadas nos 3 ou 4 ou 5 cm há muitas horas evoluírem para parto espontâneo
apenas duas horas após analgesia. E se duvidam, posso indicar um anestesista
com quem trabalho e que já testemunhou inúmeros casos assim, para explicar como
isso funciona.
7) Em dez anos trabalhando semanalmente com três equipes
que têm 10% de cesarianas, mais de 400 mulheres atendidas por mim quando era
doula, além das centenas atendidas por elas em que eu não estava presente, mas
sim outras doulas, eu nunca vi uma cesariana feita por falta de dilatação.
Nunca! Nos 10% de cesarianas em trabalho de parto entraram basicamente:
estresse fetal antes da dilatação total ou desproporção céfalo-pélvica. Em
outras palavras, as poucas cesarianas feitas antes da dilatação total foram
feitas porque o bebê se cansou e não dava mais para esperar terminar o processo
de dilatação, sob risco dessa espera fazer mal ao bebê.
8) Para chegar de fato nos dois últimos centímetros de
dilatação e atingir a tal "dilatação total", o bebê já tem que
estar descendo através da bacia pélvica. Por isso, nos casos em que há a
verdadeira desproporção céfalo-pélvica, a mulher dilata até 8-9 cm. Talvez esse
último centímetro que falta jamais venha a ser vencido. Após todas as
tentativas de ajudar o nascimento, às vezes com algumas intervenções, pode ser
que o bebê de fato não passe pela bacia pélvica, e nesse caso a cesariana seja
feita quando a dilatação estacionou nos 8-9 cm.
9) A dilatação não é um processo simétrico. Ela depende
da posição da cabeça do bebê. Normalmente o último centímetro a abrir está à
frente da cabeça do bebê, próximo ao osso púbico materno, internamente. A esse
último centímetro chamamos de "rebordo de colo" ou "rebordo
anterior". Com paciência, esse último centímetro desaparecerá, e o bebê
nascerá. Às vezes pode ser preciso ou pode ser útil abreviar o tempo do parto
reduzindo-se esse último centímetro com um exame de toque. Isso se chama
"redução do colo". É um processo doloroso, que deve ser evitado a
todo custo, se possível.
10) A única coisa que pode impedir um colo de dilatar é
um tumor grave no tecido. Tirando essa situação, todas as mulheres irão
dilatar, se tiverem os recursos, tempo e equipe necessários.
Para aguardar que todas as mulheres dilatem, precisamos
ter disponíveis profissionais bem dispostos, sem pressa, com repertório,
incluindo parteiras, doulas, obstetras, anestesistas e pediatras. É preciso
haver recursos completos para alívio da dor como ambiente agradável, bola,
banqueta, banheira, chuveiro, massagem, alimentos, conforto para os
acompanhantes, etc. E por fim, é preciso ter disponível analgesia de boa qualidade
para as poucas mulheres que necessitam."
terça-feira, 25 de junho de 2013
Sobre parto domiciliar
"Tenho uma genuína comiseração e tristeza pelos meus
colegas médicos que nunca tiveram a oportunidade (ou o desejo) de participar de
uma festa de vida como um parto domiciliar. Enquanto a ciência contemporânea
derruba as últimas resistências e mitos contrários ao nascimento em casa,
muitos ainda continuam agarrados aos seus preconceitos e sua visão mitológica
do parto. Mesmo quando as evidências gritam a todo instante em seus ouvidos
informações sobre a segurança superior do parto domiciliar, eles ainda insistem
em negar às mulheres o direito a uma assistência qualificada nesse momento
especial. Sentir na pele a emoção de um nascimento em paz é uma experiência
única, e eu lamento por aqueles que, mesmo estando tão próximos da magia e do
mistério do nascimento, preferem olhar para o lado, e ocupar-se somente da
patologia. O belo, o divino e o magnífico aparecem de uma forma resplandecente
nos nascimentos em paz, e aqueles com olhos de ver e ouvidos de ouvir
permitem-se contaminar pelo júbilo e pela alegria que deles emana."
(Ricardo Herbert Jones - Obstetra)
(Ricardo Herbert Jones - Obstetra)
sexta-feira, 31 de maio de 2013
Nos tornamos cegos para os riscos de ter filhos por cesariana
Em vez disso, somos cada vez mais levados a acreditar que
só é seguro para dar à luz em um hospital e rodeada por médicos.
A cada ano, menos da metade das mulheres grávidas no
Reino Unido conseguem ter um parto natural, sem intervenções. E apenas 42% dos
nascimentos na Inglaterra e Escócia acontecem sem uma indução, anestesia
peridural, raquidiana ou assistido por fórceps ou ventosa (extração a vácuo).
Um quarto dos bebês nascidos no Reino Unido são nascidos por cesárea.
No Brasil o cenário é ainda pior, a taxa de cesárea no
Brasil é a maior do mundo, 44%. A Organização Mundial da Saúde estabelece que
apenas 15% dos partos podem ser operatórios. Os partos vaginais são recheados
de intervenções e os partos naturais no Brasil são minoria.
São estes níveis de intervenção justificáveis? Há grandes
variações no número de intervenções entre os diferentes hospitais na
Inglaterra, o que sugere que nem todos estes podem sempre justificados pela
necessidade clínica ou demográfica.
Intervenções aparentemente inócuas, como por exemplo o
clampeamento do cordão umbilical imediatamente após o nascimento, as quais eram
realizadas rotineiramente são agora comprovadamente prejudiciais. Há evidências
de que atrasar clampeamento do cordão umbilical pode prevenir a deficiência de
ferro e melhorar o desenvolvimento a longo prazo do bebê.
Intervenções médicas, sobretudo cesarianas, também
carregam riscos significativos. Para a mãe os riscos incluem hemorragia,
infecção, embolia e trombose. Para o bebê, pode levar a dificuldades
respiratórias, problemas pulmonares, prematuridade causada pela operação que
está sendo realizada cedo demais e dificuldade com a ligação e amamentação.
Outros problemas podem ser fatais para a mãe e o bebê em
gestações subseqüentes. Recentemente, foi relatado que um número significativo
de cesarianas eletivas estão previstas, sem uma necessidade médica, e, ainda
mais preocupante, realizado antes das 39 semanas, apesar das evidências de que
um bebê pode não estar pronto para a vida fora do útero antes dessa idade
gestacional.
Nascimento em 37-38 semanas pode significar pior saúde a
longo prazo e os resultados do desenvolvimento, tais como problemas
respiratórios graves, por esses bebês do que para aquelas realizadas após as 39
semanas.
Na maioria dos casos, o parto natural é a maneira mais
segura e saudável de ter filhos e, por isso, deve ser estimulado por meio de
uma assistência humanizada, segura e de qualidade. A cesárea deve ser uma opção
somente quando o parto normal ou natural oferecer risco de vida ao bebê e à
gestante, que precisa ser informada sobre as razões que a impedem de optar pelo
parto normal.
Por que as taxas de intervenções são tão altas?
Há muitas explicações - e muitas mais perguntas - sobre
por que temos esses altos níveis de intervenção.
Os profissionais inclinam-se para abordagens médicas,
porque eles não sabem ou não aceitam a evidência do equilíbrio, ou seja, o
balanço entre os benefícios e os riscos de intervenções. Isso seria um reflexo
da fé de uma sociedade em tecnologia e tratamento médico, uma perda das
habilidades na obstetrícia, da confiança e da autonomia, ou é a dificuldade em
reunir e interpretar as evidências sobre temas complexos que são confundidos
por muitos fatores diferentes?
É claro que precisamos de chegar a um equilíbrio mais
sensato. Uma intervenção muitas vezes leva a outra. A mulher que teve uma
cesariana é mais provável que precise de uma repetição do que aquela que teve
um primeiro parto normal. A indução do trabalho de parto é mais susceptível de
conduzir a cesariana do que aquela mulher que entrou em trabalho de parto
espontâneo e uma epidural aumenta a necessidade de parto instrumental e da
necessidade de cesariana. A monitorização contínua do coração do feto em trabalho
de parto é mais susceptível de conduzir a uma cesariana em gestações de baixo
risco, sem evidências de que isso leva a uma melhor saúde para o bebê.
Mas, na realidade, não são as mulheres que estão
empurrando os níveis crescentes de intervenção. Escolher ter um parto natural
nem sempre é fácil, especialmente quando os serviços de saúde não as orientam
corretamente. É comum ver relatos de médicos e parteiras que "burlam"
as mulheres e as induzem a fazer o que não querem para eles e para seus bebês.
Esse é, talvez, um indicador da diferença entre a política e a prática em
algumas circunstâncias. Suporte para parto normal e evitar intervenções
desnecessárias agora é visto por muitos como uma questão de direitos humanos.
Existem muitas evidências de estudos internacionais
demonstrando que o cuidado liderado por parteiras, sem o envolvimento médico -
a menos que seja necessário - leva a um aumento na taxa de parto normal, a
redução nas grandes intervenções e mais satisfação relatadas no atendimento.
Um grande estudo
recente comparou o cuidado da parteira em diferentes contextos, tais como
partos domiciliares ou centros de parto do hospital com cuidados obstétricos
(médicos) em gestações de baixo risco, na Inglaterra. Os resultados
demonstraram que as mulheres com gestações não complicadas que planejam o seu
nascimento com cuidado de uma parteira têm menos intervenções e o parto ocorre
de maneira igualmente segura. Os resultados suportam a política de oferecer às
mulheres saudáveis, a escolha do local para dar à luz.
No entanto, o cuidado por parteiras está disponível
apenas para uma pequena proporção de mulheres no Reino Unido e um número ainda
menor para as mulheres brasileiras. Para aumentar o número de partos normais é
preciso ampliar o acesso às parteiras e informações de alta qualidade e
oferecer verdadeiramente o direito de escolha do local de nascimento do bebê,
para as gestantes de baixo risco. Precisamos também de assegurar o apoio
pessoal adequado (como o acompanhamento de uma doula, por exemplo) e o uso de
intervenções somente quando necessário, garantindo às mulheres que precisam de
cuidados médicos que elas tenham a atenção médica de que necessitam.
Fonte:
Por Luciana Fernandes em: http://parirenascer.blogspot.com.br/2013/05/nos-tornamos-cegos-para-os-riscos-de.html.
sexta-feira, 29 de março de 2013
Qualquer forma de violência é condenável, por Ana Cristina Duarte
Qualquer forma de violência é condenável.
Uma das piores formas de violência que eu conheço é a
violência obstétrica, pelas seguintes razões:
- Atinge dois seres que estão vulneráveis, e ao mesmo
tempo: a mãe e o bebê. Às vezes atinge também o acompanhante, em geral o pai do
bebê.
- É perpetrada por um grupo que tem o domínio (equipe
profissional) em seu próprio campo de batalha (o hospital, a sala de parto).
- Muitas vezes não tem testemunha (a equipe se cala, o
acompanhante muitas vezes foi impedido de assistir o parto).
- Não é reconhecida pela sociedade, que entende que os
profisssionas sempre estavam fazendo o seu melhor e que provavelmente a mulher
é quem não colaborou/se comportou.
- Tem quase 100% de impunidade, pois as poucas denúncias
caem no buraco negro dos conselhos profissionais e sindicâncias intermináveis.
- Pode causar graves sequelas físicas e psicológicas e,
em raros casos, a morte.
- Atinge um número absurdo de mulheres em nosso país, se
considerarmos todas as suas formas. Podemos estar chegando perto de 100% de
mulheres que foram ou serão submetidas à violência obstétrica durante seus
partos.
São atos de violência obstétrica:
- Impedir que a mulher seja acompanhada por alguém de sua
preferência, familiar ou de seu círculo social.
- Tratar uma mulher em trabalho de parto de forma
agressiva, não empática, grosseira, zombeteira ou de qualquer forma que a faça
se sentir mal pelo tratamento recebido.
- Tratar a mulher de forma inferior, dando-lhe comandos e
nomes infantilizados e diminutivos, tratando-a como incapaz.
- Submeter a mulher a procedimentos dolorosos
desnecessários ou humilhantes, como lavagem intestinal, raspagem de pelos
pubianos, posição ginecológica com portas abertas.
- Impedir a mulher de se comunicar com o “mundo
exterior”, tirando-lhe a liberdade de telefonar, usar celular, caminhar até a
sala de espera etc.
- Fazer graça ou recriminar por qualquer característica
ou ato físico como, por exemplo, obesidade, pelos, estrias, evacuação etc.
- Fazer graça ou recriminar por qualquer comportamento
como gritar, chorar, ter medo, vergonha etc.
- Dar bronca, ameaçar, chantagear ou cometer assédio
moral com qualquer mulher/casal por qualquer decisão que ela possa ter tomado,
quando essa decisão for contra as crenças, fé ou valores morais de qualquer
pessoa da equipe, por exemplo: não ter feito ou ter feito inadequadamente o pré
natal, ter muitos filhos, ser mãe jovem (ou o contrário), ter tido ou tentado
um parto em casa, ter tido ou tentado um parto desassistido, ter tentado ou ter
efetuado um aborto, ter atrasado a ida ao hospital, não ter informado qualquer
dado, seja intencional, seja involuntariamente.
- Fazer qualquer procedimento sem explicar antes o que é,
por que está sendo oferecido e, acima de tudo, SEM PEDIR PERMISSÃO.
- Submeter a mulher a mais de um exame de toque (ainda
assim quando estritamente necessário), especialmente por mais de um
profissional, e sem o consentimento, mesmo que para ensino e treinamento de
alunos.
- Dar hormônios para tornar mais rápido e intenso um
trabalho de parto que está evoluindo normalmente.
- Cortar a vagina (episiotomia) da mulher quando não há
necessidade (discute-se a real necessidade em mais que 5 a 10% dos partos).
- Dar um ponto na sutura final da vagina de forma a
deixá-la menor e mais apertada para aumentar o prazer do cônjuge (“ponto do
marido”).
- Subir na barriga da mulher para expulsar o feto
(manobra de Kristeler).
- Submeter a mulher e/ou o bebê a procedimentos feitos
exclusivamente para treinar estudantes e residentes.
- Permitir a entrada de pessoas estranhas ao atendimento
para “ver o parto”, quer sejam estudantes, residentes ou profissionais de
saúde, principalmente sem o consentimento prévio da mulher e de seu
acompanhante com a chance clara e justa de dizer não.
- Fazer uma mulher acreditar que precisa de uma cesariana
quando ela não precisa, utilizando de riscos imaginários ou hipotéticos não
comprovados (o bebê é grande, a bacia é pequena, o cordão está enrolado).
- Submeter uma mulher a uma cesariana desnecessária, sem
a devida explicação dos riscos que ela e seu bebê estão correndo (complicações
da cesárea, da gravidez subsequente, risco de prematuridade do bebê,
complicações a médio e longo prazo para mãe e bebê).
- Submeter bebês saudáveis à aspiração de rotina,
injeções e procedimentos na primeira hora de vida, antes que tenham sido
colocados em contato pele a pele e de terem tido a chance de mamar.
- Separar bebês saudáveis de suas mães sem necessidade
clínica.
Se você, mulher, foi submetida a qualquer um desses atos
de violência, denuncie. Não permita que a violência se perpetue. Será
necessário que milhares de mulheres se ergam e digam basta, até que as mulheres
parem de sofrer. O parto é um momento de alegria, de prazer. A dor fisiológica
é suportável. Mas a dor da violência, essa pode se tornar insuportável e deixar
profundas marcas.
Para denunciar:
1) Exija seu prontuário no hospital (ele é um documento
seu, que fica depositado no hospital, mas as cópias devem ser entregues sem
questionamento e custos).
2) Escreva uma carta contando em detalhes que tipo de
violência você sofreu e como se sentiu.
—> Se o seu parto foi no SUS, envie a carta para a
Ouvidoria do Hospital com cópia para a Diretoria Clínica, para a Secretaria
Municipal de Saúde e para a Secretaria Estadual de Saúde.
—> Se o seu parto foi em hospital da rede privada,
envie sua carta para a Diretoria Clínica do Hospital, com cópia para a
Diretoria do seu Plano de Saúde, para a ANS (Agência Nacional de Saúde
Suplementar) e para as Secretarias Municipal e Estadual de Saúde. Existem
outras instâncias de denúncia, dependendo da gravidade da violência recebida,
mas um advogado deveria ser consultado.
(1 de março de 2013)
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
Um bebê saudável não é a única coisa que importa
Esse texto foi traduzido pela Clarissa Oliveira e postado em http://amaequequeroser.wordpress.com/2013/02/10/um-bebe-saudavel-nao-e-o-bastante/
"Venho sofrendo com uma questão que se tornou dolorosamente pessoal para mim: por que tantas mulheres, tantas amigas, aceitam indicações esdrúxulas de cesárea, agendam cirurgias desnecessárias, abandonam o sonho de parir, desistem de lutar contra o sistema e se tornam mais uma contribuinte à vergonhosa estatística de parto do nosso país?
Sei que as respostas são tão variáveis quanto as pessoas que se depararam com essa escolha. Cada mulher tem a sua história, seus medos e suas motivações. Mas, como antropóloga, acredito que a cultura pró-cesárea pesa muito forte nessa hora. Afinal, se todas estão fazendo, não pode ser tão ruim (algumas até dizem que “parto normal é anormal, normal é a cesárea”). Optar pela cesárea, no nosso Brasil atual, representa um alívio. Significa não precisar mais nadar contra a maré, peitar Deus e o mundo, ser chamada de louca ou taxada de masoquista (se bem que as masoquistas estão na moda, né? :-P). Nessa nossa cultura de valores invertidos (onde o que importa é o produto e as aparências, não as pessoas e seus desejos) e machistas (em que a vagina ou é “assassina” ou é “o parquinho do marido”), submeter-se à cesárea é “pensar no bebê” e “insistir” no parto normal é egoísta.
Pois eu não concordo. Não mesmo. Primeiro porque, apesar das crendices e dos mitos de cordões assassinos e vaginas deformadoras de crânio, a ciência diz categoricamente que a via vaginal é a melhor via de nascimento para um bebê salvo em raríssimos casos. E segundo porque eu não acredito que o parto se resume ao nascimento de um bebê – ou melhor, à extração desse produto bebê do corpo (traiçoeiro, descontrolável, perigoso) de sua mãe. O parto é da mulher, do bebê e da família e merece ser vivido de forma plena, crua e totalmente personalizada (e não por isso menos segura e prazerosa), por essa família. Quando o parto se torna “um mal necessário” para conseguir “um bebê saudável” – como ocorre na nossa cultura – todos saem perdendo.
E é por isso que quero compartilhar esse texto maravilhoso com vocês. Escrito pela Cristen Pascucci, vice-presidente da organização Improving Birth e especialista em política e comunicação, o original pode ser encontrado no seguinte link e a tradução segue abaixo. Espero que gostem do texto tanto quanto eu."
Um bebê saudável não é a única coisa que importa - por Cristen Pascucci
Ouvimos toda hora que “um bebê saudável é a única coisa que importa”. Isso simplesmente não é verdade – especialmente quando, com mais frequência do que deveria, o que queremos dizer é que, tanto para mães quanto para seus bebês, basta “sobreviver ao parto”. Isso não chega nem perto de ser bom o bastante.A verdade é que hoje, aqui e agora, o padrão não só pode como deve ser mais alto: um bebê saudável, uma mãe saudável e uma experiência positiva e respeitosa para todos, centrada na família.
Por que isso é tão importante? Porque o que nós esquecemos quando o foco é meramente em “sobreviver” ao parto é que, para mães, dar à luz não representa só um dia entre muitos dias de suas vidas. Para a grande maioria de nós, o parto não se resume à extração de um feto de nossos úteros da maneira mais eficiente possível.
O parto é uma experiência marcante, que fica gravada na memória para sempre. Pergunte à maioria das mães como foi o seu parto e você vai ver e ouvir a emoção vir à tona enquanto compartilham suas histórias – histórias estas que, boas ou ruins, nós revivemos intensamente e com frequência, queiramos ou não. E não esqueçamos que nossas experiências podem ter consequências importantes, duradouras e permanentes para a nossa saúde. O parto afeta o puerpério (quem nunca ouviu falar nos baby blues, aquela melancolia pós-parto?), os relacionamentos com nossos bebês e nossas famílias, e nossas atitudes perante nós mesmas e os partos que teremos no futuro.
Para os bebês, trata-se de sua primeira impressão do mundo e daqueles que serão seus principais cuidadores. Estamos comunicando aos nossos bebês desde o primeiro dia o que é o mundo, se é ameaçador ou seguro, e como nos relacionamos com esse mundo. Essa relação não poderia ser muito melhor se adentrássemos a maternidade fortalecidas pelo parto, confiantes e apoiadas?
É claro que no mundo real o parto não segue o padrão de um livro texto; complicações, mudanças de planos e desfechos indesejados acontecem. Mas mesmo nesses casos, uma mulher ainda pode ser respeitada e apoiada. Talvez não sejamos capazes de controlar a natureza, mas podemos sim controlar como tratamos as mulheres durante o trabalho de parto e nascimento. Até quando acontece o pior (especialmente quando acontece o pior!), não há nenhuma desculpa para um tratamento que não demonstre o máximo de respeito, deferência e compaixão pela parturiente enquanto ela faz suas escolhas.Porque o que é mais curioso sobre a frase de “bebê saudável” é que, com tanta frequência, ela é empregada para justificar uma experiência decepcionante, difícil ou traumática. É dita por nossos médicos, nossos amigos e nossos parentes enquanto ainda não nos recuperamos do choque do que acabou de acontecer: enquanto tentamos entender uma experiência que fugiu, inesperadamente, ao nosso controle. E sim, também dizemos a frase para nós mesmas.
Então qual é a peça chave para um novo padrão? Somos nós! São as mulheres cujo dinheiro alimenta a indústria que nos provê desses serviços e cuidados. Embora muitas não tenham se tocado disso, somos nós que estamos com a faca e o queijo na mão. Imagine o que aconteceria se nós, milhões de mães e pais e seus amigos, de fato tomássemos para nós esse poder e fizéssemos uso dele.
Podemos começar pela educação, nos informando sobre o que seria um cuidado digno – respeitoso, baseado em evidências – e daí passando a buscar esse cuidado com consciência crítica quando conversamos com potenciais médicos. Podemos ficar atentos aos sinais de alerta – coisas como ouvir do médico que “não será permitido” ou que você “não pode” fazer tal coisa – e parar de ignorar nossos instintos! Na minha opinião, escutar uma frase como “um bebê saudável é a única coisa que importa” se encaixa nessa categoria. Essa frase me diz, “o que quer que aconteça na sala de parto/centro cirúrgico, você não terá o direito de reclamar. Se nós lhe entregarmos um bebê vivo, fizemos o nosso trabalho.”
Por fim, e talvez o que é mais importante, podemos exercer o nosso poder abandonando aqueles médicos que não nos oferecem bebês saudáveis, mães saudáveis e uma experiência positiva, respeitosa e centrada na família.
Para mães e bebês, sobreviver ao parto não é o bastante. É só o ponto de partida.
Sabe aqueles vídeos e explicações sobre sua escolha por um parto humanizado, os quais você fica como louca buscando?
ESTÃO AQUI:
http://alaya77.blogspot.com.br/p/videos-documentarios-e-reportagens.html?showComment=1361459656790
Uma super compilação com várias das pessoas que a gente considera como líderes, como aqueles que nos ensinam, apoiam, orientam, que dão exemplo!
Não deixe de visitar!!!
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quarta-feira, 31 de outubro de 2012
Morte por cesariana desnecessária
Da obstetra Carla Andreucci Polido, sobre a morte por
cesariana desnecessária.
"Morte materna é um fato incontestável. Perdemos
mais uma brasileira, sem riscos anteriores, submetida a uma cesariana eletiva
por "circular de cordão", que desenvolveu uma trombose intestinal no
pós operatório.
Cesariana é uma grande cirurgia, com todas as grandes
implicações que isso representa. Realizá-la sem indicação clínica é submeter a
mulher e a criança a riscos desnecessários, por mais avançada que seja nossa
medicina.
Há necessidade de melhora de nossa assistência
obstétrica, fato incontestável. Mas essa melhora precisa passar pela
qualificação da assistência ao parto normal em primeiro lugar.
Chega de operar todo mundo por comodidade dos serviços ou
dos profissionais, ou mesmo das famílias.
Vamos voltar a fazer obstetrícia de verdade, com toda a
tecnologia incorporada à prática, sempre que realmente necessária.
Essa é a evolução da ciência.
Assim salvamos vidas."
terça-feira, 25 de setembro de 2012
Cesariana Humanizada
O problema de expressões como “cesariana humanizada”
ocorre porque existe um conceito no mundo da humanização do nascimento de que
tal procedimento cirúrgico não pode ser chamado de “humanizado”, pois lhe falta
um elemento essencial na humanização: o protagonismo. Sem o resgate do
protagonismo nunca haverá verdadeira humanização. Portanto uma cesariana pode
ser “humana”, gentil, digna e respeitosa, mas jamais "humanizada",
pois carece do elemento mais fundamental para contemplar essa definição. Não
existe "apendicectomia humanizada", “histerectomia humanizada”, ou
qualquer cirurgia que mereça esse epíteto, pois o protagonismo é do médico, e
não da paciente. Numa cesariana a mesma coisa. Cesariana é cirurgia obstétrica,
não é parto; portanto é um procedimento técnico, regido por protocolos médicos,
e nesse contexto as mulheres são necessariamente passivas.
O parto, pelo contrário, é ATIVO. É algo que a mulher
FAZ, e não ao qual é submetida. Somente aí poderão aparecer os elementos
constitutivos e definidores da humanização: o protagonismo, a visão integrativa
(bio-psico-social-emocional-espiritual) e a vinculação com a medicina baseada
em evidências.
Hoje em dia eu acredito que o ativismo só tem sentido
quando está focado no bem estar das pessoas. Veja bem, até a biblioteca
Cochrane se vacinou contra esse tipo de essencialismo obliterante e
homogeneizante ao difundir a Medicina Baseada em Evidências. Eu escrevi um
capítulo no meu segundo livro só para tratar desse tema, pois acredito que as
nossas convicções, por mais adequadas e humanistas que sejam, não podem solapar
a individualidade. Sou um defensor da liberdade, e acredito mesmo que o
individualismo - mesmo com sua tendência egocêntrica - é o único anteparo que
temos à barbárie. Com a ideia SEMPRE PRESENTE de que CADA MULHER É DIFERENTE DA
OUTRA fica impossível dizer "eu jamais faria isso". No que concerne a
um evento tão complexo como o parto, é injusto condenar mulheres que optam por
uma cesariana "sem andar 100 km dentro dos seus mocassins", assim
como não é adequado julgar um médico que, por alguma razão BEM ESPECÍFICA E
RARA, realizou uma cesariana a pedido, sem indicações clínicas evidentes. Se
isso não nos autoriza a realizar cesarianas à rodo, pelo menos nos mostra que
existem exceções, e que algumas vezes elas podem ser justificadas.
A multiplicidade das circunstâncias e a infinidade
incontável de histórias constitutivas do sujeito fazem do parto um evento
absolutamente único, vinculado às formas mais primitivas de organização
psíquica. O nascimento conjuga no mesmo evento morte, vida e sexualidade, no
dizer de Holly Richards. Como imaginar, então, que sua manifestação não seja
repleta de dilemas únicos e de profunda complexidade? Portanto, a partir do
momento em que aceitamos a visão complexa e subjetiva do fenômeno humano,
expresso no nascimento, as posturas "fechadas" como "eu
sempre" ou "eu nunca" acabam se tornando slogans do passado, um pouco
cafonas, que apenas nos lembram dos ímpetos da juventude, mas que necessitam da
sabedoria que vem com o amadurecimento.
Quando defendo o arrefecimento das posturas radicais, não
o faço pela desistência aos ideais. Pelo contrário: é para que os mesmos sonhos
não se dissolvam no calor da arrogância ou na insensatez dos extremismos. Todas
as ideias renovadoras na humanidade precisam ser bafejadas pela visão
humanista, que coloca o Homem como centro de nossas ações. Nossa luta por
partos humanizados só pode ter sentido se nos lembrarmos constantemente de que
as ideias de nada valem sem as pessoas.
E só pode ser para elas, em sua característica única, a
nossa atenção.
De: Ricardo Herbert Jones
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